Skip to main content

Full text of "Galeria de varões illustres de Portugal"

See other formats


^p^: -^ 

^ /'^ -^> 






-^r ?* 



•íííb 



W J^' 



3:.» ;/^-?« 






^'M/*- 






W^^i*, 



íSS»^. 






LIVRARIA ACADÉMICA 

J. GUEDES DA SILVA ^ 

8, R. MÁRTIRES OA LIBERDADE, 12 " >^ 
PORTO — TELEFONE, 26988 " \ 




s^- 



ú^ 



^' -^^ 



/ 



k 



GALERIA 



DE 



VARÕES ILLUSTRES 

DE PORTUGAL 



X." 2 




VASCO DA GAMA 



GALERIA 



DE 



VARÕES ILLUSTRES 



DE PORTUGAL 



J. M. Í.ATLNO COELHO 



N/' 2 



VASCO DA GAMA 



PRIMEIRA PARTE 




DAVID CORAZZI- EDITOR 
EMPREZA— HORAS ROMÂNTICAS 

|u-Rua da Atalaya — 52 
LISBOA 



Os direitos de propriedade d'esia obra, no Império do 
Bra::;ilj, pertencem ao ilL"'o e ex.'>'o sr. commendador Bi- 
biano António de Moraes e Almeida, súbdito bra':{ileiro. 



Lisboa -Imprensa Nacional- 1882 



ADVERTÊNCIA PRELIMINAR 



O primeiro numero da Galeria dos varões illiístres 
foi consagrado, por occasião do centenário, a comme- 
morar o génio do grande poeta, que mais do que ne- 
nhum outro portuguez contribuiu para immortalisar a 
gloria da nação c tornar ainda, se era possível, mais il- 
lustre c celebrado o nome de Portugal. 

O cantor dos feitos portuguezes, na primeira e mais 
insigne das modernas epopcas, tomara por assumpto 
principal o temerário descobrimento da senda marítima 
da índia, e enlaçara com esta assombrosa empreza a his- 
toria do povo portuguez e a conimemoração dos seus 
heroes. 

Ao poeta devia segulr-se naturalmente, como fazendo 
pela navegação e pelas armas o que o vate celebrara 
nos seus cantos, o maior de quantos portuguezes illus- 
traram pelo esforço os fastos nacionaes; ao Camões, 
Vasco da Gama. São estes, de feito, os luzeiros mais 
intensos de toda a nossa gloria. Poderão extranhos 
porventura ignorar os nomes de outros varões illustres e 
beneméritos pelas suas façanhas bcllicosas ou pela sua 



valia litteraria. Mas se no extenso catalogo dos c]uc 
honraram a pátria pelo pensamento ou pela acção, a 
indifferença e o esquecimento riscassem os Pachecos, 
os Albuquerques e os Castros entre os homens de es- 
pada vencedora, e os Sousas, os Vieiras, os Bernardes 
entre os homens de engenho inimitável, ainda a mais im- 
piedosa mordacidade não ousaria cancellar estes dois no- 
mes, — Camões e Vasco da Gama. Ainda elles, conso- 
ciados na mesma grande idéa nacional, haveriam de 
levar á posteridade a fama portugueza, quando no de- 
correr dos séculos, não restar outra memoria de que um 
dia, n'um recanto do Occidente, existiu e floreceu um 
povo de heróicos aventureiros, que a todas as nações se 
antecipou em traçar a communicação com o Oriente. 

Camões c o génio portuguez, Vasco da Gama o brio 
nacional. Um é o espirito, outro a força; um o pensa- 
mento, o outro a acção; o estro e a audácia. Um liga a 
litteratura de Portugal a do restante mundo civilisado, 
o outro prende e enlaça intimamente os fados gloriosos 
da nação aos futuros destinos da humanidade. 



Por isso o segundo logar da Galeria, — segundo no tem- 
po, egual na honra, — pertence agora ao immortal desco- 
bridor. 

Era intenção do auctor resumir e compendiar n'um 
só volume a vida do grande navegador. Mas os feitos, 
de que ella se entretece e o mérito singular da sua empre- 
za, ficariam talvez menos perfeitamente comprehendidos 
se .não a precedesse um estudo consagrado a expla- 
nar os seus antecedentes, o progresso das nossas navega- 
ções desde as primeiras tentativas do infante D. Henri- 
que, e os esforços empenhados antes dos nossos marean- 
tes, nos tempos mais antigos e durante a edade média, 
para domesticar o Oceano rebelde a quilhas aventureiras, 
para circumnavegar a costa de Africa e communicar por 
terrestres excursões ou marítimas emprezas as terras do 
Occidente ás regiões orientaes. 

Egualmente convinha elucidar quaes eram na Europa 
nos tempos medievos as noções mais correntes e seguidas 
sobre o conhecimento do nosso globo, para que em pre- 
sença dos erros e phantasias então enraizadas e predo- 



minantes nos espíritos de quilates mais subidos, se 
podesse ajuizar em que proveitos para a civilisação e 
para a sciencia haviam redundado as nossas traballiosas 
e incessantes navegações, proseguidas no espaço de quasi 
um inteiro século. 

E também aquelles prolegómeno« pareciam necessá- 
rios para que os portuguezes, satisfazendo-se e conten- 
tando-se da gloria immortal e verdadeira, não quizessem 
ainda mais avolumar os próprios loiros, escurecendo e 
deslustrando o que antes d'elles podessem outros menos 
arrojados e felizes haver emprehendido e acabado. 

Era a principio contraído a breves paginas um tal 
preambulo ou introducção. Mas como succede sempre 
em largo assumpto, em que é preciso ler e conferir 
muitos escriptos e fazer ampla colheita de notas e apon- 
tamentos, foi crescendo, ainda que abreviada, a tama- 
nhas proporções, que não cabia com a biographia do 
Gama n'um só tomo, sem que este fosse de volume des- 
mesurado. 

Pela copia de noticias, que se haviam accumulado no 



preambulo, e poderiam interessar aos que ainda prezam 
a memoria das nossas passadas aventuras e grandezas, 
pareceu ao editor ser mais conveniente fazer d'estas 
noções preparatórias um tomo separado, e repartir cm 
dois um thcma, que a principio o auctor se propozera 
conglobar n'um livro único. Assim o estudo acerca do 
illustre navegador consta de duas partes; a primeira 
commemora Os Precursores de Vasco da Gama ; a segun- 
da historia os seus feitos guerreiros e navaes nas suas 
três viagens. D'esta maneira o leitor achará summaria- 
das as principaes noções sobre a circumnavegação da 
Africa e a communicação com o Oriente desde os mais 
antigos tempos ate que no vice-reinado, em que Vasco 
da Gama termina com a existência os seus triumphos, 
está já dillundido e cimentado no Oriente o império por- 
tuguez. 

A memoria d'csta heróica fundação servirá ao menos 
de consolar os que hoje contemplam e lastimam a que 
ponto deixámos abater os nossos brios c perder quasi 
inteiramente o theatro das mais brilhantes glorias. 



os PRECURSORES 



DE 



VASCO DA GAMA 



CAPITULO I 

o SÉCULO XV 

Ce temps cst . . . cclui de la plus grande 
activitc extérieure des hommes, c'est un 
temps de voyages, d'entrepnses, de décou- 
vcrtcs, d'inventions de tous gcnres. Ccst 
Ic temps des grandes expéditions des Por- 
tugais le long des cotes d'Afrique, de la 
dccouverte du passage du cap de Bonne 
Esperance par Vasco de Gama. 

GuizoT, Hisí. de la civilisation cu Eu' 
rope, XI leçon. 

Quando as sombras da edade média começa- 
vam de tingir-se com os primeiros arreboes do 
Renascimento, duas inspirações e dois anccios 
agitavam o espirito europeu, já porventura fa- 
tigado da sua vida interior e domestica, já prc- 
sago da multiforme e dilatada civilisaçáo, que ao 
pleno despertar da intelligencia havçrja de con- 



VARÕES ILLUSTRES 



verter a velha Europa em luzeiro de toda a hu- 
manidade e em soberana região do globo inteiro. 
Anhelava por sair da gleba conhecida e da 
própria quadra em que vivia. Era como que uma 
forçosa necessidade do seu novo organismo es- 
piritual o romperas fronteiras, que a cingiam, e 
arremeçar-se aventureira pelo espaço e pelo tem- 
po, inquirindo e prescrutando as paragens mais 
remotas e as eras já passadas. O problema, que 
lhe incenderá a phantasia e a rasão, era o de 
conhecer e contemplar o género humano em toda 
a sua completa evolução e unidade, ligando o 
pretérito com o presente, e o de alargar os lin- 
des geographicos, vinculando á terra conhecida 
ignotas ou mal sonhadas regiões. 

Não estivera de todo amortecida durante os 
séculos medievos a curiosidade nos espíritos 
mais lúcidos e nos engenhos de eleição. Quando 
as trevas da barbárie primitiva se foram adelga- 
çando, os grandes monumentos do pensar anti- 
go e clássico se iam deixando entrever e admi- 
rar, envoltos em neblina de vago mysticismo. 
Atou-se, como era dado em tempos tão escas- 
sos, a tradição das grandiosas civilisações, que 
tinham meneado antigamente o sceptro do uni- 
verso. Deletreou-se nos gregos e romanos escri- 



VASCO DA GAMA 5 



ptores o que haviam registrado em suas obras 
acerca da terra e da natureza, vagamente deli- 
neada e conhecida. Floreceram, a uma parte, as 
escolas, onde espiritos de quilates tão subidos, 
como Roger Bacon, e S. Thomás, e Alberto 
Magno, e Vicente Bellovacense, e Brunetto La- 
tini, enlaçavam as doutrinas da antiguidade ás 
suas próprias phantasias. Principiavam, a outra 
parte, as viagens e aventuras áquellas longínquas 
e cubicadas regi5es, de que os antigos haviam 
deixado o rasto nebuloso em seus escriptos. Te- 
merários aventureiros, como o veneziano Marco 
Polo, o inglez João de Mandeville, o francez Gui- 
lherme de Rubruquis, haviam já levantado uma 
ponta sequer do espesso véu, que trazia enco- 
bertas e defesas á curiosidade egoista de euro- 
peus áquellas terras, as quaes a imaginação se 
comprazia em debuxar e colorir de mil encanta- 
das maravilhas. 

Os laços porém, que vinculavam ao mundo 
conhecido as terras orientaes e africanas, eram 
ainda tão frouxos, tão incertos, tão entretecidos 
de fabula e conjectura, que até o fecundo alvo- 
recer do Renascimento se podia haver como per- 
dida para o saber e o commercio dos europeus 
a máxima porção do globo inteiro. 



VARÕES ÍLLÚSTRÊS 



As terrestres e raras excursões, que poucos 
viajantes curiosos haviam emprehendido, che- 
gando alguns, como Marco Polo, até os últimos 
confins do Oriente, eram emprezas isoladas sem 
nexo, nem systema. Ficariam totalmente infru- 
ctuosas, se por outros caminhos mais asados e 
com maior perseverança e successão os ousados 
navegantes do Occidente não houvessem traçado 
com a proa das suas caravellas e baixeis, por 
mares virgens de lenho e férteis em tormentas, 
a estrada real á nova e prodigiosa communica- 
ção dos povos mais distantes e ás rápidas con- 
quistas da sciencia. 

Durante a edade média, se fizermos excepção 
doeste ephemero delirio das cruzadas, a Europa 
vivera adormecida para toda a inquirição experi- 
mental acerca da natureza e das terras, que de- 
moravam para alem dos seus limites estreitíssi- 
mos. Quando os primeiros clarões da antigui- 
dade começaram de novo a divisar-se por entre 
frinchas mal abertas, quando os sábios e pensa- 
dores poderam ter á mão, incorrectos e mal in- 
terpretados, os monumentos da sciencia greco- 
romana, o espirito da Europa julgou que mais 
nada podia caber no engenho humano, senão o 
que os antigos haviam legado em seus thesouros 



Vasco da gama 



de sciencia e erudição. A natureza parecia que 
fielmente se espelhava nos tratados de Aristóte- 
les. A cosmographia estava irrevogavelmente 
delineada nos dictames de Hipparcho e Ptole- 
meu. A medicina estava soberana e indefectivel- 
mente legislada nas obras de Galeno e nos ára- 
bes commentadores, cujo principado coubera a 
Avicena. O universo tivera como que a segunda 
creação no espirito omnividente do grande sta- 
girita. A terra, com os seus mares e continen- 
tes e archipelagos, recebera a sua forma e a sua 
repartição pelo dictado irrefragavel dos geogra- 
phos alexandrinos. O mesmo dogmático despo- 
tismo, que trazia encadeados os ânimos na es- 
phera espiritual, tolhendo ou encurtando o voo 
aos pensadores menos submissos ao jugo da tra- 
dição, imperava geralmente, enleiando o enten- 
dimento e a rasão nos dominios do saber. Os 
assertos de Ptolemeu ou de Aristóteles tinham 
na sciencia e na cosmographia tão inconcussa 
auctoridade, como nas doutrinas theologicas os 
textos da escriptura, as sentenças dos santos 
padres e as decisões da egreja universal. A fé 
em certa maneira se humanisava nas escolas e 
na forma de theologia convertia-se^ em sciencia 
philosophica. A sciencia, por um processo con- 



VARÕES II.LUSTRES 



traposto, por assim dizer, divinisava-se, e sob o 
fanatismo aristotélico, transmudava-se em fé re- 
ligiosa. O que o mestre definira passava por lei 
inquebrantável. A sciencia fatigava-se e consu- 
mia-se a glosar, a inquirir e não raro a des- 
figurar por subtis, engenhosas, mas estéreis 
commentações o venerando texto da antigui- 
dade. Era então a elaboração intellectual da 
edade média como se fora uma perpetua rumi- 
nação, uma segunda digestão em novo estôma- 
go, como de faminto dromedário, que em meio 
de arenosa e sêcca plaga, sem uma fibra sequer 
da planta mais rasteira, está enganando a fome, 
que o devora. 

Alguns espíritos, que se arremeçavam com 
mais brioso Ímpeto ás paragens nevoentas do 
futuro, ousavam algumas vezes deixar a trilha 
habitual, e emancipando-se do tyrannico jugo 
dos antigos, mal interpretados e entendidos, 
podiam rastrear que fora dos tratados de Aris- 
tóteles havia a natureza genial, verdadeira, 
inexhaurivel, e alem das tábuas geographicas 
de Ptolemeu uma terra mui differente da que 
elle phantasiára e descrevera. Roger Bacon é 
porventura em todo este crepúsculo matinal da 
intelligencia, que appellidâmos edade média. 



VA^CO DA GAMA 



quem mais alto voejou acima dos erros consa- 
grados. Estava porém guardada para séculos 
mais lúcidos e mais perscrutadores o trocar os 
dogmas canonisados da antiga sciencia e geo- 
graphia pelo conhecimento experimental, pela 
directa interrogação da natureza, e pela con- 
demnação das erróneas tradições, que trouxe- 
ram por longos tempos algemada a sciencia e a 
rasão da humanidade. 

O século XV constitue a passagem progres- 
siva dos tempos medievos para a nova edade 
na Europa civilisada. É a quadra, em que a 
europêa christandade, depois de lastimosas con- 
vulsões, tem chegado á adolescência e matura- 
ção, despindo lentamente a cortiça da barbá- 
rie. Estão já constituídas em grande parte as 
modernas unidades nacionaes pela victoria dos 
imperantes contra a anarchia social do feuda- 
lismo. Desapparece para sempre, como quem 
é já de mais no organismo da christandade, o 
caduco império do Oriente, a extrema e dege- 
nerada reliquia da antiga sociedade greco-roma- 
na. E para contrapesar a irrupção dos mu- 
sulmanos nas extremas oricntaes da Europa 
com as hordas invasoras de Mahomet II, dei- 
xam de brilhar pouco depois, ao sol brilhante 



IO VARÕES ILLUSTRES 

das Hespanhas, os crescentes, outr'ora trium- 
phaes e conquistadores, nos minaretes e nas 
mesquitas de Granada. 

Este século xv representa para com o seguin- 
te, que é a culminação da Renascença, a mesma 
funcção admirável, que na evolução da humani- 
dade competiu ao xviii século, como portada c 
frontespicio da edade nossa contemporânea. Fo- 
ram ambos assignalados por larga e profunda 
elaboração, como que trabalhoso noviciado c 
preparação para os brilhantes estados sociaes, 
que vieram distinguir as edades subsequentes. 
Assim como Watt e a primeira machina de va- 
por applicavel aos usos industriaes foram os 
gloriosos precursores da prodigiosa civilisação 
do século presente, assim também a fecunda 
invenção de Fust e Guttemberg prenunciam a 
nova epocha das sciencias e das letras no es- 
plendido florir da Renascença. 

A Europa sente no xv século que mais altos 
destinos, que os da vida quieta e remansada, a 
estão appellidando para novas e grandíssimas 
emprezas. Não lhe podem já bastar á nervosa 
actividade as guerras interiores e as contenções 
domesticas sem fructo e sem valor. Pressente 
que uma nova transformação, vagamente sus- 



VASCO DA GAMA 1 1 



peitada, é já agora necessária ao seu viver. É do 
Norte que desponta, com a imprensa, a primeira 
e grandiosa innovaçáo, o instrumento precioso 
da cultura intellectual. Pois, ao contrario, será 
das terras europêas do Meio-dia e Occidente que 
ha de brotar e florecer outra rama não menos 
inesperada da civilisaçáo universal. Descobre 
Guttemberg o apparelho, em que se corporifica 
e perpetua o pensamento. Mas é em Portugal 
que háo de nascer as mais assombrosas maravi- 
lhas, que o prelo e os typos moveis hão de escre- 
ver e recontar. 



b 



CAPITULO II 

O TEMPO DOS GRANDES DESCOBRIMENTOS 

Buscas o incerto e incógnito perigo 
Porque a fama te exalte e te lisonjc. 
Chamando-te senhor com larga copia 
Da índia, Pérsia, Arábia e da Ethiopia. 
Camões, Lusiad., iv, loi. 

Por uma singular contradicçáo e paradoxo é o 
homem, quando chegado a um grau já eminente 
de progresso, de sua natureza aventureiro, quasi 
nómada como no primeiro alvorecer de agreste 
vida^ social. Apenas as gentes, que demoram 
n'um Ínfimo estádio de cultura, achegadas na 
condição e nos costumes á bruteza de silvestres 
animaes, se contentam de vagar pelas terras do 
seu berço, contrahindo as vistas incuriosas a bre- 
ves horizontes e cifrando em poucas léguas de 
contorno todo o seu mundo conhecido. Em todos 
os tempos e logares, em que houve uns princí- 
pios já crescentes de cultura, a migração c lei e 
natureza dos povos adolescentes. Parece estreita 



14 VARÕES ILLUSTRES 

a pátria ainda aos que mais a prezam e reveren- 
ceiam. Mais se nos afiguram avantajados os pe- 
nates, quando os transplantamos a distantes re- 
giões, onde a pátria primitiva lance novas raizes e 
braceje rebentos mais viçosos e vergonteas mais 
opimas. Enlaça-se, como por instincto irresistivel, 
a uma civilisaçáo adiantada este anceio insaciá- 
vel por dilatar os confins da terra, onde nasceu. 
É como se disséramos a aspiração porventura in- 
consciente para este venturoso cosmopolitismo, 
em que o homem seja a final o cidadão e o cultor 
da terra inteira, e em que para um só globo, tor- 
nado em património universal e em lar commum, 
haja também uma só humanidade, uma só grei. 
D'ahi procedem as colonisaç5es e as conquistas, 
d^ahi estas correntes ora impetuosas, ora lentas, 
que desde a mais remota antiguidade tem vindo 
sem cessar sulcando a terra, transplantando com 
as tribus e os povos mais diversos, as instituições, 
os costumes, as industrias, as idéas, os mythos, 
as religiões. A migração poderamos chamar-lhe a 
circulação da humanidade. Sem ella, o progres- 
so, que é a vida das nações, ficaria inerte, infe- 
cundo, immobilisado. Assim também os ventos, 
as borrascas, as correntes, que revolvem em on- 
das empoladas e em temerosos escarcéus a face 



VASCO DA GAMA l5 



do OceanO; quando parece que perturbam a 
branda quietação e o manso dormitar da natu- 
reza, estão fazendo o seu officio beneficente e 
assegurando á terra madre a sua perpetua ju- 
ventude e a sua inexhausta fecundidade. Do 
instincto natural da migração procederam na 
antiguidade as famosas expedições de assyrios 
e de persas, de macedonios e romanos. D^elle 
nasceram, depois de implantado o christianismo, 
as irrupções dos bárbaros septentrionaes, que 
transfundiram novo sangue no anemico império 
do Occidente, já decrépito. D^ahi tiveram a sua 
origem as cruentas expedições dos musulmanos, 
que hasteando o pendão de um novo credo, en- 
thusiasta, ardente, exclusivo, dilataram as suas 
conquistas desde as plagas meridionaes da Hes- 
panha e da Sicilia ate aos extremos confins da 
índia oriental. D'ahi se originou aquelle tumul- 
tuoso movimento das cruzadas, em que a Eu- 
ropa christã se foi arremessar contra o Levante, 
em demanda dos sagrados logares, incunabulo e 
metrópole da fé. D'ahi vieram aquellas torrentes 
de bárbaros indómitos, que ao mando deTamur- 
Lan e Gengis-Khan revolveram a Ásia, des- 
truindo as antigas monarchias e fundando novas 
dominações. 



i6 var5es illustres 

De todas as antigas expedições, se houvermos 
de exceptuar as de Alexandre, nenhum ou es- 
casso fructo redundou á geral civilisaçáo, ao 
conhecimento de ignotas regiões, e ao trato re- 
ciproco e duradouro das gentes mais remotas e 
alheias entre si. Das emprezas europêas, depois 
de estabelecida e firmada a christandade, algu- 
ma luz se derivou, com que foi dado entrever, 
como se fora do átrio e da portada, as magni- 
ficências asiáticas. Mas quietado que foi aquelle 
sublime devaneio, a Europa tinha caído nova- 
mente na sua indolência habitual, remittindo com 
as guerras intestinas e as mutuas contendas fra- 
tricidas a aspiração, nunca de todo o ponto 
amortecida, para novos e extranhos descobri- 
mentos. 

Os caminhos terrestres eram durante a edade 
média e ao alvorecer da Renascença, tão longos, 
tão difticeis, tão asados a mil insuperáveis con- 
tratempos, que não convidavam a longínquas ex- 
pedições. O commercio e communicação dos 
povos europeus eram naturalmente limitados e 
tardios. Não havia ainda então nações marítimas, 
que sustentassem grossas armadas no Oceano e 
aventurassem as galés aos lances e aos perigos 
de largas navegações. A Inglaterra, cujas frotas 



VASCO DA GAMA I7 



avassallam hoje os mares e andam continuamente 
circumdando o globo com uma cinta de ferro e de 
vapor, convertia o esforço e a cubica ás guerras 
diuturnas contra a França, ou ás contenções san- 
grentas e ferozes entre as facções implacáveis de 
York e de Lancaster. 

Somente do reinado de Henrique V, ao fin- 
dar o primeiro quartel do século xv, data a re- 
gular e pautada constituição d'esta poderosa 
força naval, que fez depois surgir dos mares e 
das tormentas o império e a pujança da In- 
glaterra. Era ainda como em débil embryão 
este poder, que ora vemos assombrando com as 
suas cidadellas fluctuantes e com as suas gigan- 
tes machinas de guerra todos os rincões do glo- 
bo, onde ha povos que submetter, e mares que 
navegar, e riquezas que fruir. 

A França, trabalhada pela guerra, empenhada 
cm defender ou reconquistar o território contra 
a ambição perseverante dos seus irrequietos 
vizinhos inglezes, dilacerada pelas cruentas luctas 
civis das suas facções, convellida pelas temero- 
sas insurreições da jacqiierie e dos maillotins, 
mal podia estender as suas vistas alem da terra 
pátria, cruelmente assoberbada por quantos las- 
timosos infortúnios podem abrumar uma nação 



l8 VARÕES ILLUSTRES 

e pôl-a a pique da sua ultima catastrophe. 
A marinha franceza estava ainda apenas em co- 
meço. Eram em grande parte as republicas mer- 
cantes e marítimas da Itália, — Veneza, Pisa, 
Génova, — quem nas mais urgentes aperturas 
ministravam ás d3aiastias de Gapeto e de Valois 
os baixeis, com que prover ás suas curtas expe- 
dições. 

O sacro império de Allemanha, esta anarchica 
e mal connexa oligarchia de príncipes e eleitores 
seculares e ecclesiasticos, mal podia então pen- 
sar em diffundir para longe da Europa continen- 
tal os bellicosos brios, que mais tarde, sob o 
sceptro de Carlos V, ameaçaram os estados eu- 
ropeus com o prospecto da monarchia universal. 

A Allemanha, que ainda hoje, apesar do seu 
recente poderio, náo alcançou tornar-se uma po- 
tencia naval de primeira ordem, era no século xv 
apenas celebrada, nos fastos marítimos do mun- 
do, pelas emprezas propriamente mercantis, que 
assignalavam a poderosa confederação das cida- 
des litoraes, a Liga anseatica, ou a Ansa teii- 
tonica. 

Estavam por estes tempos concluídas as em- 
prezas navaes e as correrias devastadoras dos 
mkings, d''estes ousados e guerreiros navegado- 



VASCO DA GAMA IQ 



res da Scandinavia, os quaes haviam infestado 
largos annos as costas oceânicas da França, fun- 
dado e fortalecido na antiga Neustria o ducado 
de Normandia, estabelecido em Nápoles e na Si- 
cilia um novo reino, senhoreado a Inglaterra, 
confirmado por frequentes irrupções o seu im- 
pério nos mares septentrionaes, e dilatado as 
suas expedições até ás orlas marítimas da Hes- 
panha, e porventura visitado as aguas africanas 
do Atlântico. 

A Itália, que de toda a Europa latina era a 
parte mais vantajosamente avançada ao Melo- 
dia, contava nos seus portos do Mediterrâneo 
e Adriático aventurosos mareantes. Eram entre 
todos preexcellentes os nautas nas poderosas e 
arrogantes senhorias de Génova e de Veneza. 
Na Itália residia pelos fins da edade média o es- 
pirito da nova civilisaçáo, que já ia raiando aus- 
piciosa. Parecia que a terra, d'onde voara de ob- 
scuro e escasso ninho á dominação universal a 
águia romana, tendo já perdido o império mate- 
rial do mundo conhecido, se queria desquitar da 
sua immensa perda, assumindo novamente, co- 
mo cm património hereditário, o primado dos 
espíritos. Ali estava para a fé o centro c fanal da 
christandade, ali para a rasáo e para a arte o 



20 VARÕES ILLUSTRES 



cérebro da Europa. Ali principiava a restaura- 
ção das letras, quasi obliteradas ou caídas na 
barbárie. Ali se iniciava com as republicas, tem- 
pestuosas, mas sempre varonis, a aurora da li- 
berdade. Ali das faxas byzan tinas ia saindo a 
arte moderna. Ali se começava a desentranhar 
em preciosos artefactos a industria renascida. 
Ali florescia e prosperava a navegação. Mas 
era dentro do Mediterrâneo que se exercia qua- 
si exclusiva a energia naval italiana. Era prin- 
cipalmente para as ilhas e plagas do Levan- 
te, para os portos do Mar Negro e para as ri- 
bas africanas do Mediterrâneo, que endireitavam 
as proas cubiçosas as galés genovezas e venezia- 
nas. A guerra ou a ambição predominavam 
sobre o ardor cavalleiroso e pertinaz em alargar 
por incertas navegações os âmbitos do mundo 
conhecido. E é notável que volvendo Marco 
Polo de suas largas peregrinações ao declinar 
do XHi século, a nova de tantas e tão grandes 
maravilhas e opulências, quaes tinha observado 
em suas jornadas, não houvesse despertado no 
animo, de um povo navegador o enérgico dese- 
jo de confirmar ou corrigir por derrotas mari- 
timas em mares desconhecidos as prodigiosas 
narrações do viajante veneziano. 



VASCO DA GAMA 2 1 



Mais próximas e comarcans do largo Ocea- 
no, d'este mar tenebroso e innavegavel dos an- 
tigos, demoravam as Hespanhas. Com a Africa 
septentrional eram fronteiriças, mediando ape- 
nas um estreito entre estas regiões, que o ódio 
hereditário de raça, de crença, e de costumes, 
inveterado no discurso de tantas guerras cruen- 
tissimas, trazia mais que nunca inimigas e apar- 
tadas. 

Ao começar o século xv estavam as Hespa- 
nhas repartidas em cinco monarchias, das quaes 
três, se não no território, ao menos no seu peso 
moral se equilibravam, constituindo um systema 
peninsular, inquieto, revolto, muitas vezes per- 
turbado, porém nunca destruído pela arrogân- 
cia e predomínio de uma d^ellas. Portugal, Gas- 
tella e Aragão repartiam entre si a maior parte 
do território, que obedecia á lei christan. Pelas 
encostas meridionaes dos Pyreneus estendia-se 
a região peninsular da pequena monarchia de 
Navarra. O Islam continuava a dominar no flo- 
rente e cultíssimo reino de Granada. Não era a 
paz e a alliança durável dos dynastas' o estado 
habitual da christandadc hispânica. Os dissídios 
c as guerras entre Gastella e Portugal enchem 
em grande parte as paginas da sua historia até 



22 VARÕES ILLUSTRES 

ao duello, tremendo e decisivo, que deu em 
Aljubarrota e em Valverde a solemne confirma- 
ção á nacionalidade portugueza, apenas depois 
eclipsada pela ephemera dominação da casa de 
Áustria. 



CAPITULO III 

PORTUGAL E AS NAÇÕES CIVILISADORAS 

Se os descobrimentos se haviam de 
estender para o sul e occidentc do 
Atlântico, nenhum povo pela sua si- 
tuação era para a solução d'este pro- 
blema em mais favoráveis circumstan- 
cias do que os porluguezes. 

Peschel, Hist. da geographia, 2og. 

Sobresaía Portugal ás demais nações peninsu- 
lares em dois inestimáveis privilégios, que o fa- 
davam naturalmente para tentar em proezas 
de naval cavallaria o senhorio do Oceano. Estava 
já desde muito desapressado das incursões e cor- 
rerias musulmanas. Não havia já na pátria 
um SÓ recanto, onde se visse tremular o bal- 
são outr'ora triumphante do propheta. Gastella, 
pelo contrario, tinha como de casa as relíquias 
ainda pujantes da mourisma, como se fora a van- 
guarda do Islam, estanceando ainda soberba, 
até que novas invasões de árabes e berberes pro- 
fanassem a gleba sagrada das Hespanhas. A de- 



24 VARÕES ILLUSTRES 

mais estava Portugal pelo Oceano mui vizinho 
das costas africanas e mais senhor de buscar em 
terra própria os mouros, que já agora lhe falta- 
vam nas fronteiras. Um illustre geographo alle- 
máo, fallando da missão histórica dos portugue- 
zes no descobrimento de novas regiões ao lon- 
go do Atlântico ao sul e ao poente, assignala 
n'estas palavras a preexcellencia de Portugal a 
este respeito : «Até então (até os primeiros des- 
cobrimentos portuguezes) os conhecimentos res- 
pectivos ás regiões do globo, por terra principal- 
mente se haviam ampliado e quasi sempre na 
direcção do occaso para o oriente. Se porém ti- 
nham de estender- se ás paragens atlânticas do 
sul e do occidente, nenhum povo pela sua po- 
sição era mais que os portuguezes accommoda- 
do á solução doestes problemas ^)) A paz definiti- 
va com o reino de Castella, as forças abatidas e 



I « BisherhattensichdieKenntnisscderErdraumemeis- 
tens zu Land uiid íiist stets in der Richtung von West 
nach Ost erweitert. Sollten sie nach dem atlantischen 
Suden und Westen ausgedehnt werden, so war kein 
Volk durch seinen Wohnsitz zur Losung dieser Aufgabe 
mehr begiinstigt ais die Portugiesen.» Oscar Peschel, Ges- 
chichte der Erdkunde (Hist. da geographia), Munich, i865, 
pag. 20C). 



VASCO DA GAMA 25 



quebradas doeste inimigo habitual, a renuncia, 
que fizera por então das suas pretensões a 
arredondar para o Occidente o herdado terri- 
tório, deixavam a Portugal respiro e lazer con- 
veniente a emprezas memoráveis e a illustres ex- 
pedições. 

Não era ainda Portugal tão desproporcionado 
como hoje em terras europêas á vastidão das 
grandes e poderosas monarchias. Não as havia, 
no estricto significado d'este nome, em princi- 
pios do século xv. A França tinha ainda não 
de todo cimentados e connexos os fragmen- 
tos, de que continuou a recompol-a e solidal-a 
a politica sagaz e absorvente do sombrio, mas 
perseverante Luiz XI. O dominio da Ingla- 
terra terminava n'aquelle tempo na fronteira do 
Tweed, que a separa da Escossia, então meio- 
barbara e silvestre, ciosa e intractavel inimiga 
da futura senhora do Oceano. Estavam ainda 
longe os dias, em que um soldado de fortuna, 
erigindo sobre o derrocado throno dos Stuarts a 
sua revolucionaria dictadura, continuando a obra 
nacional da implacável mas varonil Elisabeth, 
fizesse da Gran-Bretanha uma potencia naval 
de primeira ordem, e lhe desse o primado 
entre os povos navegadores. 



26 VARÕES ILLUSTRES 

Apesar do escasso território portuguez, não 
havia porventura ao começar o século xv em 
toda a Europa uma nação, que mais se avan- 
tajasse na fama de seus honrados feitos e brio- 
sas cavallarias. A França levara longos annos 
para sacudir o jugo opprobrioso, a que os seus 
inimigos de alem da Mancha com as celebres 
victorias de Crécy, Poitiers e Azincourt a ti- 
nham condemnado. 

Desde Philippe VI de Valois até Carlos VII cinco 
reinados se haviam succedido antes que a Fran- 
ça podesse inteiramente expungir da sua fronte 
o ferrete ignominioso da servidão ao extran- 
geiro. Portugal, pelo contrario, na sua lucta contra 
as ambições conquistadoras de Gastella, cele- 
brara sempre com um . triumpho cada uma 
das refregas, em que entrara com o seu arro- 
gante competidor. A desproporção do numero 
fora supprida largamente por esta desesperada 
valentia, qite nos momentos críticos da vida po- 
pular é para as nações como a tensão nervosa 
no braço de quem multiplica a força physica pela 
excitação do grande perigo e pelos Ímpetos da 
honra desairada. A guerra de Portugal contra 
Gastella fora assignalada por victorias tão inopi- 
nadas e assombrosas^ que haVia dado rebate em 



VASCO DA GAMA 27 



toda a Europa. Ficara pois sabendo a christan- 
dade que n^esta extrema orla occidental á beira do 
Oceano vivia e retemperava-se nas armas e no 
triumpho um povo batalhador, que em breves 
tempos subiria a emparelhar-se e competir com 
as mais celebres nações de toda a terra. Estava 
pela guerra contra vizinhos importunos consoli- 
dada plenamente a unidade nacional: que so- 
mente na guerra se fortificam e apertam os vín- 
culos da pátria. 

O povo levantando por supremo dictador a 
um bastardo, o mestre de Aviz, rompera a tra- 
dição da supposta legitimidade hereditária, e como 
sempre ha succedido, obrigara as classes privile- 
giadas a obedecer ao movimento e ao instincto 
popular. A lei mental, com que D. João I limi- 
tara a successão dos bens da coroa, tornados 
em opulento pecúlio de magnates insolentes^ 
vibrara o primeiro golpe ao poderio da nobreza. 
O povo começara a entrar como elemento pon- 
deroso na vida nacional. Portugal deixava de 
ser uma provinda rebellada contra a cubiçosa 
autocracia de Gastella, e convertia-se de vez em 
nação independente, com fronteiras signaladas 
e perpetuas. Já não era apenas um membro se- 
cundário c transitório no systema peninsular, 



28 VARÕES ILLUSTRES 

onde as monarchias e os estados haviam du- 
rante séculos padecido successivas mutações. 
Era para com a Europa inteira uma potencia 
destinada a tomar e exercer uma funcção de pri- 
meira ordem na moderna civilisação. Havia sido 
até então a emula guerreira de Gastella. Seria 
agora a mestra da christandade, na esteira de 
cujas galés aventureiras seguiriam entre assom- 
bradas e invejosas as que hoje são nações nave- 
gadoras. 

Das guerras sanguinosas com Gastella tinha 
amda sobejado grande esforço e ousadia no 
animo irrequieto e bellicoso. Tantos annos de 
guerreiro noviciado com as armas sempre vesti- 
das e a fronte sempre ornada de lauréis, fizeram 
de Portugal como se fora um só impetuoso caval- 
leiro, que do ócio e resfolego momentâneo só 
aproveita quanto basta para aperceber-se e con- 
certar-se novamente e entrar logo em mais illus- 
tre requesta e aventura. 

Tinha já pela trégua, e mais ainda pelo te- 
mor e desengano de Gastella, seguras as fron- 
teiras. Árabes e berberes, que expulsar de ter- 
ritório portuguez, nâo os havia já n''aquelLa eda- 
de. As conquistas na peninsula seriam ao mes 
mo passo temeridade c falsa fé. Mas quasi de- 



VASCO DA GAMA 29 



fronte de Portugal ficavam as terras africanas. 
Que seria se gente portugueza, vingando a an- 
tiga aftronta das Hespanhas, fosse primeiro que 
nenhum outro povo da Peninsula, levar a guerra 
ao seio da inimiga Mauritânia? Não podia ainda 
Gastella hastear os seus pendões nas torres do Ge- 
neralife e da Alhambra, e proferir a ultima sen- 
tença contra a monarchia de Granada. Porque 
não iriam portuguezes reptar em seus próprios 
lares os muslimes descuidados? E sempre insa- 
ciável a victoria. É a gloria como estas aguas, 
tépidas e enganosas, que bebidas em copa cin- 
zelada e preciosa, mais accendem de que apa- 
gam a sede recrescente. Ter vencido é o esti- 
mulo a cubicar novos trophéus. As guerras de 
Roma ainda infantil contra os samnites abriram 
o caminho á conquista de Carthago. Das ruinas 
de Garthago poderam as águias voar já trium- 
phaes ao senhorio do universo. 

Pela tomada de Ceuta, os portuguezes ainda 
inscientes dos altos destinos, que a perseverança 
e a fortuna lhes traçavam, tomaram posse ma- 
terial do quasi desconhecido continente. O gran- 
de poder naval é militar, com que segundo os 
testemunhos contemporâneos fora apercebida e 
realisada a primeira proeza e cavallaria de Por- 



3o VARÕES ILLUSTRES 

tugal nas terras africanas, denuncia o vigor, com 
que soubera da sua apparente mediania tirar 
forças e recursos para empreza, ao parecer des- 
igualissima á sua povoação e território. 

Desde agora se podia suspeitar que as hostes 
brotariam como que milagrosamente dos seus 
campos, e as armadas surgiriam dos seus portos 
para devassar e submetter as mais afastadas re- 
giões. Não importa que seja escassa a terra, que 
na Europa lhe coube na fortuita partilha das na- 
ções. Basta um gérmen invisivel para copar-se 
um dia em arvore gigante. De um burgo ignoto 
da Macedónia saiu aquella torrente caudalosa, 
que alastrou o antigo mundo com o seu fecun- 
dissimo nateiro. É o espirito, não o corpo dos 
homens e das nações que as rebaixa á craveira 
dos Thersites, ou as levanta á eminência dos hc- 
roes. 

Era em Portugal escassa a força, o animo in- 
vencivel. Uma idéa nova e generosa, uma per- 
severança inquebrantável, e uma esperança, que 
nos próprios contratempos se fortalece e avigo- 
ra, eis ahi o que é bastante para obrar prodi- 
gios assombrosos na historia da humanidade. 
Eis ahi em que reside a thaumaturgia dos que 
transformam e melhoram a humana condição e 



VASCO DA GAMA 



3i 



inscrevem na sua historia as epochas mais fe- 
cundas e brilhantes. 

Reduzida Ceuta ao dominio portuguez, está ali 
erigido o padrão, que demarca o primeiro está- 
dio na sequencia de ousados descobrimentos e 
conquistas desde o Tejo até ás mais remotas 
plagas do Oriente e ás mais distantes ilhas da 
Oceania. 

Parar em Ceuta era pouco, era talvez ingló- 
rio. Estender pelo império de Marrocos as con- 
quistas portuguezas era talvez demasiado para 
as forças da nação. Em vez de internar-se pelo 
sertão da Africa septentrional, seria mais factível 
c fructuoso circumnavegar-lhe o litoral, em de- 
manda de novas regiões. 



» 



CAPITULO IV 

o QUE DETERMINOU PORTUGAL AOS GRANDES 
DESCOBRIMENTOS 

Consirou . . . que se podenam tra- 
zer pêra estes reynos muytas merca- 
dorias que se avcryam de hõo mercado 

Azurara, Chron. do descob. de Gui- 
ne, cap. VII, 

Eram muitas e diversas as causas, que inci- 
tavam Portugal a aventurar-se ás emprezas 
africanas e ás perigosas navegações no Oceano 
para a parte do occidente e meio-dia. 

Por umas prendiam-se intimamente os olhos 
ao passado, emquanto pelas outras as vistas se 
dilatavam por infindos horizontes até remotas 
epochas vindouras. 

Os princípios do século xv eram a transição 
entre a edade média, que ia fenecendo e a nova 
civilisação, que se estava annunciando e irrom- 
pendo irresistível. As tintas, que davam aos 
tempos medievos o sombrio colorido, pouco a 



34 VARÕES ILLUSTRES 

pouco SC iam esbatendo c smor:{ando nos ma- 
tizes mais claros c brilhantes da nova condição 
da chrístandade. Era ainda como que o luzir 
mal distincto da alva, que principia, deixando 
por emquanto vago e indefinido o perfil das 
cumieiras e ainda represas pelos mais profun- 
dos valles as sombras da ante-manhá. As ve- 
lhas tradições da edade média vinham mesclar- 
se em forçosa consonância com as juvenis as- 
pirações de uma epocha mais propensa aos 
conceitos racionaes. 

A noção estreita da pátria no seu puro signi- 
ficado de terra exclusiva, intractavel, inimiga 
de quanto demorasse para fora dos seus lindes 
e fronteiras, luctava, debatia-se,mesclava-se com 
a nebulosa concepção de uma civilisação cosmo- 
polita e de um só corpo mystico, fraterno, in- 
dissolúvel de toda a humanidade. As institui- 
ções e os costumes, que nos séculos medievos 
tinham imprimido á christandade as feições 
proeminentes, não estavam ainda de todo o 
ponto obliterados. A antiga cavallaria com o 
seu espirito religioso e romanesco, o seu fa- 
natismo de honra e de primor, a sua abne- 
gação e heroicidade, o seu rito e ceremo- 
nial, em que as armas como que recebiam o 



VASCO DA GAMA 35 



baptismo e a uncção e ficavam consagradas ás 
emprezas, onde a honra e a f é reclamassem 
auxilio e defensão, ainda tinha proselytos fer- 
ventes e devotados campeadores. Os poemas 
cavalleirosos, com a sua forma culta, com o 
.seu metro aprimorado, succedendo ás novellas 
andantescas e ás canç5es de gesta, attestavam 
que o gosto universal, inclinado a estas litte- 
rarias creações, não se despedira inteiramente 
das predilecções cavalheirescas e da paixão das 
aventuras. Por outra parte prevalecia nos espí- 
ritos portuguezes o ódio implacável contra os 
árabes e o ardente desejo de retribuir com as 
incursões na terra própria as longas e dolorosas 
tribulações, com que tinham durante séculos 
avexado e opprimido o solo das Hespanhas. 
Portugal como que se havia por nascido e crea- 
do expressamente para continuar sem pausa a 
guerra sancta. Era encargo, que lhe vinha trans- 
mittido por herança, e de q^ie não podia des- 
cuidar-se sem que viesse a cair quasi em com- 
misso o seu glorioso património. 

O grave e diserto João de Barros, — que foi 
sem duvida para a moderna historia o que 
Heródoto representou entre os antigos, o fun- 
dador de uma nova escola já distinctp. profun^ 



36 VARÕES ILLUSTRES 

damente da chronica e da lenda mythologica, — 
ao fallar da missão, que parece a Providencia 
incumbira a Portugal, depois de compendiar 
em breves termos como se fora constituindo e 
roborando esta nova nação do ultimo Occidente 
desde Aífonso Henriques até á completa expul- 
são dos musulmanos, prorompe n^estas pala- 
vras, que cifram ao mesmo passo um arranque 
de orgulho portuguez e uma affirmação ainda 
inconsciente de philosophia histórica. 

«O qual dote e herança (a de oppugnar os 
muslimes sem tregoa, nem repouso) parece que 
foi dado com tal benção per este catholico rei 
D. Aífonso, que todolos seus descendentes, que 
a herdassem sempre tevessem continua guerra 
com esta pérfida gente dos arabeos. Porque co- 
meçando deste tempo té o presente, que he dis- 
curso de quatrocentos e tantos annos de idade 
deste reyno dé Portugal, depois que apartado 
da coroa de Espanha teve este nome, assi per- 
maneceu em continua guerra destes infiéis, que 
com verdade se pôde dizer por elle, ter vestido 
mais armas que pelotes . . . E passados os pri- 
meiros annos da infância d^elle, que foi todo 
o tempo que esteve no berço, em que nasceu, 
limitado na costa do mar Oceano (porque o 



VASCO DA GAMA 3 7 



mais do sertão da terra, ficou na coroa de 
Castella e a elle lhe não coube mais em sorte 
nY^sta nossa Europa) todo o trabalho d''aquelles 
principes que então o governavam, foi alimpar 
a casa d^sta infiel gente dos arábios, que Ih^a 
tinham occupado do tempo da perdição de 
Espanha, té totalmente a poder de ferro os 
lançarem alem mar, com que se intitularam reis 
de Portugal e do Algarve'.» 

D''ahi nasceu a expedição de Ceuta e a to- 
mada breve, mas sangrenta d^ste famoso ba- 
luarte musulmano, chave preciosa da Africa 
septentrional e felicissimo começo de uma serie 
quasi ininterrupta de conquistas e victorias. 

A esta aversão hereditária e indefessa contra 
os antigos invasores mahometanos, accresciaum 
outro sentimento não menos poderoso, que 
da edade Inédia passara ainda vivaz e persis- 
tente para os ânimos n'uma epocha de mais racio- 
nal entendimento. Era a mesma inspiração, que 
dictára em seu principio as famosas e heróicas 
migrações, que se appellidaram as cruzadas. Era 
este refluxo da Europa contra o Oriente, respon- 
dendo ao fluxo, com que em remotas eras o 

JhWíd. I. l!\. 1, C.\\^. i, .'d. M.-x Inl. 2-.'. 



38 VARÕES ILLUSTRES 

Oriente, com as innumeraveis multidões de Xer- 
xes e Dário, arremettêra contra a Europa, que- 
brando o Ímpeto em Platéa e Marathona. Era 
este pendor irresistível, com que toda a civilisa- 
çáo se crê predestinada a absorver e diluir na sua 
substancia as alheias civilisações. Era o instincto 
da unidade espiritual, o mesmo que na antigui- 
dade levara os deuses da Assyria e Babylonia 
aos povos asiáticos e buscara confundir as con- 
quistas politicas e sociaes com a reducção dos 
povos subjugados a uma única lei religiosa ^ 
Era, guardadas as proporções, a mesma fervorosa 
intolerância, com que os gregos e romanos se 
empenharam em hellenisar e romanisar os âm- 
bitos da terra. 

Nenhuma civilisaçao pode haver tão material 
e positiva^ que não esteja como que compen- 
diada em breve cifra n^uma noção espiritual, e 
quasi sem excepção, religiosa. Ora a civilisaçao 



t «Whcrever he goes (the Assyrian King), he takes care 
to «Set up the emblems of Asshur» or of «the great 
gods» and forces the vanquished to do them homage. . . 
and (tne people) aim at extending their belief as much 
as their dominion.» Rawlinson, TheFive great monwxhies, 
London, iSyS, i, pag. 240-241. 



VASCO DA GAMA 39 



dominante no O ocidente íirmava-se e resiimia-se 
n''um principio capital, a fé christa. O christia- 
nismo era a sua face mais brilhante, o seu ca- 
racter histórico e fundamental. Dilatar as frontei- 
ras da christandade, levar o dogma e o symbolo 
christão a dominar entre as gentilidades mais 
remotas, arrebanhar até o evangélico redil as 
gentes e as naç5es agora envoltas nas trevas do 
paganism.o ou corrompidas na abominável seita 
de Mafoma, era, no conceito d^aquelles tempos, 
fazer que irradiasse a superior civilisação da Eu- 
ropa para abarcar todos os povos conhecidos ou 
ignotos. Enumerando o chronista Gomes Eannes 
de Azurara as rasões, que haviam determinado 
o infante D. Henrique a emprehender os seus 
famosos descobrimentos, assenta em ultimo lo- 
gar, havendo-a comtudo como primeira, a de 
augmentar e extender a christandade. «A quinta 
rasão foi o grande desejo, que havia de accres- 
centar em a santa fé de nosso Senhor Jesu Ghristo 
e trazer a ella todalas almas, que se quizessem 
salvar, conhecendo que todo o mysterio da en- 
carnação, morte e paixão de nosso Senhor Jesu 
Ghristo foi obrado a esta fim, scilicet, per sal- 
vação das almas perdidas, as quaes o dito Se- 
nhor (o infante) queria, per seus trabalhos e des- 



40 VARÕES ILLUSTRES 

pezas trazer ao verdadeiro caminho, conhecendo 
que se não podia ao Senhor fazer maior offerta, 
ca se Deus prometteu cem bens por um, justo 
está que creamos que por tantos bens, scilicet, 
por tantas ahnas, quantas por azo dVste Senhor 
(o infantej são salvas, elle tenha no regno de 
Deus tantos centenários de galardões, per que 
a sua alma depois d''esta vida possa ser glorifi- 
cada no celestial regno ^)). E tanto sobrelevava 
esta rasão ás demais expendidas pelo ingénuo 
chronista das nossas primeiras navegações e 
descobrimentos africanos, que por tão benemé- 
rito serviço, qual foi o de attrahir ao jugo da 
egreja os infiéis, exora e depreca o Omnipoten- 
te para que ao fervoroso fautor de tal empre- 
za, accrescentena eterna bemaventurança o pre- 
mio e a gloria. 

Não ha porém nenhuma civilisação, por mais 
espiritual e acrisolada, que appareça despida e 
exempta de toda a macula terrena e mundanal. 
O espirito pôde tender para o céu e para as altu- 
ras, onde tudo é anhelar pela m^^stica immorta- 
lidade. Mas a carne pende para a terra e para 



I Azurara, Chronica do descobrimento e conquista de 
Guiné, cap. vii, pag. 47. 



VASCO DA GAMA 41 



esta humana eternidade, que se chama a gloria 
c o renome, transmittido até ás mais remotas 
gerações. 

Compendiando João de Barros os motivos 
que imperaram no animo aventuroso do infante 
D. Henrique para se determinar ás maritimas 
emprezas, lá está apontando aquella natural in- 
clinação, que levava o ascético mestre de Ghris- 
to a enlaçar com o augmento e esplendor da fé 
christã, o lustre e a gloria do próprio nome: «E 
também (diz o grave historiador) porque acerca 
dos homens lhe ficasse nome de primeiro con- 
quistador e descobridor da gente idolatra, em- 
preza que té o seu tempo nenhum principe ten- 
tou')). 

Entre os incentivos, que espertaram os brios 
portuguezes para tentar os incógnitos caminhos 
do Oceano, houve, como para os argonautas 
mythicos da Grécia, um cubicado vellocino. As 
riquezas e thesouros, que as terras apartadas e 
as mysteriosas regiões em si contêm, magnifi- 
cadas pela phantasia e como que poetisadas pela 
cubica, traziam invejosas c inquietas as chris- 
tandades -do Occidcntc. A terra, ainda nas re- 



Harros, Decad. \, liv. 1, cap. 11. 



42 VARÕES ILLUSTRES 

giões mais florentes e mimosas, na França, na 
Itália, nas Hespanhas, era escassa ou erma de 
productos naturaes, doestes, que no vulgar juí- 
zo, se. têm por synonymos de riqueza. O oiro e 
as pedras preciosas, as especiarias, as drogas, 
os perfumes, os estofos, os tapizes, os sândalos e 
calambucos do Oriente, avantajavam-se em valia 
ao que podiam brotar de si as glebas europêas, 
e ao que sabiam aíFeiçoar nos mais primorosos 
artefactos os mesteres do Occidente. Os provei- 
tos mercantis entravam pois por grande parte 
nos desejos fervorosos, com que as nações da 
Europa buscavam alargar as suas navegações e 
os seus tratos com as gentes mais longinquas* 
Azurara o põe de manifesto, quando ao capi- 
tular a segunda rasão, que estimulou ó infante 
D. Henrique, escreve estas palavras: «E a se- 
gunda foi porque consirou que achando-se em 
aquellas terras alguma povoraçáo de christãos, 
ou alguns taes portos, em que sem perigo po- 
dessem navegar, que se ppderiam pêra estes re- 
gnos trazer muitas mercadorias, que se have- 
riam de bom mercado, segundo rasão, pois com 
elles não tratavam outras pessoas de outras par- 
tes, nem de outras nenhumas, que sabidas fos- 
sem c que esso mesmo levariam para lá das que 



VASCO DA GAMA 4^ 



em estes regnos houvesse cujo trafego trazeria 
grande proveito aos naturaes^». 

De quantas paragens remotissimas podiam, 
pelas suas fabuladas ou eífectivas opulências, 
aguçar a curiosidade nos europeus, nenhuma 
sobreexcedia áquellas regiões, que situadas nos 
extremos confins do Oriente, eram nebulosamen- 
te conhecidas pelo que deixaram d'ellas mencio- 
nado em suas obras os escriptores da antigui- 
dade. A índia, aonde chegara triumphante o 
celebrado macedónio, aquelle Cathay mysterio- 
so, cujas maravilhas noticiara Marco Polo aos 
seus contemporâneos, eram para os europeus 
ambiciosos e insoffridos da penúria relativa das 
terras occidentaes, o alvo dos seus desejos mais 
ardentes. 

Duvidam alguns historiadores sobre se o in- 
fante D. Henrique ao cogitar e pôr em obra a 
traça grandiosa de suas atlânticas navegações, 
tivera em mente o descobrir o caminho mariti- 
mo da india^. Se nos pautados, quasi timidos 



1 Azurara, Cliron. do descobr, e conq. de Guinés cap. \ii, 
pag. 4(3. 

2 Pcschel, Geschichte des Zeitaliers der Eutdechm^ 
gcn (Ilist. da epocha dos descobrimentos), Stuttgart c 
Augsburgo, i858, pag. j3. 



44 A'AROHS ILLUSTRIiS 

começos de suas navegações, não era este o fim 
immediato, a que tendia o seu empenho gene- 
roso, náo se pode contestar que este foi em seu 
espirito o alvo, a que se haveriam de encami- 
nhar as suas emprezas, se a edade e a fortuna 
lh'o tiveram consentido. Das palavras de Azu- 
rara se deprehende que o infante anhelava por 
saber noticias e informações acerca da índia e 
d'aquelle soberano mysterioso, que trazia occu- 
pada perennemente a phantasia dos geographos 
eiurante a edade média, o rei-sacerdote, o fa- 
moso Preste João^ 

As causas, que trazemos apontadas e que in- 
fluiram nos ânimos briosos e varonis de Portu- 
gal para que emprehendes^e e acabasse tal em- 
preza, qual era descobrir e aproveitar para a 
geral civilisação os immensos territórios c os 
mares até ahi impenetráveis ao commercio c 
trato humano, accresceu ainda mais um novo 
estimulo, não menos ponderoso e espertador 
de heróicos feitos e perigosas aventuras. Era 



I «O infante... disse... que non soomente daquella 
terra desejava daver sabedorya, mas ainda das Indyas e 
da terra de preste Joham, se seer podesse.» Azurara, 
C/iroii. do descobr. c conq. de Guiné, cap. xvi, pag. 94. 



VASCO DA GAMA 46 



a curiosidade e o anceio de saber. Esta é a in- 
genita feição da humanidade, que se não pague 
do que é, senão que procure avantajar-se ainda 
mesmo a lance e contingência de perder-se; que 
se não contente do que sabe, se não que busque 
dilatar o estreito cerco da herdada sciencia e 
tradição. E comtudo incontestável que não foi 
o ardente desejo de accrescentar o pecúlio do 
saber acerca da natureza, a rasão predominante 
nos descobrimentos e aventuras oceânicas. Os 
portuguezes, á similhança dos romanos, eram 
principalmente um povo pratico e batalhador. 
O fervor especulativo destoava da sua Índole 
guerreira e positiva. Conquistar e submetter ao 
seu dominio o orbe inteiro era a sua insaciável 
ambição ^ 



I Ritter, Gesch. der Erdk. iind der Entdeck. (Hist. da 
geographia e dos descobrimentos), Berlim, 1880, pag. 94. 



CAPITULO V 

A CIVILISACÃO PORTUGUEZA NO SÉCULO XV 

> 

... o reino prospero ílorece 
(Alcançada já a paz áurea divina) 
Em constituições, leis, e costumes, 
Na terra já tranquilla claros lumes. 
Camões, Ltisiad., in, 96. 

Estava Portugal n'aquelle século, senão tão 
florente em letras como a Itália e como a 
França, não de certo inferior em valia intelle- 
ctual aos demais povos christãos do Meio-dia e 
do Occidente. Muitos homens eminentes por sua 
erudição e anhelo de saber attestavam que o 
engenho portuguez requer apenas luz e liberdade 
para que possa desentranhar-se em fructos sa- 
sonados. Desde os tempos de D. Affbnso III e 
D. Diniz a cultura nativa, ainda então escassa 
e rude, como de quem mais sabia vestir as guer- 
reiras louçainhas de soldado, que a severa gar- 
nacha de doutor, fora largamente fecundada pelo 



48 VARÕES ILLUSTRES 

influxo de extrangeira illustração. A poesia arti- 
ficiosa e cortezá tomara domicilio nos paços dos 
monarchas e nos alcaçares dos potentados. Os 
cancioneiros, numerados entre os mais antigos 
e preciosos monumentos litterarios da peninsu- 
la, ahi ficaram para demonstrar como a poesia 
achava em Portugal, n^aquelle tempo, náo so- 
mente quem a podesse aquilatar com justo 
apreço, senáo quem a soubesse compor e exor- 
nar. A novella de cavallaria tinha no engenho- 
so cavalleiro portuguez, Vasco de Lobeira, o 
auctor, segundo a opinião de muitos doutos, ou 
pelo menos o novo redactor do celeberrimo 
Amadis, a quem Cervantes, no famoso escru- 
tínio da livraria de D. Quixote, exalta ate ás 
nuvens, como tendo o principado em toda a 
andantesca litteratura ^ As sciencias, que durante 
os reinados mais antigos náo achavam onde lu- 
zir e professar-se, tiveram no estudo geral, insti- 
tuído em Lisboa pelo rei menestrel e cultivador, 
asylo decoroso, onde abrigar-se. O direito roma- 
no, que em lace dos bárbaros costumes e das insti- 



I «No, scnor, dijo cl barbcro, que tambicn hc ordo de- 
cir, que es cl mejor de todos los libros, que de este f;c- 
nero se han compuesto.') Cervantes, El Qiiijote, cap. vi. 



VASCO DA GAMA 49 



tuições locaes, se por um lado debilitava a 
liberdade e independência municipal, represen- 
tava por outro lado um progresso valioso 
na unidade portugueza e na condição intelle- 
ctual da monarchia, lograra introduzir-se em 
Portugal. As leis romanas, com a sua contex- 
tura systematica e o seu corpo doutrinal, co- 
meçavam a vencer a anarchia do direito con- 
suetudinário e a omnipotência das leis munici- 
paes. Era frequente o concurso de portuguezes 
escolares, que a Paris e a Bolonha, centros 
principaes da sciencia medieva, iam retemperar 
o entendimento e vincular a intelligencia nacio- 
nal á commum civilisaçáo da christandade. O 
famoso doutor João das Regras, que em no- 
me da soberania eleitoral, nas cortes de Coim- 
bra, ajudou com a eloquência c a erudição o 
montante do condestavel, para que superasse as 
resistências oppostas á eleição do mestre de 
Aviz pelos escrúpulos dynasticos c pela su- 
perstição da legitimidade, era um exemplo vivo 
de que no meio da peleja não dormitava o en- 
genho portuguez. O infante D. Pedro deixou 
assignalada cm monumentos litterarios a pre- 
dilecção, que lhe merecera o saber, a poesia, 
a erudição. El-rei D. Duarte legava á posteri- 



5 o VARÕES ILLUSTRES 



dade, no seu livro do Leal conselheiro, um 
irrecusável testemunho de que excedera pelos 
voos da intelligencia o nivel dos seus coroados 
contemporâneos. Fernão Lopes, nas chronicas 
de D. João I e do infante D. Pedro, despojava 
a linguagem portugueza da mais rude cortiça 
semi-barbara e não se envergonhava de que 
os seus livros competissem com as narrativas 
de Froissard, o eminente e coevo historiador. 
Gomes Eannes de Azurara, na sua Chronica 
do descobrimento e conquista de Guiné, alem da 
sua curiosidade inquiridora e da sua histórica 
veracidade, pompeava a sua grande erudição 
nas letras sagradas e profanas e a sua larga 
e frequente conversação com os mais illustres 
escriptores da antiguidade. 

De quanto floresciam as artes em Portugal em 
princípios do século xv, dá irrecusável testemu- 
nho a grandiosa fundação do mosteiro da Bata- 
lha, cuja phantasiosa architectura podia empa- 
relhar com as mais soberbas cathedraes con- 
temporâneas. 

Em tempos de D. Affonso V se compilaram 
e reduziram a corpo harmónico de leis as anti- 
gas ordenações. Em seus paços se fundou a pri- 
meira livraria n^aquelles tempos, em que os 



VASCO DA GAMA bl 



códices eram tão custosos e tão raros que os 
volumes se prendiam por cadeias, para que 
se não podessem distrahir do seu logar e figura- 
vam como legados preciosos entre as copas, as 
baixellas.; os brocados, as jóias e as alfaias dos 
príncipes e dos prelados. 

O estado mental do povo portuguez nas clas- 
ses, a que em tempos de ciosos privilégios se po- 
dia diíTundir a illustraçao, era pois accommoda- 
do a que não somente se conhecesse o que nos 
haviam transmittido os escriptores da clássica 
antiguidade, senão que andassem divulgadas as 
obras de mais tomo e valia intellectual, que na 
Europa letrada se escreviam. 

Havia pois em Portugal n'aquelle século no- 
ticia do que acerca da cosmographia e das mys- 
teriosas regiões da Africa e da Ásia nos deixa- 
ram entrever antigos escriptores. £m seus livros 
se podia rastrear alguma luz, se bem que débil e 
indecisa, por entre a sombra e escuridão de erros 
capitães dogmaticamente professados, e de pal- 
mares ignorâncias coloreadas por fabulas pueris 
e desvairadas phantasias. As viagens e peregri- 
nações de aventureiros temerários atravez das 
terras asiáticas até ás nebulosas regiões do Ca- 

Xh0.y Q de CipangO, andp^'nm ií ^-^r^tr^vl^^^ n]^1rr OÍ$ 



52 VARÕES ILLUSTRES 

mais curiosos portuguezes. O próprio infante 
D. Pedro, porventura estimulado por este nobre 
anceio de alargar os âmbitos da pátria, condão 
peculiar da sua familia, tinha cursado terras 
peregrinas e as sete partidas, que pelo mundo 
havia discorrido, andavam como em proloquio 
na bocca popular. Fora elle segundo o teste- 
munho de Valentim Fernandes ou de Moravia 
quem á volta de suas largas excursões trou- 
xera de Veneza a Portugal a primeira copia do 
livro de Marco Polo. 

Por assombrosos que fossem reputadas no 
seu tempo em toda a Europa, por incriveis, 
á conta de sobrehumanas, que nos pareçam 
depois de tantos séculos as navegações e des- 
cobrimentos portuguezes, é bem que nos não 
deixemos enganar por tão supérfluo amor da 
pátria, que julguemos os nossos primeiros ma- 
reantes desamparados de toda a luz e tradição 
como quem se aventurou a mares desconheci- 
dos e tenebrosos, em demanda do que nem por 
vagos indícios suspeitava. Não, os portuguezes 
do século XV não iam embarcar-se em frágeis 
caravellas e'mal seguros barineis, sem levarem 
uma rota já marcada, ainda que imperfeita e ás 
vezes conjectural. As suas navegações não são 



VASCO DA GAMA 53 



apenas romanescas excursões de cavalleiros an- 
dantes do Oceano, que váo sulcando as aguas 
tormentosas, sem norte e sem destino, em 
busca de fortuitas e inopinadas aventuras. É 
na traça discreta, calculada, systematica, por 
que se vão guiando em suas perigosas singra- 
duras, é na racional e methodica sequencia e 
tenacidade em suas emprezas, que a immensa 
circumnavegaçáo dos portuguezes desde o cabo 
Náo até o Malabar se distingue profundamente 
das pequenas e accidentaes navegações, que 
outros povos europeus, asiáticos, ou africanos 
poderam porventura antes de nós emprehen- 
der^ 

Com verdade escreveu o nosso grandíssimo 
geometra Pedro Nunes, «que estes descobrimen- 



I «Man wurde weit fehl gehen, wenn man glauben wol- 
tc, er (der Infant Heinreich) habe seine Scefahrer auf das 
Ungefahr hinausgeschickt.» — «Caír-se-ía em grande erro 
SC se quizesse acreditar que elle (o infante Henrique) ha- 
via expedido ao acaso os seus navegadores.» Peschel, 
Gesch. des Zeitalt. der Pjitdeck. Stuttgurt e Augsburg, 
i858, pag. 71. Sobre o conhecimento, que D. Henrique 
sempre buscara alcançar do interior da Africa, veja-se a 
mesma obra de Peschel, pag. 72. 



04 VARÕES ILLUSTRES 

tos de costas, ilhas e terras firmes não se fize- 
ram indo a acertar, mas partiam os nossos na- 
vegadores mui ensinados e providos de instru- 
mentos e regras de astrologia e geometria, que 
sáo as cousas de que os cosmographos háo de 
andar apercebidos^». 

E o nosso périplo glorioso, é aquelia cadeia 
ininterrupta de marítimas proezas, com que an- 
dámos rodeando todo o africano litoral, como 
que um longo e concatenado raciocínio, meio 
experimental e meio theorico, onde cada singra- 
dura é a premissa da seguinte, cada signal ou 
padrão, que fomos plantando aqui e acolá, o 
marco d^onde contámos novo tracto de terra 
marginal desconhecida. E áõ revez da nossa 
previsão e perseverança, as antigas navegações 
em torno de Africa, se acaso as podemos de- 
fender de espúrias ou fabulosas, e as suppostas 
expedições de normandos, catalães, venezianos, 
genovezes, são n'este magnifico certamen como 
que desconnexos improvisos, sem êxito e sem 
fructo conhecido para a civilisação universal. A 
nossa empreza é como um poema épico, de que 



1 Pedro Nunes, Defensão da carta de marear. 



VASCO DA GAMA 55 



resoam ainda os cantos na tuba do Camões, a 
d^elles uma trova ligeira e fugitiva, sem echo 
e sem applauso na remota posteridade. 

Aqui podéramos nós a respeito dos antigos 
navegadores portuguezes dizer com o poeta das 
nossas marítimas victorias : 

Ouvi, que não vereis com vás façanhas, 
Phantasticas, fingidas, mentirosas, 
Louvar os vossos, como nas estranhas 
Musas de engrandecer-se desejosas: 
As verdadeiras vossas são tamanhas. 
Que excedem as passadas fabulosas K 

Tamanhas e agora quasi táo perdidas para 
nós, táo fructuosas para extranhos! 



1 Camões, Liis.y cant. J, est. xi. 



CAPITULO VI 

AS NAVEGAÇÕES NA COSTA DE AFRICA 
DURANTE A ANTIGUIDADE 

... Queila foce stretta 
Ov' Ercole segnò li suoi riguardi 
Acciocliè l'uom piú oltre non si metta. 
Dante, Infern., xxvi, 107-109. 

Andam accesos os philologos e os commen- 
tadores da antiga geographia n'uma lide bem 
travada, em que uns, portuguezes e extrangei- 
ros, reivendicam para a nossa pátria a origi- 
nalidade absoluta da navegação em volta de 
Africa e outros quasi todos forasteiros, sem ne- 
garem os mais d^elles nossos méritos, assentam 
como certo o havermos tido audazes predeces- 
sores na antiguidade e edade média. Pleiteou 
contra nós entre os extranhos Huet', o copio- 



1 Histoire dii commerce et de la navif^ation des anciens, 
Lyon, 1764. 



58 VARÕES ILLUSTRES 

so bispo de Soissons. Náo devemos porém, des- 
lembrar que este prelado, obstinado e ardente 
defensor da antiguidade, pertenceu a esta es- 
cola de geographos, que envidaram os recursos 
da sagrada e profana erudição para investigar 
a pontual situação do paraiso terreal^ Prece- 
deii-o em vindicar a prioridade e o renome dos 
antigos na circumnavegação da costa de Africa 
o seu compatriota^ Bochart^, que soube congra- 
çar os thesouros philologicos, a mãos largas des- 
pendidos, com a mais infantil credulidade e com 
a mais indisciplinada phantasia. Acudiu ulterior- 
mente Francheville já mais aífeito á critica mo- 
derna^. Veiu depois Court de Gibelin, que no 
livro em seus tempos celebrado, hoje, pQrem 
quasi esquecido, I^e monde primitif, terçou con- 
tra nós pelos direitos da antiguidade. ÍDecidiu 
também em nosso desfavor o hespanhol Luis 
de MarmoH. 

Montesquieu pela grande íCuctoridade do seu 
nome poderia contar-se como um dos maisj^- 



1 De la sitiiation dii Pafaç(p íerresire, Amstcrdam. 

2 Chanaan^ Frankfort, 1694. 

3 Histoire des Jndes. .^ niJ^rí/'^-jf 



4 Description générale de Africa, 



VASCO DA GAMA 5C) 



signes propugnadores das viagens antigas em 
torno de Africa, se quando pelo testemunho de 
Heródoto, de Plinio e Pomponio Mela, admitte 
as circumnavegaç5es dos gregos e phenicios, não 
accrescentasse uma grave duvida e uma insolú- 
vel contradicção a que fossem havidas por au- 
thenticas similhantes explorações ^ Bougainville, 
o illustre sábio e erudito navegador, mantém re- 
solutamente que fosse verdadeiro o notável pé- 
riplo de um nauta carthaginez^. 

escriptor inglez Falconer nos fins do século 
xvnr, e já na segunda metade do século presente 
o notável geographo Vivien de Saint-Martin^ 
admittiram por innegavel e authentica a mais 
celebrada e porventura a só provável de todas 
as largas circumnavegações africanas na antigui- 
dade, a do carthaginez Hannon, limitada no con- 

1 «II fai^t bienque du temps de Ptolemée le géographe 
CCS deúx navlgations fusscnt regardées comme fabuleuses, 
puisqu'il place depuis le sinus magmis . . . une terre in- 
connue de sorte que la mer des Indes n'aurait été qu'un 
lac.» Montesquieu, De Vesprit des lois^ liv. xxi, cap. xi. 

'2 Alem. de VAcad. des inscrlpt. et belles letlrc' ^. ^i^-inr, 
287. 

3 Vivien de Saint-Martin, Hist. de la ^cogr.j pag. 36 
cseg. 



6o VARÕES ILLUSTRES 

ceito de Gosselin até alcançar unicamente o cabo 
Náo^ 

E o que é mais para notar, um nosso portu- 
guez, tão afamado por seus escriptos e viagens 
como foi Damião de Góes, não houve a desaire 
e desprimor para seus próprios naturaes o dizer 
que outros antes de nós fizeram, seguindo a 
mesma rota, a navegação até á índia 2. E verda- 
de que o erudito chronista de el-rei D. Manuel 



1 Gosselin, Recherches siir la géographie positive et syS' 
tématiqiie des anciens. 

2 «As quaes viagens todas se fizeram per mandado d'este 
invencível rei D. João (o segundo) com muito trabalhe 
seu e despeza de sua fazenda, navegação já esquecida de 
todo o género humano per tanto espaço de tempo, quanto 
se pôde ver em um discurso, que disso fiz na mesma chro- 
nica do príncipe D. João, que compuz de novo em lingua- 
gem portuguesa, e assi em um livro que fiz em língua la- 
tina do sitio e antiguidade da cidade de Lisboa, nos quaes 
dois discursos declarei quantas e quaes pessoas muito 
antes fizeram esta viagem da índia pelo mesmo caminho, 
que ha nós agora fazemos, ho que fiz por acodir ao erro, 
em que caíram alguns scriptoresporlíuguezes, que trataram 
destes negócios, dizendo q so a nação portugueza fora 
q navegando pelo Oceano primeiro que ncnhua outra 
viera ter ao mar da índia, do qual erro se lhes pode em 



VASCO DA GAMA 



I 



com a franqueza e liberdade de quem era ao 
mesmo passo portuguez e cosmopolita e talvez 
um tanto inclinado ás doutrinas protestantes e 
á independência de opinião, contrapesa a affir- 
mação^ que poderia acaso redundar em deslustre 
de Portugal, com chamar ás circumnavegações 
da antiguidade navegação já esquecida de todo 
o género humano. E é por serem quasi oblitte- 
radas na memoria e sem nenhum proveito da 
sciencia ou civilisação, que os périplos de 
gregos, de romanos, de carthaginezes, de phe- 
nicios e de gentes de Hespanha em epochas re- 
motas e difficeis de assignar, são como se nunca 
houveram existido, quando os paragonamos e po- 
mos em parallelo com as maravilhosas nave- 
gações dos portuguezes em demanda das regiões 
orientaes. Como seja a navegação, mais ou menos 
imperfeita, anterior de largos séculos aos nossos 
immortaes descobrimentos, é força o presuppor 
que de tantos povos já entrados em rasoado 

parte relevar ha culpa por porventura cuidarem q atre- 
buindo esta gloria á sua própria naçam lhe acrecentavão 
louvor aos muitos q 'se lhes deve pelas milagrosas victo- 
rias, q em aquellas partes em diversos têpos e lugares hou- 
veram.» Dam. de Góes, Chromca de D. Emanuel^ part. i, 
cap. xxíii, Lisboa, 1619, foi. i3. 



62 VARÕES ILLUSTRES 

progresso de cultura, quantos demoravam na 
antiguidade ás orlas do Atlântico, do Mar Me- 
diterrâneo, do Golfo Arábico, do seio Pérsico e 
do Oceano oriental, alguns iriam costeando 
em mais ou menos dilatadas singraduras as 
costas de Africa e as terras hindostanicas. Ne- 
nhum porém proseguiu ininterrupto as suas 
emprezas por discurso de quasi um século, as- 
sombroso prodigio e maravilha de que é único 
exemplo o pequeno, mas afortunado Portugal. 

Outro escriptor portuguez, António Galvão, 
não menos celebre pelos seus heróicos feitos 
nas Molucas do que pela ingratidão, com que a 
monarchia, segundo era seu costume, o premiou, 
parece igualmente propender, aindaque sem pe- 
remptória affirmaçáo, a que povos antigos nos 
hajam precedido em ousadas navegações pelo 
Oceano até á índia oriental ^ 

Das famosas navegações e descobrimentos 



I Galvão cita como tradição as sabidas historias de an- 
tigas navegações em volta da Africa, sem discutir, nem 
apreciar as auctoridades, em que se firmam as noticias, que 
vae dando. António Galvão, Tratado dos descobrimentos 
antigos e modernos feitos até d era de iSSo e dos des- 
vairados caminhos por onde a pimenta e especiaria vciíi 
ds nossas partes. Lisboa, lySi, pag. 2-1 5. 



VASCO DA GAMA 63 



portuguezes no século xv, não ha apenas nebu- 
losas reminiscências e vagas tradições. Existem 
encorporados na presente civilisaçao os seus as- 
sombrosos resultados. Estão perpetuados em 
diplomas fidedignos, em livros contemporâneos, 
em indubitáveis monumentos, em authenticos 
padrões. Apparecem attestados nos documen- 
tos cartographicos, nos mappas, nos portula- 
nos, nos roteiros, que na Europa se fizeram 
desde as primeiras derrotas portuguezas alem 
do cabo Bojador até á viagem portentosa do 
immortal Vasco da Gama. Estão vinculados na 
memoria de todos os povos do universo pelos 
nomes portuguezes, que assignalam os cabos, 
as angras, as enseadas, os rios, os parceis, ao 
longo do immenso litoral no vasto continente 
de Africa. A similhança do que succedêra com 
a mais extensa exploração do Nilo e das terras 
adjacentes até o Mar Vermelho, onde os nomes 
gregos dos logares e os templos consagrados 
aos deuses hellenicos attestavam serem gregos 
os que desde o Egypto, depois das conquistas 
de Alexandre, chegaram novamente até o Golfo 
Arábico'. 



I Strabp, Gçosr., liv. xyi, 



64 VARÕES ILLUSTRES 

Estão nossos descobrimentos registrados na 
historia da geographia pelos factos experimen- 
taes, com que os portuguezes corrigiram acerca 
da figura e repartição do globo terrestre, da for- 
ma e posição dos continentes, da situação dos 
archipelagos, os inveterados erros dos antigos. 
Estão consubstanciados nos fastos scientificos, 
pelas novas e infindas acquisiç5es nos dominios 
da etimologia e das outras sciencias naturaes. 
Estão finalmente representados no amplíssimo 
império portuguez n^um e n'outro litoral da 
Africa immensa, nas dilatadas possessões britan- 
nicas na índia oriental, no grande e florente im- 
pério do Brazil, que na terra americana se fun- 
dou, como se fora um rebento separado do tron- 
co principal, agora transformado em arvore 
gigante. 

Estes são os documentos, em que está cifrada 
como empreza única, novíssima, singular, extra- 
ordinária nos annaes da humanidade a que fez 
de Portugal entre os povos christãos o primeiro 
no XV século e lhe deu por algum tempo a he- 
gemonia moral entre as nações e o dominio e 
principado no Oceano. 

E emquanto que o saber, o valor, a perse- 
verança portugueza brotaram de si taes e tão 



\'ASCO DA GAMA 



Gb 



opimos fructos e as nossas navegações foram, 
na sua mais larga accepção e significado, o prin- 
cipio da moderna civilisaçáo, os périplos da 
antiguidade, se porventura realmente acontece- 
ram, não deixaram na terra e na memoria um 
traço de luz escassa e indecisa, por onde pos- 
samos render graças e homenagens aos mythi- 
cos ou duvidosos mareantes. E tão insegura e 
tão precária a tradição a este respeito, que os 
sábios e philologos discreteam e controvertem 
sem poderem alcançar plausíveis conjecturas, 
quanto mais a sombra sequer de uma eviden- 
cia. 

Se preterimos por menos importantes e por- 
que em nada aproveitaram á sciencia e communi- 
cação dos povos mais distantes, algumas das ex- 
plorações marítimas em Africa, citadas pelos es- 
criptores gregos e romanos, aponta-se como at- 
testando a prioridade dos antigos em cursar o 
Oceano ao longo das costas africanas, antes de 
todas, a expedição enviada pelo rei egypcio, Ne- 
cho, e por elle commettida á proverbial pericia 
dos phenicios, que em pontos de affrontar a bra- 
veza dos mares e a fúria das tormentas se po- 
deriam appellidar os portuguezes da antiguida- 
de. Os phenicios foram, com eíVeito, os primei- 



66 VARÕES ILLUSTRES 

ros navegadores nas epochas antigas. A sua fama 
só pôde ser egualada, ou excedida pelos seus con- 
tinuadores, os carthaginezes. O Mediterrâneo era 
o theatro das suas grandes emprezas marítimas 
ecommerciaes. A vida nacional toda se resumia e 
cifrava no trato mercantil e na arte de navegar. 
As suas colónias demoravam desde Chypre, Cre- 
ta, Rhodes até ás costas da Sicilia e á Hespanha 
meridional. As suas galés aventuravam-se ao 
Oceano e fundavam já fora das columnas de 
Hercules a celeberrima Gadeira, ou Gadir, que 
foi a Tiro do Occidente, no logar, onde agora 
existe Gadix. Eram os navegantes e mercadores 
phenicios desde tempos mui remotos, na phrase 
do propheta Isaias, «os príncipes e os senho- 
res da terra ^)). De todos os povos litoraes do 
Mediterrâneo foram elles os primeiros porven- 
tura que, saídos d'aquelle estreito encerro, vo- 
garam com seus remos nas ondas procellosas do 
Atlântico, e annunciaram ás nações orientaes que 
nos extremos do Occidente se extendia temeroso 



I Isaías, cap. xxiu, vers. 8. — «Tyrum quondam coro- 
natam^ cujus ncgotiatorcs príncipes, institorcs cjus inclyti 
terrae». 



VASCO DA GAMA 67 



O grande Oceano. O próprio nome grego Okéa- 
nos é, no parecer de alguns philologos, a forma 
hellenica do vocábulo phenicio Og ou OgenK 
Doesta navegação, commemorada por Heródoto 2, 
conhecemos apenas que os phenicios, embarcan- 
do no Mar Erythrêo, denominado hoje Mar Ver- 
melho, costearam a Africa oriental, pondo a 
proa ao sudoeste, e ao cabo de três annos, de- 
pois de estancearem por tempo demorado n'al- 
guns pontos do litoral, dobraram as columnas de 
Hercules, e fazendo-se na volta do Mediterrâ- 
neo foram aportar ás praias do Egypto. Esta 
primeira e total circumnavegação é or pmuitos 
escriptores antigos e modernos averbada de sus- 
peita, se não de apocrypha, ou adulterada. Um 
escriptor inglez, nosso contemporâneo, grande 
honrador de nossas glorias, não hesita porém 
em estribar sobre o isolado testemunho do gre- 
go historiador, a evidencia de uma empreza, que 
devera, se fora verdadeira, ter encontrado um 
echo universal entre os antigos^. Mais reserva- 



1 Ritter, Gesch. der Erdk. und der Entdeck., pag. 21. 

2 Heródoto, liv. iv, Melpomene, n." xlii. 

3 Richard Henry Major, The Life o/prince Henry 0/ 
Portugal siirnamcd thc navigator, Londres, 1868, cap. vii, 



68 VARÕES ILLUSTRES 



do e meticuloso em pôr inteira fé no isolado 
testemunho de Heródoto se manifesta o emi- 
nente geographo allemão Oscar Peschel: «Se 
por um lado (escreve) sentimos repugnância em 
acreditar n^um similhante feito náutico, seria 
por outra parte injusto o rejeitar a narração, 
somente porque não corresponde ás idéas geral- 
mente recebidas acerca da pericia dos antigos 
navegadores, os quaes, se nos é dado aventurar 
opinião sobre este ponto, não eram em maríti- 
ma capacidade inferiores aos mareantes euro- 



pag. 89. «The first authenticated navigation of Africa». 
É para notar que um táo erudito geographo e historia- 
dor, que em vários pontos do seu curioso livro defende 
a prioridade absoluta dos descobrimentos portuguezes, 
negando a fé aos testemunhos invocados em favor dos 
genovezes, normandos, catalães e venezianos, declarasse, 
nada menos que authentica,, isto é, íirmada em documen- 
tos irrecusáveis, a navegação ordenada pelo egypcio e ac- 
ceitasse como dogma indisputável a affirmação de Heró- 
doto, sem ao menos lhe contrapor os reparos, que sug- 
gere o seu texto n'este ponto, o silencio dos escriptores 
romanos, a incredulidade de Strabo, e os erros geogra- 
phicos, de que estão cheios os livros da antiguidade, a 
qual certamente os devera ter emendado com a luz es- 
pargida nas trevas do Oceano pelos navegantes da Phc- 
nicia, ás^ ordens do Pharaoh. As duvidas oppostas por 



VASCO DA GAMA 69 



peus dos séculos xv e xvi^». Admira-se o sábio 
germânico de que os geographos da antiguida- 
de, depois de tão notável circumnavegação, não 
cessassem de consignar em seus escriptos mui- 
tas doutrinas, que estavam em directa contradic- 
ção com a narrativa consagrada por Heródoto 2. 
Uma similhante dubitacão occorreu também a 



António Ribeiro dos Santos parecem-nos de todo ponto 
procedentes, ao menos para que não juremos cegamente 
nas palavras do grande chronista grego, em cuja narra- 
ção «ha certamente maravilhas difficeis de acceitar por 
verdadeiras. Veja Memorias de litteratura da acad. real 
das sciencias, tom. viii, pag. 340-342. A circumstancia, re- 
ferida por Heródoto, de que os phenicios n'esta portento- 
sa navegação iam pausadamente, quando chegava o ou- 
tono, semeando trigo nas margens africanas, aguardando 
que as messes lourejassem, fazendo a colheita em tanta 
paz e quietude, como se fora em suas nativas granjas e 
herdades, e depois embarcando novamente para conti- 
nuarem sua viagem, é de tal maneira extraordinária e 
inveririmil, que os mais fanáticos idolatras de Heródo- 
to, quasi sempre aliás tão verdadeiro, ousariam n'estc 
passo fazer uma excepção á sua fé e sorrir talvez da 
crendice do escriptor. 

Peschel, Gesch. der Erdk. Munich, i865, pag. iS. 
2 Peschel, Gesch. der Erdk. pag. 19. 



70 VARÕES ILLUSTRES 

um moderno historiador da geographia, aliás 
faeil em acceitar outras muitas navegações de 
menos fundamentada auctoridade^ 

Da viagem africana de H.annon, o famoso almi- 
rante ou capitão carthaginez, legou-nos a antigui- 
dade a narrativa, attribuindo-a ao próprio navega- 
dor. O Périplo, ou roteiro doesta circumnavega- 
eão existia, diz-se, gravado em lingua púnica n^um 
templo de Carthago e do texto original foi trasla- 
dado por um grego desconhecido, talvez no iv 
século antes deChristo. Divulgado n^esta versão, 
o relatório naval do celebre carthaginez foi a fon- 
te principal, onde gregos e romanos beberam o 
que sabiam acerca da Libya, ou Africa banhada 
pelas aguas do Oceano. Haviam os carthagine- 
zes succedido no fervor das aventuras mariti- 
mas e no espirito colonisador e mercantil a seus 
predecessores e avoengos, os phenicios, alar- 
gando mais do que estes o theatro de suas na- 
vegações. Tinham consolidada e florente nas 
Hespanhas a sua dominação colonial. E prová- 
vel que habituados a cursar as costas da Penín- 
sula alongassem para o sul, senão também para 
o occidente, as suas derrotas, e ao menos visitas- 



} Vivien de Saint-Martín, Hist, de la géogr., pag. 3o. 



VASCO DA GAMA 7I 



sem as terras africanas, que no Atlântico ficavam 
mais convizinhas ao estreito. 

Ordenou o senado carthaginez que o almi- 
rante Hannon partisse com uma frota de sessenta 
galés ou pentecojitores, navios de cincoenta re- 
mos, a fundar no litoral da Libya colónias de 
Garthago. Iam n^ella trinta mil homens e mulhe- 
res, numero que parece desproporcionado ao 
conto dos navios de exigua lotação n'aquelles 
tempos. Discordam os commentadores sobre 
qual fosse o ponto extremo, aonde chegara Han- 
non, e ainda admittindo por exactas as identifica- 
ções dos nomes gregos, attribuidos no P-eriplo aos 
vários pontos da costa occidental, com as deno- 
minações impostas aos logares pelos navegantes 
portuguezes, e acceitando a amplissima extensão 
que Vivien de Saint-Martin assignala aos desco- 
brimentos do almirante púnico^ ainda ficaria por 
navegar e descobrir quanto decorre desde pouco 
alem da serra Leoa, para o sul, até ao golfo 
arábico e ao Oceano oriental ^ 

Não pôde admittir contestação que os cartha- 



1 Vivien de Saint-Martin, Hist. de la géogr., pag. 38. 
1'eschel, Gesch. der Erdk., pag. 19-21. 



VARÕES ILLUSTRES 



ginezes fundaram na costa occidental, que em 
Africa demora mais conjuncta o estreito de Gi- 
braltar, varias colónias, feitorias ou empórios, 
de que se perderam os vestígios nos logares, 
mas de que se conservam as memorias nos li- 
vros dos geographos antigos. 

Todos os povos, que estancêam n'uma orla 
escassa de terra litoral, como que apertados 
em seu berço, buscam indemnisar-se da estrei- 
teza na immensa amplidão das aguas, e por 
uma lei fatal e necessária se tornam em aven- 
tureiros destemidos e em ousados navegadores. 
Assim foram na antiguidade os phenicios de 
Tyro e de Sidon, e os carthaginezes, seus her- 
deiros. Assim na edade média os venezianos, 
genovezes e-pisanos. Assim nos modernos tem- 
pos os portuguezes, e depois d^elles os maríti- 
mos da Hollanda. 

Os povos essencialmente navegadores da an- 
tiguidade eram os que habitavam á beira do 
Mediterrâneo, na Europa, na Ásia, ou na Africa 
septentrional. Entre elles foram preeminentes os 
tyrios e sidonios, e os carthaginezes, que, saídos 
da mesma estirpe, tiveram nas eras mais re- 
motas o sceptro e dominação dos mares até 
que das mãos lh'o arrebataram os romanos trium- 



VASCO DA GAMA 73 



phadores. Strabo commemora que no golfo ou 
enseada conhecida no seu tempo pelo nome de 
seio ou golfo emporico, tinham os mercadores 
phenicios, ou antes carthaginezes, diversorios 
c estações, onde fazer seu trato com os indí- 
genas'. Cumpre náo exaggerar, como alguns 
modernos, principalmente o notável Gampoma- 
nes^, o numero das colónias carthaginezas. Stra- 
bo enumera entre as ficções, que nas angras 
e bahias immediatas ao golfo emporico tivesse 
havido, segundo a tradição, colónias de tyrios, 
elevando-se a trezentas o numero das cidades. 
Apesar de que a imaginação dos antigos povoara 
de innumeraveis obstáculos a navegação do Mar 
Atlântico, todavia (são estas as palavras do geo- 



' Strabo, Geogr., liv. xvir, cap. iii, n." 2. 

2 Campomanes, Périplo de Hannon ilustrado, pag. 42- 
.p. O eminente philologo c estadista hespanhol do tempo 
de Carlos III, não entendendo ou antes adulterando o senti- 
do litteral e obvio do texto de Strabo, attribue-lhe como af- 
lirmação o que elle declara expressamente numerar entre 
as ficções. O escriptor hespanhol escreve no texto do geo- 
íj;rapho em vez de 27^; íè touto), que apparece nas mais 
correctas recensões, s^pí <ít touto, que altera em certa ma- 
neira a intenção do escriptor grego. Strabo diz que, não 
podendo eximir-se a mencionar algumas fabulas das que 



74 VARÕES II.LUSTRES 

grapho) a audácia dos homens, assim como se 
atreve a outras cousas, náo se teme de tentar os 
périplos ou navegações, com que vão costeando 
os continentes ^ De aventurar-se porém a peque- 
nas excursões ao seio emporico, ou aos logares 
onde se dizem erigidas as trezentas cidades car- 
thaginezas, até abalançar-se a circumnavegar o 
continente africano, chegando ao Mar Erythrêo 
ou ao Golfo Arábico, vae a mesma distancia, 
que separa das tentativas dos portuguezes, nos 
primeiros annos do século xv, a completa e feliz 
navegação de Vasco da Gajyia. 

Outra circumnavegação, que se diz antiga- 
mente emprehendida, é a de Eudoxo de Cyzica, 
no tempo em que no Egypto dominava Ptole- 



andavam acreditadas acerca da Libya, pede vénia para 
as commemorar. A primeira, que menciona, é a da famosa 
caverna ou antro de Hercules, no seio ou golfo empo- 
rico, na qual estava uma ara votada ao heroe thebano. 
Accrescenta depois: «Similhante, ou aíim, ou próxima a 
esta primeira tradição (e^^uç to-jtw) é a outra, em que se 
diz que nas seguintes enseadas houve antigas habitações 
de tyrios, as quaes agora estão desertas, tendo sido as 
cidades não menos que trezentas-). Strabo, Geogv., liv. xvji, 
cap. III, n.° 3. 

í Strabo, Gcogr., liv. xvii, cap. iii, n." 20. 



VASCO DA GAMA jS 



meu VIII, cognominado Lathuro, ou Lathyro, 
cerca de um século antes de Christo. O geographo 
romano Pomponio Mela foi o primeiro que a 
citou e descreveu no seu livro De situ orbis, re- 
portando-se a uma obra hoje perdida do histo- 
riador Cornelio Nepos^ Plinio, o naturalista^, 
a traz egualmente commemorada, fundando- 
se na asserção do biographo romano. Se acaso 
é verdadeiro o Périplo do antigo explorador, 



1 Pomponio Mela escreve: «Eudoxus quidam, avorum 
nostrorum temporibus, cúm Lathurum regem Alexan- 
driae profugeret, arábico sinu egressus, per hoc pelagus 
(ut Nepos affirmat) Gades usque pervectus est; ideo ejus 
orae notae sunt aliqua». Pomponio Mela, De situ orbis, 
lib. iir, cap. ix, Lugduni Batavorum (Leyden), 1748, pag. 
3io e seguintes. O texto diz trasladado a portuguez: «Um 
certo Eudoxo em tempos de nossos avós, fugindo de Ale- 
xandria ao rei Lathuro, e saindo pelo seio Arábico, ou 
Mar Vermelho, por este mar (segundo affirma Nepos) foi 
ter a Gades (a moderna Cadix) e por isto alguma cousa 
íicou sendo conhecida do seu litoral». 

2 Plinio, Hist. nat., liv. u, cap. Lxvri, Lyon, 1606, pag. 
27: «Nepos Cornelius auctor est, Eudoxum quendam 
sua aetate, cúm Lathyrum regem fugeret. Arábico sinu 
egressum, Gades usque pervectum». «Cornelio Nepos 
refere que no seu tempo um certo Eudoxo, fugindo ao 
rei Lathyro, saíra pelo sçio Arábico e chegara até Gad^js», 



76 VARÕES ILLUSTRES 

havemos de acreditar que partindo do seio Ará- 
bico ou Mar Vermelho fora discorrendo em 
sua viagem pela margem oriental da Africa, 
dobrara o cabo da Boa Esperança, e, aproando 
para o norte, proseguíra a navegação ao longo 
da costa occidental até ^finalmente vir a Gadix. 

Da segunda versão, com que apparece na an- 
tiguidade o Périplo de Eudoxo, se nos depara na 
obra geographica de Strabo particularisada nar- 
rativa. Esta nova recensão das aventuras náu- 
ticas de Eudoxo é não somente diversa e em 
grandissima parte inconciliável com a primeira, 
conservada no livro de Pomponio Mela, senão 
que tem contra si a critica de Strabo, que, 
depois de largamente a discutir, desapiedada- 
mente a averba de falsaria e de forjada, di- 
zendo textualmente que não distava muito das 
mentiras e das fabulas de Pytheas, de Euhemero 
e de Antiphanes^ 

A discordância manifesta entre as duas narra- 
tivas, a ausência de informações acerca das ter- 



í Sirabo, Geogr., liv. 11, cap. iii, n." 5. 

No mesmo capitulo, n.° 8, chama á historia referida 
por Posidonio -òv Eò^dSstov |xííôgv. o mytho ou a fabula eu- 
doxeia. 



VASCO DA (;ama 77 



ras descobertas e dos aspectos diversíssimos do 
céu e outras circumstancias, que não podiam 
ser nunca deslembradas por quem visse regiões 
tão inopinadas e extranhas, oppoem ao Périplo 
de Eudoxo taes e tão insolúveis contradicçóes, 
que ainda os mais zelosos partidários das nave- 
gações da antiguidade ao longo das ribas afri- 
canas, a suspeitam por apocrypha, ou tecida 
porventura de retalhos mal cerzidos de outras 
explorações ^ 

Accrescem ainda a estas inverisimilhanças as 
fabulas pueris, que acerca dos habitantes africa- 
nos vem narradas no Pei^iplo, taes como as de 
homens sem bocca, sem lingua, e a dos himantó- 
podes, ou dos que andavam, não erectos, como 
é próprio á familia humana, senão reptando, ou 
arrastando-se no chão. Se porventura a narração 
de Eudoxo cyzicense é em parte plagiada de 
Hannon, bem poderam estes extranhos himantó- 
podes ser os mesmos homens silvestres e villo- 
sos, os gorillas, de que falia o capitão carthagi- 



I António Ribeiro dos Santos, Memoria sobre a novi- 
dade da navegação poriugue:^a no século xv, nas Mejrt. 
de litterat. da acad. real das sciencias, tom. viii, pag. 
342-344. 



78 VARÕES ILLUSTRES 

nez, e que não são outros, segundo o viajante 
Du Chaillu^, senão os chimpanzés (Troglodytes 
niger), tão frequentes nas selvas da Guiné c 
principalmente no território de Gabon. 



I Du Chaillu, Adventures in Equatorial A/rica, Lon- 
don, 1881, 343, cit. em Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 21. 



\ 



CAPITULO VII 



AS NAVEGAÇÕES NA COSTA DE AFRICA 
DURANTE A ANTIGUIDADE 

(Continuação) 

Similhantes emprezas marítimas (as 
navegações da antiguidade) se porven- 
tura existiram, foram absolutamente ex- 
tereis nos seus resultados. 

Stockler, Memoria sobre a origina- 
lidade dos descobrimentos portugueses. 

As frotas, que, governadas pelos tyrios do 
rei Hiram, partiam do Mar Vermelho até Ophyr 
e Tarsis para levar a Salomão o oiro^ e as ri- 
quezas do Oriente, andam, pela brevidade e es- 
curidão do texto biblico, tão envoltas em es- 
pesso nevoeiro, que os mais subtis commenta- 
dores, accumulando thesouros de erudição e es- 



I Reges, llv. iii, cap. ix, vers. 27-28. Paralipomen. 
liv. iij cap. viii, vcrs- 18. 



8o VARÕES ILLUSTRES 

crevendo tratados volumosos, ainda não pode- 
ram entender-se sobre qual foi o roteiro^ das 
viagens, nem onde eram situadas aquellas aurí- 
feras e opulentas regiões. Querem alguns que a 
celebrada Opliyr da biblia correspondesse ao ter- 
ritório de Sofala, na Africa portugueza oriental'. 
Pretendem outros que a Ophyr biblica estava 
situada no Indostão, na antiga região de um 
povo chamado Abhira, segundo Lassen^, 

Da navegação de Menelau, depois de expu- 
gnada Tróia, não ha outro vestígio senão o que 
na Odyssea se refere, onde não é fácil discernir 
o que brotou da fecunda phantasia do poeta, e 
o que se derivou de mais antiga e provável tra- 
dição. Recontando o heroe grego a Telemacho 
as suas aventuras, refere-lhe n'estas palavras as 
suas largas navegações: «Muito em verdade pa- 
deci, e errando longamente em minhas naus, 
aportei ao oitavo anno a Chypre e á Phenicia, 
c continuando a divagar, cheguei ao Egypto e 



I Vivien de Saint-Martin, Hist. de la géogr., pag. 27.— 
Ritter, Gesch. der Erdk. iind der Entdeck., pag. 18. 
■■J Ritter, Gesch. der Erdk. und der Entdeck., pag. 18-20 



VASCO DA GAMA 8l 



fui ter á Ethiopia, e aos Sidonios, e aos Erem- 
bos, e á Libya'. 

Todas as reminiscências, que nos escriptos 
da antiguidade se revelam acerca de primitivas 
navegações em torno de Africa, ainda que se- 
jam defectivas e suspeitas para individuar com 
suficiente claridade uma só completa circum- 
navegação, são bastantes comtudo para affir- 
mar que entre os antigos andava mais ou menos 
incerta e ennevoada a tradição de que uma parte 
sequer das costas africanas tinha sido visitada por 
algum navegador. O litoral da Mauritânia teria 
porventura sido explorado pelos mareantes, que 
traspassando as columnas de Hercules, se aven- 
turassem a singrar por algum tempo no Oceano. 
A costa, que vae escorrendo no Oriente desde a 
bocca do estreito de Bab-el-Mandeb até muito ao 
norte da ponta meridional da Africa, seria avis- 
tada pelos navegantes, que aprestassem no Mar 



I 'H -^'àp TT&XXà ■7Ta6(-)v jcal izoWk eTvaXr.ôstç 
'H-j^apaev sv vT.uot, xal o^^ooltm 'irii r,XOov 
KuTTpov, Ooivtjcviv Tê, y,%i Aí-^uirríou; ÍTZixXrfiv.^ 

Kxl Ai?úr,v. 

OJyssca, liv. iv, vei-s. Si c S5. 



82 VARÕES ILLUSTRES 

Roxo as suas expedições. Viagem completa em 
volta do continente, não ha na antiga historia 
um só monumento irrecusável, em que possa 
apenas por verisimil rastrear-se. Nem a antiga 
navegação era de molde para tão ousadas aven- 
turas, por mais que fossem eguaes ou superiores 
ás dos modernos navegantes, a pericia e a audácia 
dos antigos ^ Os navios fabricados com ignorân- 
cia das regras e preceitos scientificos da archi- 
tectura naval; pequenos, débeis, mal azados a 
soífrer as tormentas do Oceano; as cartas hy- 
drographicas nenhumas ; ignorada a bússola ; a 
astronomia náutica na infância; por guias e pha- 



I Oscar Peschel, fazendo notar a sua repugnância em 
admittir com fácil credulidade a circumnavegação da 
Africa, attribuida aos phenicios por mandado do Pharaoh 
Necho, inclina-se todavia á opinião de que esta empreza 
se não pôde contestar com o único fundamento de que a 
sciencia e a pratica marítima dos antigos não bastavam a 
tamanha e extraordinária navegação, porque, em seu en- 
tender, a pericia naval dos antigos navegantes não era 
inferior á dos europeus nos séculos xv e xvi, e cita como 
provas algumas viagens, que na antiguidade se fizeram 
com extrema velocidade, superior ao mais rápido anda- 
mento dos navios actuaes. Peschel, GpscJi. i-^cr J\rdl;., 
pag. i8. 



VASCO DA GAMA 83 



roes as estrellas, principalmente as duas ursas, 
para os gregos a maior, a menor para os phe- 
nicíos^: taes e táo escassos eram na antigui- 
dade os recursos navaes, com que aífrontar e 
vencer as indómitas aguas do Oceano. E por isso 
as grandes e notáveis expedições dos povos con- 
quistadores quasi sempre foram em terrestres iti- 
nerários. E a este propósito Montesquieu, táo no- 
tável e táo habitualmente verdadeiro nas senten- 
ciosas afiirmaç5cs, deixou escripto que em anti- 
gos tempos se descobriam os mares conquistando 
as terras, e hoje ao contrario se descobrem as 
terras pelas viagens do mar 2. 

Estribados nas palavras de Heródoto '\ que- 
rem alguns acreditar que em tempos de Xerxes, 
rei da Pérsia, se emprehendeu uma larga nave- 
gação á roda de Africa. A origem romanesca 



1 Montuclaj Hist. des fnathematiques, part. iii, tom. i, 
pag. 88-93. 

2 «Aujourd'hui Fon dccouvre les terres par les voya- 
,^os de mer; autrefois on dtícouvrait les mers par In con- 
(jucte dcs terres." Montesquieu, 7)c' Vcsprit d' 

li V. XXI, cap. 

3 Heródoto, jjt.^t., ii\. n, l.^). auii. 



84 VARÕES ILLUSTRES 

doesta singular expedição, segundo a refere o 
historiador hellenico, contribuiria para imprimir 
no seu reconto o caracter de uma lenda, e tor- 
nar suspeita a existência da viagem, se os pró- 
prios termos do escriptornão nos estivessem pre- 
munindo contra a sua mesma relação. Heródoto 
refere que, segundo contavam os carthaginezes, 
um certo Sataspes violara uma filha de Zopyro. 
Ora succedia que Zopyro era o amigo extre- 
moso e fidelíssimo do rei dos persas, Dário, 
aquelle modelo de heróica devoção, de quem 
se conta nas historias a mais incrível c singular 
fineza em prol do seu monarcha. O crime de 
Sataspes accendeu a cólera de Xerxes, o qual o 
condemnou no mesmo ponto a padecer o sup- 
plicio n'uma cruz. A mãe do criminoso era, po- 
rém, irmã de Xerxes, e se não tinha valimento 
para o perdão, alcançou por suas traças, que a 
pena capital lhe fosse commutada n''uma peri- 
gosa e tremenda expedição em torno da Libya, 
como quem dissera então no mais trabalhoso e 
cruel degredo, que, segundo era tremendo então 
o Oceano, se afigurava equivalente a uma ca- 
tastrophc. Submetteu-se o mancebo ao preceito 
do tyranno, havendo por melhor o lenho de um 
funaragio que o madeiro do supplicio. Levava 



VASCO DA GAMA 85 



por mandado que, embarcando-se no Egypto e 
saindo pelo estreito ao Atlântico, fosse costeando 
a Africa até surgir no Mar Vermelho. Passou 
as columnas de Hercules, dobrou o promontó- 
rio Soloeis e endireitou a proa ao sul. Largos 
mezes vagou pelo Oceano. Recresceram-lhe, 
porem, taes difficuldades e contradicções, que 
teve por melhor partido retroceder, volvendo ao 
Egypto e d^ali á corte do rei persa. E por mais 
que se desculpou de não ter podido continuar 
cm sua empreza, porque o mar lhe náo consen- 
tira navegar até fazer inteiro o gyro, o déspota 
oriental mostrou-se inexorável, e o mallogrado 
navegante houve de expiar na cruz o delicto de 
deixar aos portuguezes a gloria de primeiros nos 
descobrimentos do Oceano. 

A viagem emprehendida em tempos de Ge- 
lou, rei de Syracusa, por um navegador, que 
rodeara o continente africano, apenas em Strabo 
vem commemorada. Entre as noticias, que este 
geographo attribue a Posidonio, se refere o dito 
de Heraclides do Ponto, segundo o qual um 
certo mago viera ter á corte de Gelon, de S}'- 
racusa, asseverando ter o seu navio feito a cir- 
cumnavegação da costa de Africa. Mas accres- 

Centa o geographo, que Posidonio pozera escassa 

8 



86 VARÕES ILLUSTRÉS 

fé em tal historia, porque se não firmava cm 
plausiveis documentos f. 

Segundo o testemunho de Plinio^, o antigo, 
ainda podemos accrescentar ás tentativas de na- 
vegação nas costas de Africa a viagem do his- 
toriador Polybio, por ordem de Scipião Emilia- 
no, no anno 145 antes da era christã^. Se a ex- 
pedição em verdade se eífeituou, não passaria 
porventura dos últimos confins da Mauritânia, 
tomando por seu termo o cabo Não. E de certo 
improvável que em tempos ainda próximos do 
naturalista romano se tivesse realisado uma larga 
exploração do litoral africano, e que Plinio per- 
severasse impenitente nos seus erros, suppondo 
innavegavel o Oceano. 

Bem parcos fructos se derivaram da viagem 
de Polybio para o mais perfeito conhecimento 
da Africa meridional, porque o próprio navega- 
dor nos deixou escriptas em sua historia as se- 



1 Strabo, Geogr., liv. 11, cap. iii, n." 4. 

2 Plinio, Hist. nat., liv. v, cap. i. 

3 Polybio refere-se na sua historia a esta viagem afri- 
cana, se bem que a parte de seu livro, em que estava es- 
cripta a narração, é d'aquellas que se perderam. Polyb., 
Hist., lib. III, cap. Lix, ed. Didot, pag. i58. 



VASCO DA GAMA 87 



guintes palavras de notável significação: «Da 
Ãsia e da Africa, de que maneira confrontem 
cerca da Ethiopia, ninguém até o presente ha 
podido afíirmar se é a terra continente, que d'ahi 
se extende para o sul, ou se o mar é que as cir- 
cumda^». Esta duvida não poderia subsistir no 
espirito do navegante, se a remotas regi5es para 
a banda do-meio dia e oriente houvesse chega- 
do a frota de Polybio. 

De quantas navegações em volta de Africa se 
encontram memoradas nos escriptores gregos e 
romanos, nenhuma é porventura com maior 
conformidade havida por authentica do que a 
viagem registrada no chamado Périplo do Mar 
ErythreOy falsamente attribuido a Árriano, o hel- 
lenico narrador das expedições de Alexandre. 
O grego navegante, quem quer que fosse, parte 
de Berenice e vae discorrendo com suas singra- 
duras ao longo da costa ethiopica do Mar Ver- 
melho até dobrar o cabo Àromata ou Guardafui 
(Djard Hafun, dos árabes). D''ali procede cos- 
teando a Africa oriental até Zanzibar % e chega 



1 Polybio, Hist. nat., liv. iii, cap. xxxviii, ed. Didot, pat^. 
143. 

2 Vivicn de Saint- Martin, Hist. de la sféog^r., pag. 189- 
iqo, 



88 VARÕES ILLUSTRES 

até um ponto que, na opinião de Peschel, demo- 
rava nas cercanias de Quiloa^ 

Poderia pois na antiguidade ter havido, por 
um singular privilegio de ardideza e temeridade, 
quem tentasse commetter a que se afigurava 
geralmente por impervia e tenebrosa massa de 
aguas, vedada pela ciosa natureza á audácia hu- 
mana. Mas nenhum monumento de irrefragavel 
auctoridade, nenhuma tradição ininterrupta e uni- 
versal ficou permanecendo, a qual podesse de- 
monstrar que se tivesse rematado a empreza 
admirável de rodear navegando as terras africa- 
nas desde o Mediterrâneo ou o Atlântico Occi- 
dental até ao seio Arábico ou Mar Vermelho. 

Se não de tão assombrosa magnitude como 
os descobrimentos portuguezes até abicarem 
seus baixeis ás terras indianas, ao menos em 
certa maneira extraordinárias é conducentes ao 
trato e communicação de povos afastados, se 
conservaram nas historias, como feitos incon- 
troversos e notáveis, algumas expedições na an- 
tiguidade. Quem poderia, porventura, duvidar 
de que Alexandre, o bellicoso chefe macedónio, 
levou com as suas armas os seus triumphos ate 



I Peschel, Gesch. der Erdk., paL^. 16, 17 c 53. 



VASCO DA GAMA 8() 



á península do Ganges em suas terrestres excur- 
sões e abriu mais ampla senda entre os antigos 
á communicaçáo do Occidente com as regiões 
orientaes? Quem não crê que das expedições do 
grande macedónio advieram, como testifica Stra- 
bo, novas luzes á sciencia geographica'? 

Quem poderia contestar que desde o undé- 
cimo século a Europa guerreira arremetteu por 
muitas vezes contra a Ásia, no impetuoso mo- 
vimento das cruzadas, e que por ellas se estrei- 
taram novamente os vínculos de duas civili- 
sações? Se pois táo espantosa façanha tivera 
alguém realmente posto em obra, qual era a na- 
vegação desde as extremas occidentaes do mun- 
do conhecido até ao litoral da Arábia, como te- 
riam os povos europeus, em tempos de íUumí- 
nada cultura scientífica e social, os gregos e os 
romanos principalmente, deixado cair no olvido 
mais completo esta maravilhosa revolução, a qual 
teria transmudado inteiramente a sciencia, o com- 
mercio, a civilisação na antiguidade? As primei- 
ras novas dos descobrimentos portuguezes de- 
ram tão alto rebate em toda a F.uropa, como 



1 Strabo, Geogr., liv. i, cap. ii, n." i, cJ. Didot, Paris, 



i853, pag. II, 



gO VARÕES ILLUSTRES 

se improvisamente se cambiaram as condições 
da sua existência social ^ Todas as nações euro- 
pêas até ás da remota e boreal Scandinavia se- 
guiram com olhos curiosos e inquietos cada nova 
singradura, com que em seus baixeis aventurei- 
ros se iam adiantando os navegadores de Por- 
tugal. Quando os navegantes portuguezes chega- 
ram á Guiné, a fama doeste feito, o mais ines- 
perado e assombroso de quantos registrara até 
entáo a historia marítima do mundo, correu por 
toda a Europa^. Como seria, pois, que o mesmo 
feito antecipado em remota antiguidade não dei- 
xaria um só vestígio na historia politica e mer- 
cantil, e apenas se conservaria envolto em fabu- 
losos episódios e contradicções inextricáveis em 
raros historiadores, geographos e polygraphos 
gregos e romanos? 



1 Barros, Decad. i, liv. i, cap. xr. — «Spargendo-sc a 
fama deste feito pellas partes do mundo, ouve de chegar 
á corte dei Rey de Dinamarca e de Suécia e Noruega 
etc.» Azurara, Chron. do descobr. e conq. de Guiné, cap. 
xciv, pag. 441. 

2 «Neste tempo por toda a Europa se fallava neste des- 
cobrimento da Guine, como na mais nova cousa, que se 
podia dizer.» Barros, Decad.. i^ liv. i, cap. vu. 



Vasco da gama 



E como será crivei que emprezas maritimas de 
tão notável magnitude, quaes se dizem aconteci- 
das -na antiguidade, passassem como feitos quasi 
ignotos, sem accordar um echo na sciencia? Pois 
navegavam Hannon, Eudoxo, os mareantes ás 
ordens do curioso Pharaoh, velejavam as gen- 
tes maritimas das orlas do Mediterrâneo, os ty- 
rios, os phenicios, os carthaginezes, os gregos, os 
romanos, os iberos, e a antiguidade permanecia 
absorta nas suas palmares ignorâncias, nos seus 
erros hereditários, nas suas fabulas pueris acerca 
do Oceano e seus mysterios, da Africa e dos 
seus habitadores? Nem o trato mercantil, nem 
a geographia houveram de lucrar o minimo pro- 
gresso ? Ficaram memorados n'uma epopéa ce- 
leberrima os errores e navegações do velho Ulys- 
ses, que não passaram de um recanto do Mar 
Egêo, perpetuaram-se no mytho e no poema as 
expedições dos argonautas até o Phaso, e ha- 
veriam de riscar-se da tradição e da memoria 
as extensas navegações, que ligavam o mundo 
antigo ás terras escondidas na penumbra do 
. prodígio e do mysterio ? 

Um auctorisado geographo contemporâneo, 
que não á parco em contestar aos portuguezcs, 
quanto pôde, a originalidade em suas navegações. 



92 VARÕES II.LIJSTRES 

comparando as viagens da antiguidade com os 
modernos descobrimentos, confessa que entre os 
antigos houve de facto alguns périplos, mas ver- 
dadeiros viajantes, taes como a edade moderna 
os produziu, doestes que vão ousadamente des- 
cobrir as cousas ignoradas, penetrando em povos 
desconhecidos, internando-se em regiões inexplo- 
radas para trazer d^ali, a risco cie suas vidas, 
novas informações, que enriquecem a sciencia, 
taes viajantes como estes, não os conheceu a an- 
tiguidade ^ 

Para tornar suspeitas em grande extremo, não 
somente as suppostas circumnavegações, mas 
ainda qualquer navegação, que se extendesse até 
ao equador, bastaria considerar o que diz Pto- 
lemeu quando ao refutar as asserções de Mari- 
no de Tyro, assevera que ninguém até o seu 



r^«De vrais voyageurs tels que les ont formes les temps 
modernes, allant, hardiment à la découverte des choses 
ignorées, pénétrant chez les peuples inconnus, s'enfon- 
çant dans les pays inexplorés, pour cn rapportcr, au pcril 
de leur vie, les informations nouvclles, dont s'enrichit la 
science, des voyageurs de ce caractere, rantiquité, n'en a 
guèrc connu.» Vivien de Saiiit-Martin, Hist. de la géo- 
gr., pag. i5o. 



VASCO DA GAMA 98 



ternpo havia cursado as regiões equatoriaes, e 
que tudo quanto d^ellas se contava era apenas 
especulação e conjecturai 



I «Utrum vero illud quod cst sub hac linea (aequino- 
ctiali) habitctur, nos hujus scientiam non comprehendi- 
mus, quam aliquis non pervenit adcam . . . usquc ad 
diem hunc nostrum.» Ptolem., Almagesto, Dictio., 11, 
cap. VI. Veneza, i5i5, foi. i3 vers. 



CAPITULO VIII 

A SCIENCIA GEOGRAPHICA NA ANTIGUIDADE 

O saber dos antigos nos tempos da 
sua máxima extensão alargou-se por 
dois terços do nosso continente, a 
quarta parte da Ásia situada ao su- 
doeste, e o terço septentrional da 
Africa. 

Peschel, Hist. da geogr, pag. 2g. 

O que cl sciencia e a geographia aproveitaram 
entre os antigos coni as suppostas ou reaes ex- 
pedições á costa de Africa, resulta manifesto, 
quando se vão inquirir as obras, cm que a anti- 
guidade consignou o que sabia, ou fabulava, acer- 
ca do nosso globo, da distribuição das terras e 
das aguas, de quaes regiões eram povoadas ou 
habitáveis, de quaes desertas e incompativeis com 
a humana organisação, de que formas singulares 
e extranhas á fauna e á flora conhecida havia a 
natureza dado mostra nas zonas diversíssimas 
da terra. 



96 var5es illustres 

Quanto á forma e aos limites da Africa, e ao 
modo por que este grande continente era cir- 
cumdado pelo Oceano, consultados os cosmogra- 
phos, os historiadores, os philosophos, os eru- 
ditos de mais illustre nomeada entre gregos e 
romanos, apenas se nos deparam erros, dubi- 
tações, conjecturas, ou flagrantes dissidências 
em suas mal-seguras ou phantasiadas opiniões. 
E começando pelos gregos da edade áurea, e 
quando a Grécia cifrava em suas cogitações a 
flor do pensamento e a nata da sciencia, vemos 
o cognominado pae da historia dizer-nos unica- 
mente que a Libya ou a Africa é cercada pelo 
mar, sem accrescentar uma palavra a respeito 
da sua forma approximada, e da sua tão notá- 
vel terminação em ponta meridional . O histo- 
riador grego professa, porém, a verdadeira opi- 
nião ácejTca de serem contínuos um com o outro 
os dois mares, o Atlântico e o Mar oriental. 
«Todo o mar, onde navegam os gregos ou hel- 
lenos (diz Heródoto), o que está para alem das 
columnas de Hercules, o qual tem o nome de 



I Heródoto, Hist., liv. iv, cap. xlií. 



VASCO DA GAMA 97 



Atlântico, e o Erythrêo, não constituem mais de 
que um só e mesmo mar^» 

Andaram discordantes os antigos sobre este 
ponto fundamental da geographia, qual era o de 
saber se o Atlântico e o Mar das índias se 
communicavam entre si, e se pelo conseguinte 
a Africa era ou não circumdada pelas aguas na 
sua peripheria. Emquanto homens tão eminentes 
quaes foram, alem de Heródoto, o geometra 
Eratosthenes^, o geographo grego Posidonio-^, 
professavam, de certo de pura intuição, e sem 
nenhum testemunho experimental, a continuida- 
de necessária do Oceano, o nome de Hippar- 
cho, do maior astrónomo da antiguidade, a quem 
a sciencia deveu a primeira determinação da obli- 
quidade da ecliptica e do anno trópico, e o mais 
antigo catalogo de estrellas, escudava a doutri- 
na de que o Oceano Indico se reduzia apenas a 
um grande lago ou mar interior e mediterrâneo, 
porque a costa africana encurvando-se para les- 
te, ia, segundo o astrónomo, approximar a sua 
extremidade oriental á peninsula de Malaca. Pto- 



1 Heródoto, Hist., liv. i, cap. ccii. 
-í Strabo, Geogr., liv. i, cap. iii, n." i3, ed. Didot, paj;. 47. 
3 Strabo, liv. 11, cap. iii, n." 3, ed. Didot, pag. 81. 

9 



98 VARÕES ILLUSTRES 

lemeu, que tanto renome alcançou entre os an- 
tigos e modernos, que as suas doutrinas se re- 
ceberam durante largo tempo como dogmas nas 
sciencias cosmographicas, professou e defendeu 
a opinião de que não havia communicação entre 
o Oceano Indico e o Mar occidental. O celebra- 
do geographo Strabo, que ílorecia em principios 
do primeiro século da era christã, e que antes 
de Ptolemeu compendiou n'uma obra eruditís- 
sima o estado dos conhecimentos geographicos 
no seu tempo, descreve a Libya ou Africa, attri- 
buindo-lhe a figura de um triangulo rectângulo, 
cuja base é a linha terminada entre o Egypto e 
as columnas de Hercules. O outro lado ou cá- 
theto adjacente ao angulo recto, é o que decorre 
desde o Nilo até á Ethiopia, prolongado até ao 
Atlântico; o terceiro lado ou a hypotenusa, se-- 
gundo os próprios termos do geographo «é toda 
a região, que está junto do Oceano entre os ethio- 
pes e os mauritanos')). 

No conceito de Strabo, venerado como texto 
da máxima auctoridade entre os antigos, a Afri- 
ca, em vez de ser inscripta nHim triangulo ap^ 



Strabo, Geogr.j, liv. xvii, cap. 111, n." i. 



VASCO DA GAMA ()Q 



proximadamente equilátero, cujo vértice meri- 
dional está situado no Atlântico, ou mar exte- 
rior, tem o extremo ao Oriente nas cercanias do 
Mar Erythrêo ou, como hoje o appellidam, Mar 
Vermelho. 

Strabo, descrevendo em outro logar da sua 
Geographia a forma do continente africano, 
tal como por suas conjecturas a ideara, diz 
que o Htoral opposto á Europa é represen- 
tado por uma linha recta, que desde Alexandria 
se tirasse até fenecer nas columnas de Hercu- 
les, e o lado, que para a banda do meio-dia é 
contíguo ao Oceano, depois de correr por grande 
espaço da parte da Ethiopia parallelo .ao limite 
septentrional, se inflecte ou dobra até ir termi- 
nar em ponta aguda um pouco ao occidente das 
columnas. Assim, diz Strabo, é a figura da 
Africa, á maneira ou siaiilhança de um trapé- 
zio ^ Não se pôde conceber mais eloquente e se- 
guro testemunho de quanta e quão profunda era a 
ignorância do grande geographo hellenico acer- 
ca da exacta configuração da península africana. 
E note-se que Strabo florecia no primeiro sc- 



StrabOj Geogr., liv. ij, cap. v, n.° 33, 



100 VARGES ILLUSTRES 

culo da era christã, sob a dominação de Au- 
gusto e de Tibério, quando a civilisação ro- 
mana tocara o ápice, quando os exércitos leva- 
vam triumphantes as águias imperiaes a apar- 
tadas regiões do mundo conhecido, e quando 
Elio Gallo, amigo e companheiro do geographo, 
segundo elle próprio declara em sua obra, che- 
gara com as legiões romanas até á Arábia, 
quando Gneo Pisão, que regera a provincia de 
Africa, havia ministrado ao escriptor algumas 
informações ^ 

E para que avaliemos o que da Africa ou Li- 
bya achamos registrado no texto de um escri- 
ptor, que resumia no seu tempo toda a sciencia 
geographica, reparemos na simpleza das pala- 
vras, com que nos premuniu contra a incerteza 
dos seus conhecimentos africanos. «Tudo o mais 
(diz Strabo) quanto junto ao vértice d''esta fi- 
gura está já subjacente á zona tórrida, apenas 
o pomos por conjectura, porque é inaccessivel; 
e d^ahi resulta que não é possível o dizer qual 
é d"'esta região a máxima largura 2». E mais adian- 



1 Strabo, Geogr., liv. 11, cap. v, n.° 33. 

2 Strabo, Geogr., liv. xvii, cap. iii, n.» i. 



VASCO DA GAMA 101 



te, ao concluir a descripçáo da Libya, declara 
sinceramente a sua ignorância acerca da maior 
porção da Africa, escrevendo: «Não se podem 
explicar os limites da Ethiopia, nem da Libya, 
ainda mesmo da que confronta com o Egypto 
ou está junto do Oceano^». 

Reconhece e propugna Strabo entre os anti- 
gos a continuidade dos mares, que circumdam 
a terra continente. Em seu conceito, a parte 
solida e emergente, que as aguas estão banhando 
por toda a parte, é uma ilha de immensas pro- 
porções. E em confirmação da sua doutrina ad- 
duz o geographo greco-romano que todos os que 
ousaram circumnavegar os continentes e hou- 
veram de retroceder em seu caminho, não vol- 
veram sobre seus passos, porque alguma terra in- 
terposta lhes obstasse, mas porque, tornando-se 
o mar innavegavel, os coagira a solidão das 
aguas e a penúria das suas matalotagens a de- 
sistir da empreza começada^. 

O auctor do Périplo do Mar Erfthrco, ou 
fosse Arriano, como alguns presuppozeram, ou 



1 Strabo, Geogr., liv. xvii, cap. iii, n." 23. 

2 Strabo, Gcof^r.. liv. i, cap. i. n." í^. 



102 Varões íllustres 

um grego desconhecido, dando como incon- 
cusso que o Oceano desde o cabo Rhaptum 
para o Meio-dia ainda não fora navegado, afíir- 
ma por simples, mas exacta conjectura, que alem 
daquelle promontório o mar encurvando-se para 
o occidente no sul da Ethiopia, da Libya e da 
Africa se ia continuar com o Oceano occidental^ 
Ptolemeu assigna por limites á porção conti- 
nental do nosso globo uma terra incógnita, que 
íica adjacente aos povos orientaes da Ásia, os 
Sines e os Seres, ao sul uma região egualmente 
desconhecida, cercada pelo Oceano Indico, e abra- 
çando a parte mais meridional da Ethiopia, cha- 
mada Agisymba^. Na concepção do geographo 
alexandrino esta região é de extrema largura^. De 
maneira que a Africa, em vez de ir-se coarctando e 
restringindo ao avançar para o Meio-dia, pelo 
contrario se vae a uma c outra parte dilatando. 
O Mar das índias era, segundo a crença de Pto- 



1 Pcripí. Mar. Erythr., cap. xviii, cm Pcschel, Gesch. 
der Erdk., pag. 17-18. 

2 Ptolem., Geoi;r., liv. vii, cap. v, ed. de Francfort, 
1619, pag. i8í. 

3 Ptolem., Geogr., liv. iv, cap. i.v, pag. 11 5. 



VASCO DA GAMA Io3 



lemeu, um mar interior e cerrado á similhança 
do Mediterrâneo ^ 

Nenhuma noção, sequer approximativa, da 
forma verdadeira do continente africano se nos 
depara nos escriptos da antiguidade. Alguns 
escriptores a partir do Golfo Arábico ou Mar 
Vermelho figuravam desviada para o oriente a 
costa oriental da Africa, encurvando-a e atormen- 
tando-a a seu talante até ir entestar com as re- 
giões orientaes da Ásia. O Oceano Indico appare- 
cia n^esta concepção systematica à /rzon da anti- 
ga geographia como um mar interior, á simi- 
lhança do Mediterrâneo 2. Toda a communicação 
entre o Atlântico e o Mar das índias desappare- 
cia totalmente e a navegação á roda da Africa fi- 
cava perpetuamente prohibida pela ciosa nature- 
za, que assim quizerá condemnar os homens das 
mais apartadas regiões á eterna separação. Na 
theoria geographica de Ptolemeu, a Africa, em 
vez de ter a forma triangular e de ir estreitando 
mais e mais até que um extremo promontório a 



í Vivien de Saint-Martin, Hist. de la géogr.. Paris, 
1873, pag. 207. 

2 Pcschel, Gesch. der, Krdk., pag. 55-57- Vivien de 
Saint-Martin, Hist. de la géogr., pag. 207. 



104 VARÕES JLLUSTRES 

terminasse alem do equador, se ia ensanchando 
á medida que se alongava desde o Septcntriáo 
até ao Meio-dia^ 

Eram tão indefinidos, tão confusos, tão con- 
jecturaes e desprovidos de fundamento experi- 
mental os pareceres acerca da Africa, entre os 
antigos, que passava quasi em provérbio o ser 
inhabitavel a zona intertropical. Aristóteles, 
com a auctoridade omnipotente do seu nome, 
decretara como dogma que as regiões compre- 
hendidas entre os trópicos não consentiam hu- 
mana habitação-. Esta opinião perpetuou-se 
triumphante nos escriptos dos gregos e roma- 
nos até alcançar a sua maior consagração na 
geographia do alexandrino Ptolemeu. E é no- 
tável que fosse um portuguez o primeiro que, 
depois dos assombrosos descobrimentos do sé- 
culo XV, ousasse descrer abertamente da dou- 
trina do grande mestre e em phrase irónica e 
zombeteira chancear das suas opiniões. Foi este 
portuguez o navegador Diogo Gomes, que des- 



1 António Ribeiro dos Santos, Memoria sobre a novi- 
dade da navegação portugue!^a no século xv, nas Mem. 
de litterat. da acad. real das sciencias, tom. viii, pag. 355. 

2 Aristot, Meteorologia,, liv. ii, cap. v. 



VASCO DA GAMA lOD 



crevendo na sua obra De prima inventione Gui- 
neae a opulenta vegetação da costa dos Jalofos, 
se levanta contra o dogma de Ptolemeu em pa- 
lavras, que resumem uma inteira revolução na 
geographia. «E tudo isto escrevo eu com per- 
missão de sua mercê, Ptolemeu, que em ver- 
dade muito boas cousas escreveu acerca da 
divisão do mundo, mas n'um ponto pensou er- 
roneamente. Em três partes distribuiu a terra 
conhecida, nas zonas medias habitáveis, na árcti- 
ca inhabitavel por causa do seu frio, e na tró- 
pica egualmente incapaz de habitação em rasão 
do seu calor. Porém agora o contrario se demon- 
strou. Junto ao equador habitam innumeraveis 
tribus negras, e as arvores se alteiam a incriveis 
dimensões^)). E todavia Gemino, século e meio 
depois de Aristóteles, já resolutamente profes- 
sava que a terra era entre os trópicos habita- 
da 2. E Polybio no seu tratado Da terra habi- 



1 Diogo Gomes, De prima inventione Guineae^ publica- 
do pelo dr. Schmeller nas Mem. da acad. das sciencias 
de Munich, 1845. Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Eyitdeck, 
pag. 71. 

2 Vivien de Saint-Martin, Hist. de la i^co^r.,, pag. 14S 



I06 VARÕES lí.LUSTRES 

tavel junto do equador deixara escripto que os 
logares próximos á linha equinocial, não so- 
mente eram povoados, senão que disfructa- 
vam melhor clima que as terras tropicaes^ 
O máximo orador e o philosopho mais illu- 
minado e pensador entre os romanos, Cicero, 
teve para si, como dogma incontrovertivel, que 
somente as duas zonas temperadas possuíam 
o singular privilegio de habitáveis 2. Para o 
lyrico de Roma, quando a Libya nas suas re- 
giões septentrionaes fora cursada já triumphan- 
temente pelos exércitos da republica e do impé- 
rio, ainda a Africa intertropical é a terra do- 
mibus negata, a região perpetuamente incom- 
patível com a humana habitação pela demasiada 
vizinhança ao carro do soP. Assentava-se que 
pouco abaixo do parallelo de 12° ao norte do 



í Polybio, no tratado Tvspt ttíç Trspl íoviacpivòv oíx-t.gcw?, cit. 
em Vivien de Saint-Martin, Hist. de la géogr. 

2 Cicer., Somnhim Scipionis, em Ciceri Opera omniaj, 
ed. elzevir., 1661, pag. i3i8. 

3 Pone sub curru nimium propinqui 
Solis, in terra domibus negata: 
Dulce ridentení Lalagem amabo, 
Dulce loquentem. 

fioracio, Odes, liv. ode xxii, 



VASCO DA GAMA IO' 



equador, principiavam aquelias terras ardentis- 
simas, onde o calor excessivo tornava impossivel 
a existência aos humanos organismos. Era como 
se o sol, imitando os costumes guerreiros dos 
povoadores da Africa intertropical, estivesse 
ali sempre despedindo a suas hcrvadas frechas 
e venábulos contra quem se aventurasse a ultra- 
passar os marcos e fronteiras das terras habi- 
táveis. 

O antigo geographo Posidonio, citado por 
Strabo, admittia como verdade incontestável que 
a zona tórrida náo podia ser habitada ^ 

O próprio Strabo, expondo a repartição do 
globo terrestre em cinco zonas, crê que é inha- 
bitada a que está comprehendida pelos trópicos, 
e considera egúalmente despovoadas as zonas 
frigidas ou glaciaes, que decorrem desde os cir- 
culos polares até cada um dos poios. Somente 
em sua opinião são habitáveis as temperadas =^. 

Segundo Strabo a terra habitada estava com- 
prehendida entre o parallelo que passa pela Hi- 



I Strabo, Geogr., liv. ii, cap. iii, ii." 3. 
- (' Ao-.JcT.TO-j; ^í rà; àXXa^ [í^wva;], tt.v y.sv 5't7. /.a-j|/.a-, rò; ^è ^:x 
tj/jy/jí.'» Strabo, Geoí;r., liv. ii, caj^. v, n.« 3, ed. Didot, pag. 91; 



1 08 VARÕES • ILLUSTRES 

bernia e a que elle descrevia como região cinam- 
momifera, situada na margem meridional do 
Mar Erythrêo^. Projectada n''um plano a terra 
habitável, apparecia, segundo a opinião do geo- 
grapho, na figura de uma chlamyde. 

Era corrente entre os antigos a crença de que 
certas regiões do Mar Atlântico eram totalmente 
innavegaveis, ou pelo menos tão cortadas de con- 
tradicções e embaraços, que ninguém se aventura- 
va a devassar os seus mysterios. Acreditavam 
uns, com Scyllax e Plutarcho, que o Oceano se não 
podia navegar, porque as suas aguas eram pou- 
co profundas e cenagosas; o seu leito de vasa 
e lodo abundantíssimo, a sua superfície alastra- 
da de plantas marinas em tão copiosa multi- 
dão, que não era dado ao navegante despear-se 
em meio do seu fluctuante labyrintho. Haviam 
outros para si que o Oceano se não podia na- 
vegar por ser immovel, como se fora difficil 
romper-lhe o seio e cursar "livremente á sua 
flor. Suppunham alguns que os ventos estavam 
em certas paragens como que represos e estan- 
cados, privando os mareantes do recurso, que 



í Strabo, Geogr., liv. ii, cap. v, n." 14, pag. 98. 



VASCO DA GAMA I09 

na ausência dos mais modernos propulsores se 
reduzia em grande parte ao panno dos navios. 

No conceito geographico de Strabo o mar ou 
o Atlântico náo pôde . navegar-se pela sua im- 
mensidade e solidão ^ 

Phantasiavam os mais propensos a prodigios 
que alem de certas latitudes era a luz confusa e 
vaga, de maneira que o triste navegador não 
podia ver o caminho que levava. Affirmavam 
alguns, que nem estrellas appareciam luzindo 
nos espaços, accrescentando-se por este modo á 
sombria escuridão dos desertos oceânicos a mo- 
nótona solidão do firmamento. Imbuídos nas 
ficções da mythologia, que ainda então confron- 
tava de mui perto com a sciencia geographica, 
povoavam outros o Atlântico de prodigios e 
de monstros implacáveis, que fariam hesitar a 
Jason e ao próprio Hercules e recuar assom- 
brados e vencidos os mais impertérritos nave- 
gadores. A outros inspirava o largo Oceano 
como que um horror sagrado, porque o sol 
ao sepultar-se no ultimo Occidente, se immer- 



strabo, Geogr., liv. 11, cap. v, n." 6, ed. Didot, pag. gS. 

10 



no VARÕES ILLUSTRES 

gia afogueado no seu pélago e á similhança de 
um immenso ferro em braza, que de impro- 
viso nas aguas se afundisse, celebrava as suas 
exéquias temerosas com hórrido estridor ^ Estas 
singulares e extravagantes opiniões tinham para 
escudar-se os nomes dos mais celebres aucto- 
res da antiguidade, e entre elles Séneca, o 
philosopho, que tão perspicuamente se anteci- 
pou, adivinhando vagamente algumas doutrinas 
verdadeiras das modernas sciencias naturaes; 
para quem, todavia, o Oceano era o maré 
immotiim e apigra moles, o mar immovel e pre- 
guiçoso 2; Plinio, o antigo, que de verdades in- 
suspeitas e de fabulas infantis entreteceu a sua 
vasta encyclopedia, a que deu o nome de His- 
toria natural; Festo Avieno, para cuja phanta- 



1 Strabo refere que o geographo grego Posídoftio qiií- 
zera, indo ao Atlântico Occidental, por sua própria inspec- 
ção ocular, cerlificar-se da lenda popular, segundo a qual 
o sol, ao immergir-se no Oceano, fazia um ruido extranho 
e temeroso. Strabo, Geogr., liv. iii, cap. i, n.« 5, pag. i38. 

2 «Stat immotum maré et quasi deficientis in suo fine 
naturce pigra moles . . . confusa lux alta caligine, et inter- 
ceptus tenebris dies . . . nuUa aut ignota sidera». Séneca, 
Lib. Snasor, pag. 2, ed. Beckmann. 



VASCO DA GAMA I I T 

sia geographica, dominada pelas fabulas ardilo- 
sas dos navegadores carthaginezes, não ha se- 
quer uma bafagem, que aos baixeis possa servir 
de propulsor no vasto Oceano, envolto perpe- 
tuamente no seu véu caliginoso ' , o próprio 
Tácito, o grave e austero historiador, que, se 
foi um profundo conhecedor do humano cora- 
ção e da romana sociedade, obedeceu na inter- 
pretação da natureza aos erros e preconceitos 
do século, em que viveu. 

Não é porém justo contestar á antiguidade 
que muitas verdades geographicas, de envolta 
com erros lastimáveis e fabulas infantis, estão 
compendiadas no que ella nos legou nas obras 
dos seus mais notáveis escriptores. Dos des- 
cobrimentos geographicos dos phenicios não res- 
tou outra memoria senão o que d''elles apren- 
deram e trasladaram os hellenos, que com essa 
nação navegadora se acharam desde tempos mui 



I «(Desint quod alto flabra propellentia 
NuUusque puppim spiritus coeli juvet 
Dehínc quod ethram quodam amictu vestiat 
Caligo, semper nebula condat gurgitem, 
Kx crassiore nubilum perstet die.» 

Fcst. Avieii,, Ora marítima, vers. 385-í 



I I 2 VARÕES ILLUSTRES 

remotos em frequente communicação. D'elles re- 
ceberam os gregos a divisão da terra conhecida 
em três grandes regiões, Europa, Ásia e Libya^ 
O seu extenso trato mercantil, exercitado por 
caravanas em caminhos terrestres até mui longe 
em terras orientaes, e as suas extensas navega- 
ções no Mediterrâneo e no Mar Erythrêo ou In- 
do-arabigo, davam-lhes occasião a que fossem 
desde tempos mui antigos as suas noticias geo- 
graphicas mais copiosas e exactas que as dos 
povos seus contemporâneos-. Se náo foi verda- 
deiro o périplo de Hannon, e se os carthagine- 
zes não chegaram, como pretendem alguns mo- 
dernos, até o Gabo Verde ou ao Cabo das Pal- 
mas'^, é todavia indubitável que foram de todos 
os antigos navegadores os que mais se aventura- 
ram no Oceano. Similhantes aos portuguezes nos 
primeiros tempos dos seus descobrimentos africa- 
nos, os carthaginezes, no seu empenho de mo- 



1 Ritter, Gesch. der Erdk. imd der Entdeck., pag. i6. 

2 Ritter, Gesch. der Erdk.und der Entdeck., pag. 17-18. 

3 «Am wahrscheinlichsten ist die Fahrt wenigstens 
bis zu dem weit vorspringenden Cap Verde der spatern 
Zeit vorgedrungen, vielleicht bis zum Cap Palmas.» Rit- 
er, Gesch. der Erdk. und der Entdeck., pag. 23. 



VASCO DA GAMA I I D 



nopolisar a navegação, escondiam, quanto pos- 
sível, aos demais povos as derrotas, que seguiam 
no Atlântico'. D'elles, porém, quando os sub- 
metteram, herdando com suas victorias o senho- 
rio dos mares, derivaram os romanos a respeito 
da geographia muitos conhecimentos que appa- 
recem consignados nos seus mais illustres escri- 
ptores^. 

Taes eram, brevemente summariadas, asidéas 
que acerca da Africa vogavam entre os antigos. 
Ou eram erros manifestos nos geographos, que 
mais distavam da verdade, ou noções incomple- 
tas e confusas n''aquelles, que, de mais perspi- 
cuo e subtil entendimento, suppriam com a de- 
ducção o conhecimento experimental e mais se 
empenhavam por acercar-se á natureza. 



1 Strabo, liv. xvii, cap. i, n.° 19, pag. 681. — Ritter, Gesch» 
der Erdk., und der Entdeck.j pag. 3o. 

2 Ritter, Gesch. der Erdk., und der Entdeck.j pag. 23. 



CAPITULO IX 



A GEOGRAPHIA DA EDADE MEDIA 



O conhecimento das leis fundamen- 
taes da natureza nas regiões conhecidas 
limitou-se . . , á repetição das concepções 
da antiguidade, preferindo-se com fre- 
quência as mais erróneas. 

Peschel, Hist. da geogr., pag. gS. 



Depois que deixou de luzir a civilisação hel- 
lenica e a romana, que a herdou e usufruiu, sem 
comtudo a melhorar e enriquecer pelo que toca 
á sciencia e geographia, seguiu-se a edade mé- 
dia, que não foi de todo o ponto escura e tene- 
brosa, como d^antes se presumia, e onde, muito 
ao revez, ainda havia diífundidos uns clarões, 
como de sol, que no occaso se escondia. Os pri- 
meiros séculos dVquella edade foram, de feito, 
á similhança de um crepúsculo da tarde após 
um dia, em que o astro principal brilhara com 
toda a pompa e luzimento. Descortinava-se ao 



1 ib VARÕES ILLUSTRES 

longe, a perder-se como que em remotos ho- 
rizontes, a esplendida, mas incompleta civili- 
sação da antiguidade. Seguiram-se depois al- 
guns' séculos de mais escassa luz, como se um 
longo eclipse offuscára, sem de todo entene- 
brecer o firmamento. Mas no século xii prin- 
cipiam as sombras a dissipar-se. O xiii é já 
um século de luz e claridade. Recomeçam a 
distinguir-se melhor delineadas, mais visíveis 
as feições da antiguidade. Já ha sábios, eru- 
ditos, pensadores, que desentranham e inter- 
rogam • os thesouros da intelligencia, escondi- 
dos na crypta centenária das clássicas edades. 
A geographia e as sciencias cosmographicas, 
segundo nol-as havia legado o génio dos anti- 
gos, encontram nos espíritos selectos devotadís- 
simos cultores, que todavia a seu talante as 
interpretam e commentam, fazendo retrogradar 
os conhecimentos geographicos para alem dos 
tempos, em que haviam ensinado os Plinios 
e Ptolemeus, os Strabos e Pomponios. Os es- 
criptores, que floresceram desde o v ao ix sé- 
culo, e entre elles Macrobio, o hespanhol Paulo 
Orosio, Cosmas, appellidado o Egjycio ou In- 
dicopleustas, o encyclopedico Isidoro de Sevi- 
lha, — o Humboldt do vii século, — Marciano Ga- 



VASCO. D A GAMA 1 l"] 



pella, o venerável Beda, o anonymo de Raven- 
na, Francon o Scolastico, Adelbold, de Utrecht, 
e os geographos árabes Masudi e Ibn Haukal, 
todos ignoraram a forma do continente africano 
c o seu prolongamento alem do equador, e des- 
conheceram inteiramente as regiões, que se dila- 
tam para o sul desde a Ethiopia oriental. Ensi- 
navam com muitos dos antigos que era inhabi- 
tavel ou despovoada a zona tórrida, ou haviam 
por demonstrado que era impossível navegar no 
Oceano alem dos términos impostos pelas co- 
lumnas de Hercules, ou finalmente apenas pos- 
suíam noç5es incompletas e indecisas acerca das 
costas da Africa, banhadas ao occidente pelo 
Atlântico ^ . 

A partir do século xii principia a operar-se 
nos espíritos aquella saudável revolução, que se 
manifesta já poderosa no xin século e que chega 
á sua maturidade nos dois séculos seguintes. 
Apparecem na christandade alguns d'estes en- 
genhos eminentes, que das summidades intelle- 



I Visconde de Santarém, Recherches sur la découverte 
des pays situes sur la cote occidentale d' Afrique, au dela 
du cap Bojador, Paris, 1842, introd., pag. xxvii-xxxvi. 



Il8 VARÕES ILLUSTRES 

ctuaes, aonde culminam, estão já entrevendo as 
formas do futuro pensamento, assim como o 
viandante, que se altea ás cumieiras das altas 
serranias, alcança, ainda que vagos e longinquos, 
mais amplos e extendidos horizontes do que os 
homens, que estanceam na fundura dos valles e 
das quebradas. Florescem principalmente nas 
Hespanhas alguns árabes, que pelos seus es- 
criptos conquistaram um logar assignalado na 
historia da intelligencia. Mas os erros e as phan- 
tasias geographicas, auctorisadas com o sêllo 
venerando dos antigos escriptores da Grécia e 
Roma, continuam a ter curso e valimento. 

A zona tórrida é ainda considerada inhabita- 
vel. Á edade média, com poucas excepções, ad- 
mittiu com terminante afíirmação esta doutrina 
como verdade absoluta, esquecendo algumas 
antigas opiniões, quê antecipando-se aos futuros 
descobrimentos, a proclamavam compatível com 
a humana habitação ^ O exame de um grande 



I «Die Behauptung von der Unbewohnbarkeit der heis- 
sen Erdgurtel gegen die bereits richtige Erkenntniss des 
Alterthums, mit verscharften W^orten vorgetragen wurde, 
eine Irrlehre, welche bis zum i5. Jahrhundert die Fort- 



VASCO DA GAMA IIQ 



numero ^dos mais auctorisados e famosos mo- 
numentos cartographicos, não deixa a minima 
duvida de que era esta a doutrina professada 
pelos cosmographos antes das navegações e 
descobrimentos portuguezes^ No próprio map- 
pa-mundi de Marino Sanudo de i32o, adjunto á 
sua notável obra Secretiim Jidelhim criicis, o 
qual é porventura de todos os da edade média 
o que menos se distanceia da verdade acerca da 
Africa, apparece logo ao sul das nascentes do 
Nilo a legenda característica aRegio inhabitabilis 
propter calorem'^i>, 

N^este ponto, Honório de Autun, na sua Ima- 
go miindi, Brunetto Latini, um dos homens de 
mais profunda erudição, o mestre celeberrimo 
do Dante, na sua obra intitulada Li livre dou 



schritte der Erdkunde immer wieder auf Abwege fúhrcii 
sollte.M Peschel, Gesch. der Erdk.^ pag. g3. 

1 Vise. de Santarém, Hist^ de la Cosm. et de la Car- 
iogr., II, pag. I. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr.^ III, pag. 202. Veja-se a carta de Sanudo no Atlas do 
viseondc de Santarém, e em Pesehel, Gesck. der Krdk., 
carta gravada appensa á pag. 19 (. 



I20 VARÕES ILI.USTRES 

Tresor, não estão, como n^outros pontos capi- 
tães da geographia africana, mais adiantados que 
os seus predecessores na antiguidade e nos tem- 
pos médios. Os dois grandes luminares do sécu- 
lo XIII, o dominicano allemão Alberto de BoU- 
stadt, cognominado Magno, e superior a elle o 
franciscano inglez Roger Bacon, posto que sem 
despertar echo á sua doutrina, começam a impu- 
gnar a antiga opinião de que as regiões intertro- 
picaes não consentem habitadores. No sentir do 
philosopho germânico eram tidas por habitá- 
veis as margens e as ilhas dos mares intertropi- 
caes^ Roger Bacon, o mais eminente pensa- 
dor da edade média, somente julga por incapaz 
de habitação o hemispherio austral do nosso 
globo^. Dos escriptos d*estes sábios, porém, se 
manifesta que nos conceitos positivos acerca da 
Africa meridional e occidental se não avanta- 



I Alberti Magni. De natura locorwn, lib. i., cap. vi. — 
Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Enídcck.. pa^. 70. 

^ Roger Bacon, Opus majus, Londres, lyjS, foi. 81. — 
Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., pag. 69. 



VASCO DA GAMA 12 1 



javam aos seus predecessores % e ignoravam que 
este vasto continente se prolongava coarctando- 
se para a parte meridional e ia terminar n^um 
cabo situado ao sul do equador. 

O século xiii é o tempo das grandes encyclo- 
pedias, onde os sábios compendiavam tudo 
quanto na Europa era sabido acerca da natureza 
e da humanidade. São conhecidos e apreciados 
como valiosos monumentos, em que se vêem re- 
gistrados todos os conhecimentos n'aquella edade 
estudiosa, o Speculum, de Vicente de Beauvais, 
ou Bellovacense, o livro De rerwn natura, de 
Thomás Cantipratense, discípulo de Alberto Ma- 
gno. A geographia africana não adianta porém 
um único passo pelos trabalhos d''aquelles eru- 
ditos escriptores, que se adstringem a compi- 
lar a sciencia dos antigos em vez de illustrarem 
a sciencia da natureza com os lumes da própria 
investigação. No século xiv o cardeal Pedro d'Ail- 
ly, mais conhecido pelo nome alatinado de Pe- 
trus Alliacus, na sua Imago mimdi, apesar do 



I Vise. de Santarém, Recherchcs sur la dccourertc, 
etc, introd., pag. l i.iii c i.v-i,vi. 



Í2!2 VARÕES ILLUSTRES 

cognome que lhe deram os seus contemporâ- 
neos, appellidando-o a águia dos doutores, 
ainda suppunha que a região ao sul do monte 
Atlas era inhabitavel por causa do extremo ar- 
dor ^ 

Seguindo uma doutrina absurda auctorisada 
pelo philosopho Séneca, julgava o cardeal em- 
preza fácil e expedita o navegar em poucos dias 
desde a costa occidental da península hispânica 
até ás índias orientaes, porque, em seu parecer, 
apenas mediava entre uma e outra região um 
breve espaço do Atlântico 2. 

Os progressos experimentaes, que vieram de 
algum modo enriquecer durante a edade média 
a geographia, são devidos por uma parte aos 
viajantes europeus, que por terra peregrinaram 
até paragens remotas do Oriente, e por outra 
parte aos geographos musulmanos^ entre os 
quaes tiveram logar distincto os árabes da Hes- 
panha. 



1 Vise. de Santarém, Rccherchcs sur lá decouverte, 
etc, pag. 107. 

2 Vise. de Santarém, Recherches sur la decouverte, 
etc, pag. 289. 



VASCO DA GAMA 123 



O grande numero de viajantes, que ou envia- 
dos em embaixada a potentados orientaes, ou 
apenas estimulados da própria curiosidade, ha- 
viam visitado e percorrido a Ásia, alguns d''el- 
les até os últimos confins, attestam que desejos 
fervorosos de aventuras e de viagens para alem 
dos estreitos limites europeus, incitavam a chris- 
tandade nos tempos que decorrem desde princi- 
pios do XIII até ao xv século. Toda esta corrente 
se dirigia em terrestres peregrinações á Ásia 
oriental. Com ellas se accrescentava e corrigia 
n'alguns pontos a geographia asiática. Os fru- 
ctos, porém, que a sciencia e os monumentos 
cartographicos podiam colher d''estas viagens 
durante a edade média, eram na máxima parte 
desaproveitados. Os cartographos, pela difi- 
culdade do commercio litterario e scientiíico, 
ou ignoravam os descobrimentos consignados 
nas relações dos viajantes, ou, conhecendo-os, 
os desdenhavam por fabulosos e continuavam a 
ater-se com religiosa observância e idolatria ás 
idéas geographicas da veneranda antiguidade, 
como se Marco Polo, ou Odorico de Perdonone, 
que viram com seus olhos a verdadeira China, 
merecessem menos fé que Ptoíemeu, que ape- 
nas rastreara vagamente os seres e os sinas do 



124 VARÕES ILLUSTRES 

ultimo Orientei A crença fanática, cega, obsti- 
nada no geographo alexandrino continuou a do- 
minar os espíritos por toda a edade média e ainda 
alem da sua terminação^. Mas os grandes pro- 
blemas, que a antiguidade havia posto e dei- 
xado sem plausível solução acerca da Africa, 
da communicaçáo dos dois mares Indico e Oc- 
cidental, e da verdadeira forma da península 
africana, em nada haviam adiantado com as 
longas e penosas deambulações de Marco 
Polo, de Gonti, ou Mandeville. A geographia 
da Libya continuava a ter por fontes princi- 
paes os textos dos geographos antigos, a con- 
jectura ou a phantasia dos sábios e dos car- 
tographos. A sciencia do globo terrestre, exce- 
ptuada a Europa, uma parte da Ásia, e as re- 
giões africanas septentrionaes, era um. ponto de 
interrogação, a que ninguém podéra substituir 
uma doutrina exacta e verdadeira. 



I Vise. de Santarém, Hist. de la Cosin. ei de la Car- 
togr., III, introd., pag. xiii. Ibid., ii, pag. ui. 

■-i Peschcl, Geseh. der Erdk., pag. 23. Segundo o illus- 
tre geographo allemáo, ainda em 1822 Mannert affirmava 
que o lago Tsad devia ter-se formado modernamente, 
porque não apparecia notado em Ptolemcu. 



VASCO DA (íAMA 12D 

Se OS escriptores e viajantes até princípios do 
século XIV nada tinham illuminado a geographia 
pelo que respeita á peninsula africana, os carto- 
graphos mais illustres da edade média a deixaram 
egualmente ignorada ou obscura. Â mais notável 
das cartas desenhadas durante aquelles tempos é 
a de i320, de Marino Sanuto, ou Sanudo, como 
pretendem que se escreva correctamente o nome 
do celebre veneziano ^ Adoptou este cartogra- 
pho a opinião de que os dois mares Indico e 
Atlântico tinham entre si communicação, e n''este 
presupposto apparece no mappa-mundi a Africa 
já circumdada pelo mar, sem comtudo apresen- 
tar a sua figura verdadeira, mas só delineada 
segundo as noções incorrectas dos antigos e dos 
árabes-. A forma do continente, ainda na má- 
xima parte desconhecido, não tem n''este planis- 
pherio outra similhança com a sua verdadeira 
configuração senão a de constituir uma penínsu- 
la, limitada pelo Atlântico e o mar das índias. 
Em vez de uma ponta situada ao meio-dia, 



• Vivien de Saint-Martin, Hist. de la s^éogr., pag. 291. 
^ "Aus arabischen Karten hat Sanuto scin Bild von 
Africa entlehnt.»* Peschcl, Gesch. der Erdk.. pat;. 192. 



1 20 VARÕES tLLtJStRES 

muito alem do equador, o litoral da Africa, se- 
gundo o cosmographo veneziano, vae-se encur- 
vando para o Oriente até que, acercando-se ás 
regiões, que elle chama índia magna e Jinis 
Indiae, transforma o oceano Oriental ou Indico 
n^um mar mediterrâneo ^ A forma errónea e pu- 
ramente conjectural, attribuida á península afri- 
cana por Marino Sanudo, reproduz-se nas car- 
tas subsequentes durante o xv século, na de 
Andrea Bianco, de 1436, e no próprio globo 
de Nuremberg, construído pelo celebre cosmo- 
grapho Martim Behaim, ou de Bohemia, como 
nossos chronistas o appellidaram^. As cartas da 
edade média, ainda mesmo as do xv século, 
persistem tenacíssimas em attribuir á Africa a 
figura, que os antigos lhe assignaram. Em to- 
das, logo á saída do estreito de Gibraltar, a 
costa africana vae discorrendo para leste n^uma 
linha, senão recta, pelo menos de mui escassa 
curvatura, e em muitos casos se prolonga na 
mesma direcção até um meridiano, que passa 
pela índia. Em nenhum monumento cartogra- 



1 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 192. — Vise. de Santa- 
rém, Hist. de la Cosm. et de la Cartogr., iii, pag. 209. 

2 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 192. 



VASCO bA òâmA 127 



phico a península africana se projecta alem do 
decimo grau de latitude meridional . A região 
correspondente á costa de Guiné é ainda n''estas 
cartas injustamente condemnada como «região 
inhabitavel por causa do calor-». Em outros 
monumentos cartographicos de mais antiga data, 
se manifesta ser acceita a seus auctores a mesma 
opinião de que a Africa não avançava para o 
sul, indo terminar em promontório. No celebra- 
do mappa-mundi do xiii século, na cathedral 
de Hereford, apparece figurada a costa de Afri- 
ca de maneira que, a partir das columnas de 
Hercules ou do estreito de Gibraltar, se vae 
inclinando mais e mais para o oriente, até ir 
entestar com o Mar Vermelho. Todo o negro 
continente, na concepção errónea do cartogra- 
pho, está comprehendido no hemispherio bo- 
real, áquem do equador^. Ainda em vários 
monumentos cartographicos do xv século, se 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de Ia Car- 
logr., 111, introd., pag. l-li. 

2 Vise. de Santarém, Recherches siir la dècouverte, 
cte., pag. 90. 

^ Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de /j ('.v- 



128 VAKÒíiS ILLUSTRES 



nos depara a mais completa ignorância acerca 
da figura verdadeira da península africana. Os 
cartographos continuam a jurar nos dictames 
da antiguidade, havidos por irrecusáveis e sa- 
grados. Assim no mappa do museu Borgia, a 
Africa, a partir do estreito de Gibraltar, vae 
rapidamente inclinando para leste, obedecendo 
á hypothese gratuita dos geographos greco-ro- 
manos^ Na carta dos irmãos Pizzigani, na ce- 
lebrada carta catalã de iSyò^, na das Chroni- 
cas de S. Dinii, de iSôy, desenhada em tempos 
do rei de França Carlos V, o sábio, na dePinelli, 
pelos fins do século xiv, em todas o litoral afri- 
cano é apenas traçado como indicando que so- 
mente conheciam seus auctores a costa situada 
até ao cabo Bojador^. Egualmente ignorantes do 
que decorre alem doeste famoso promontório, se 
mostram os monumentos cartographicos do se- 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 287. 

2 Vise. de Santarém, Recherches sur la découverte, 
etc, pag. 92-93. — Vivien de Saint-Martin, Hist. de la 
géogr., pag. 291. 

3 Vise. de Santarém, Recherches sur la dccintvertc, 
etc., pag. 91-96. 



VASCO DA GAMA I29 



culo XV, anteriores aos immortaes descobrimen- 
tos portugaezes. Taes são o mappa-mundi no 
manuscripto de Pomponio Mela, da bibliotheca 
de Rheims, de 1417, a carta de 1424, da livra- 
ria de Weimar, e varias outras % que pelo seu 
discreto silencio a respeito da geographia afri- 
cana, estão como que tacitamente declarando 
que o primeiro descobridor dos mais recôndi- 
tos segredos geographicos em relação ás terras 
africanas foi o pequeno, mas heróico Portugal. 



I Vise. de Santarcm, Recherches siir la décoiiverte, 
ctc, pag. 96-98. 



CAPITULO X 



A GEOGRAPHIA DOS ÁRABES 



Na epocha florescente do império 
dos khalifas a sciencia geographica dos 
árabes abrange todo o antigo mundo. 

RiTTER, Hist. da geogí-, e dos des- 
cobr., pag. i63. 



Durante a edade média a Europa christá de- 
veu o conhecimento de muitos dos antigos es- 
criptores e as noticias, com que no tocante á geo- 
graphia as additou e corrigiu, á luminosa cultura 
intellectual dos árabes, principalmente aos das 
Hespanhas. «Nenhum povo (no dizer do geogra- 
pho allemão Peschel) esteve nunca mais que os 
árabes em condição favorável e propicia á in- 
vestigação e conhecimento do antigo mundo. Ex- 
tendiam a sua dominação desde as Hespanhas 
ate o Indo e a Syr Darja; desde o Cáucaso ás 
terras africanas habitadas pelos negros. Sempre 
as guerras e conquistas promoveram a geogra- 



l32 VARÕES ILLIJSTRES 

phia. . . o idioma do alcorão, como o latim da lin- 
guagem ecclesiastica, facilitava a qualquer árabe 
o accesso a todos os paizes, onde o Islam... 
florescia. Nos árabes se nos deparam os maio- 
res viajantes, que em qualquer tempo hajam 
percorrido o globo em terrestres peregrinações, 
e entre elles o viajante Ben Batuta, que só á 
sua parte andou maior espaço que o das ex- 
cursões de Barth e Marco Polo, tomadas junta- 
mente ' » . 

Varias circumstancias contribuíam etficazmen- 
te para que os árabes, mais do que nenhum ou- 
tro povo conquistador, ampliassem e enriqueces- 
sem a geographia, inscrevendo nos seus quadros 
muitas e apartadas regiões, ignotas aos antigos 
ou por elles apenas suspeitadas. Nenhum povo 
dominador levou a maior grau de fanatismo o 
furor religioso e o desejo impaciente de con- 
verter á sua lei todas as gentes do universo. 
A espada é nas mãos dos muslimcs o terrível 
instrumento de uma fé intolerante e exclusi- 



i Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 'j4-y3. — Cf. Cari 
Ritter, GcscJt. der ErdJ:. imd der Entdeck.. pag. ly*). 



VASCO DA GAMA 100 



va. Nos tempos de mais viçosa florescência do 
império musulmano, o dominio e a sciencia 
geographica dos árabes comprehendia todo o 
mundo antigo, desde a China, no ultimo Oriente, 
passando pela Ásia, até os extremos confins da 
Europa occidental, nas terras lusitanicas, e toda 
a Africa septentrional até o rio Niger^ Os mu- 
sulmanos, a quem injustamente apodava a chris- 
tandade por incultos, quasi bárbaros, foram na 
edade média, em grande parte, os mestres dos 
grandes sábios europeus. Foram elles, que in- 
terpostos, por assim dizer, á antiguidade e aos 
tempos medievos, serviram de canal, por onde a 
antiga sciencia fluiu e se espalhou entre os chris- 
tãos do Occidente. As grandes cidades, onde se 
manifestava mais brilhante a vida musulmana, 
eram focos, d'onde brotava a jorros a luz da 
sciencia e litteratura. Bagdad, a corte dos kha- 
lifas, reproduzia sob um novo aspecto a fe- 
cunda civilisação, quasi mil annos antes concen- 
trada na pensadora Alexandria. Shiraz, na Pér- 
sia, Bassrah, Kufa, Damasco, seguindo os exem- 
plos, que lhes estava ministrando a metrópole 



Rittcr, Gesdi. der Erdk. imd der Entdeck., pag. lõj. 

12 



l34 VARÕES ILLUSTRES 

do khalifado, abriam as suas escolas á curiosi- 
dade e ao saber dos crentes no alcorão ^ A obra 
clássica e oracular da astronomia, a Sfntaxis 
mégalè, de Ptolemeu, ou át Batolema, na recen- 
são arábiga 2, foi por elles traduzida e divulgada 
sob o nome de Almagesto. A Geograpliia, do 
mesmo sábio alexandrmo, appareceu também na 
versão árabe. A erudição e o saber dos sectários 
de Mahomet diffundiu-se pela Europa a favor da 
conquista musulmana das Hespanhas, que veiu 
a ser como que um élo fecundo e necessário na 
historia da civilisação occidental. Eram celebra- 
das na edade média, sob a dynastia dos Ommia- 
das, as escolas de Córdova e de Sevilha. «Quando 
no resto da Europa (diz o illustre escriptor alle- 
mão Schacki, auctor da obra intitulada Poesia e 
arte dos árabes na Hespanha e na Sicília) nas 
trevas da mais profunda ignorância, apenas as- 
somava a primeira claridade da sciencia, na 
Hespanha se aprendia, e ensinava, e inquiria 
zelosamente em toda a parte». Muitos dos 
ehristãos, que anhelavam por instruir-se, acu- 
diam áquellas metrópoles do saber e iam pela 



i Ritter, Gesch. der Erdk. iind der Enideck., pdy. 104. 
2 Ritter, Gesch. der Erdk, iind der Entdeck.j pag 180. 



VASCO DA GAMA l35 



Europa reflectir a luz, que estavam chispeando 
as escolas musulmanas. Não admira pois que 
fossem entáo árabes e muitos d^elles árabes 
hispânicos 'ósgeographos de mais illustre no- 
meada. Entre todos sem emulo tem Edrisi no 
XII século o principado. São ainda hoje memo- 
rados os nomes e apreciados os escriptos de 
muitos outros illustres mahometanos. Os mais 
notáveis e importantes livros acerca da geo- 
graphia durante a edade média íáãó' escriptos 
em lingua arábiga e têem por seus auctores a 
muitos sábios, cuja fama transcendeu os limites 
do mundo musulmano^ 

Em princípios do século x, figura como apre- 
ciável escriptor de assumptos geographicos, o 
persa Al-Istakhari, No meado d'aquelle sécu- 
lo apparece Masudi, cuja grande obra enciclo- 
pédica, sob o titulo de Prados de oiro e minas 
de pedras preciosas, Gari Ritter compara na 
extensão e na copia de noticias á Historia naiu- 
ral de Plínio entre os romanos-. 



I Ritter, Gcsch. der Erdk. imd der Entdeck., pag. 179. 
3 Ritter, Gesch. der Erdk. iind der Entdeck., pag. 179. 



l36 VARÕES ILLUSTRES 

No XI século tem a geographia por seus prin- 
cipaes representantes entre os árabes a Bekri 
e Abiruni. No século x-ií lAbujAbdallah-Mahom- 
med Ibn Mohammed, natural de Ceuta, conhe- 
cido geralmente pelo nome unívoco de Edrisi, e 
também citado muitas vezes como o geogra- 
pJio nubiensCy eclipsa a fama dos seus anteces- 
sores e contemporâneos. 

A sua obra Noihat el Moschtac, ou na ver- 
são latina, Oblectamenttim Cupidi, é preciosa 
por suas noticias verdadeiras, entretecidas de 
lendas maravilhosas e de fabulas pueris. 

No século XIII resplandecem como de geogra- 
phos notáveis os nomes de Kazwini^ de lakut-, 
de Ibn Al Wardi, e entre todos os seus contem- 
porâneos alcança a primazia o celebrado Abulfeda 
da raça principesca dos Eyubidas, e soberano 
de Hamah, na Syria-\ Abulfeda é a contar de 



1 A sua obra com o titulo de Cosmographia appareceu 
vertida em allemão, KaswinVs Kosmographie nach der 
WustenfeWschen Textausgabe, por H. Ethe, Leipzig, 1869. 

2 lakufs geographisches Worterbuch, herausgegeben 
von F. Wustenfeld, Leipzig, 1866 (Diccionario geogr. de 
lakut, publicado por Wustenfeld). 

? Ritter, Gesch. der Erdk. imd der Kntdeck., pag. 184. 



VASCO DA GAMA 1 O 7 



Edrisi, como elle também de stirpe regia, o se- 
gundo entre os grandes geographos arábigos. A 
sua notável obra geographica, Tj^í^m alBoldan, 
que na versão latina tem o titulo de Líber ca- 
nonis terrarum\ é uma das que mais tem 
modernamente exercitado o acume litterario 
dos historiadores da geographia arábiga duran- 
te a edade média 2. Se estes geographos porém 
coUigiram e estudaram o que os escriptores da 
antiguidade haviam enunciado e serviram a di- 
vulgal-o pela Europa, todavia são escassos os 
progressos, que na parte relativa á Africa cen- 
tral e Occidental, e ás navegações no Atlântico 
lhes deveu a geographia experimental e scienti- 
fica^. O termo das mais ousadas navegações 
dos árabes ao longo da costa occidental de 
Africa, no tempo de Edrisi (xii século) era si- 
tuado a quatro dias de viagem alem de Saíi no 



1 Liber canonis terrarum, aiicto rerege forti príncipe 
Hamah, versão de Reiske. 

2 Ê havida como clássica a versão franceza da geogra- 
phia de Abulféda de Reinaud, com a magnifica e eru- 
dita introducçáo, em que se exphmam muitos pontos da 
geographia entre os árabes. Paris, i838. 

3 Vivien de Saint-Martin, HLst. de la i^éoí^r., pag. 
•261-263. 



l38 VAr6eS iLLtJSTRES 



litoral 'dó império marroquino ^ Nos tempos, 
em que Ibn Khaldun escreveu (1377 da nossa 
chronologia) as viagens mais extensas dos mus- 
limes ao longo das costas africanas occidentaes 
ficavam sempre áquem do cabo Náo^. Para 
Edrisi-''ô >^r tenebroso é aquelle alem do qual 
ninguém sabe ainda o que existe^. Um hemis- 
pherio inteiro do nosso planeta está envolto 
pelas aguas4. O Oceano ao occidente e ao melo- 
dia é, no dizer de Edrisi, innavegavel pelas 
trevas profundas, que o escurecem, pela gran- 
de elevação das suas vagas, tão altas como ser- 
ranias, pela fúria dos ventos, pela frequência 
das borrascas, pela multidão dos monstros ma- 



t J. J. da Costa Macedo, Memoria em que se pretende 
provar que os árabes não conheceram as Canárias antes 
dos portugueses, nas Mem. da acad. real das sciencias, 
nova serie, tom. 11, part. 11, pag. 87. — Peschel, Gesch. der 
Erdk., pag. 11 8- 119. 

2 Vise. de Santarém, Recherches sur la découverte, 
ctc, pag. 102. — Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., 
pag. 41. 

3 Vise. de Santarém, Recherches sur la découverte, 
etc., pag. 99. 

4 Vise. de Santarém, Recherches sur la découverte, 
etc., introd., pag. xxxviii-xxxix. 



VASCO DA GAMA 1 3g 



^inos^ O que os árabes e os seus geographos 
conhecem da Africa é principalmente as regiões 
interiores pelas jornadas e excursões, a que em 
suas caravanas se aventuravam partindo da 
Barbaria. Já nos fins do século xii da era chris- 
tã o islamismo era a crença dominante no 
Bornu, e em princípios do século xiii estendia 
as suas conquistas até ao grande reino de Melli, 
no alto Niger^. A religião mahometana chegava 
no mesmo século até o Darfur e o Uadai^. Os 
árabes atravessando desde Marrocos o interior 
da Africa até o Sudan chegavam a Taghaza e 
encontravam em Walata a primeira grande po- 
voação dos negros 4. 

Ao árabe Masudi, no século x, eram desco- 
nhecidas as regiões banhadas pelo Atlântico nas 
próprias cercanias do estreito de Gibraltar 5. 



1 Vise. de Santarém, Rechefches sur la découvertej 
ctc, introd., pag. xl. — Edrisi., trad. de Jaubert, pag. 2. 

2 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. ii3. — Barth, Nord- 
iind Centralafrika, 11, pag. 809, iv, pag. 417, 60 3 e 609. 

3 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 114. 

4 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 1 15. 

5 Macedo, Memoria em que se pretende provar^ etc. 
pag. 74-75. 



14o VARÕES ILLUSTRES 



Alem doeste limite, nõ conceito do geographo 
arábigo, ninguém pôde navegar. É interdicta 
aos mareantes a passagem desde o mar Medi- 
terrâneo ao Atlântico, até onde não constava 
que um só baixel houvesse ainda cursado. O 
Oceano c, na phrase de Masudi, o mar da es- 
curidão, também chamado por outros nomes o 
mar circumdante e o mar verdeK A noção admit- 
tida por Ibn-Al-Wardi é expressa n'estas pala- 
vras: «Pelo que pertence á terra occidental, a 
sua parte exterior é banhada pelo Oceano ou 
mar muito tenebroso, em que ninguém mais 
navega, nem se conhece o que alem d^elle ha^». 
Segundo Ibn Khaldun, o Atlântico tornava-se 
intractavel aos navegantes pelos perigos teme- 
rosos, que oíferecia, e pelos vapores, que se le- 
vantavam continuamente acim i das suas aguas ■^. 

' Historical Encyclopívdia entitlcd Mcadows ofGold and 
Mines o/íjfejns, translated from the arabic by Aloys Sprcn- 
f^er, cit. em Macedo, Mem. em que se pretende provar, etc, 
nas Mejn. da Acad. real das sciencias de Lisboa, tom. i, 
part. II, pag. yS. 

2 Macedo, Memoria em que se pretende provar, eic, 
nas Mem. da Acad. real das sciencias de Lisboa. 

-' Pcschel, Gesch. desZcitalí. der Entdeck., pag. 41-42.— 
Reinaud, Aboulfèda^ i, paj;. 265. 



VASCO DA GAMA I41 



O antigo erro, professado por Aristóteles, e 
canonisado por Ptolemeu, de que era inhabita- 
vel a zona tórrida, encontra nos geographos ará- 
bigos durante a edade média devotados seguido- 
res. Edrisi, apesar de conhecer as estações ma- 
ritimas dos árabes na costa oriental de Africa, 
a 20° de latitude meridional, consagra tão faná- 
tica veneração ao grande mestre alexandrino, que 
declara com elle inhabitaveis as regiões intertro- 
picaes^ 

As cartas geographicas dos árabes, seguindo 
o erro de Hipparcho, transmittido por Ptole- 
meu, desfiguram o continente da Africa, en- 
curvando de tal modo para o oriente a ponta 
meridional, que o cabo da Boa Esperança vem 
a formar um estreito com a peninsula de Mala- 
ca 2. A carta de Edrisi é uma cabal demonstra- 
ção de que os cartographos arábigos não faziam 
clara idéa da forma do continente africano, nem 
suspeitavam a verdadeira situação do seu ex- 
tremo austral^ 



I Edrisi, irad. Jaubert, i, pag. 2. — Peschel, Gesclu 
des Zeitalt. der EntdecU., pag. 69. 

- Peschel, Gesch. der Zeitalt. der Entdeck., pag. 75. 
■^ Peschel, Gesch. der\Erdk.. pag. t32-i33. 



143 VARÕES IIJ-USTRES 

Nos geographos arábigos até o xiv século 
nada podia pois deparar-se de proveitoso a quem 
desejasse conhecer as terras, que demoravam no 
litoral africano alem das columnas de Hercules, 
desde tempos antigos reputadas como término 
impreterível das mais audazes navegações. 

Sobre qual fosse a influencia dos geographos 
arábigos na cosmographia e nos trabalhos dos 
cartographos christãos na edade média, são 
vários os pareceres entre os modernos historia- 
dores da geographia. Alguns, e entre elles um 
portuguez eruditíssimo, assentam que é somente 
pelos fins do xiv século que nos monumentos 
cartographicos começa a revelar-se o influxo dos 
geographos musulmanos, principalmente no que 
respeita aos logares e aos nomes africanos e 
que nos tempos antecedentes fora insensível ou 
apenas manifestado por vestigios duvidosos ^ 



1 «A partir de la íin du xiv siècle se fait sentir déjà 
rinfluence positive des géographes árabes sur les carto- 
graphes occidentaux. Avant cette époque, cette influence 
était nulle et s'il s'en reconnait quelque faible índice, 
c'est une trace encore fort incertaine . . . Mais Tinfluence 
árabe se manifeste plus que partout ailleurs dans les le- 
gendes et'dans les noms de TAfrique.» Vise. de Santarém, 



VASCO DA GAMA I40 

Contraria opinião é professada pelo geographo 
aliemáo Oscar Peschel, segundo o qual durante 
a edade média náo somente as cartas manifes- 
tam um progresso na sciencia, senão também 
a eftectiva inspiração dos geographos arábi- 
gos '. 

'rfqBT^omgO 



Hist. de la Cosm. et de la Cartogr., iir, introd., pag. xvi- 
XVII. Ibid., xxiv. ' "" ■' 

I «Entdecken wir auf den gleichzeitigen Landkarten 
erwciterte Kenntnisse, aber auch deutlich den Einfluss 
der arabischen Vorstellungen.» Peschel, Gesch. der Erdk., 
pag. 169. O geographo allemão na Historia da epocha dos 
descobrimentos, publicada em i858, sete annos antes de ap- 
parecer á luz a sua Historia da geographia, professava 
contraria opinião, suppondo que nenhum indicio se des- 
cobre de que os sábios latinos, oti christãos do Occidente, 
aproveitassem as obras geographícas e os diários de notá- 
veis viajantes musulmanos. «Nirgends aberíindet sich, dass 
die lateinischen Gelehrten die wichtigen geographischen 
Werke der Araber odcr die Journale ihrer grossen Rei- 
senden benutzte hattcn.'> Peschel, Gesch, des Zeitalt. der 
Entdeck., pag. 121. 



CAPITULO XI 

AS LENDAS GEOGRAPHICAS DA EDADE MEDIA 

Les cartograplies de la fin mêmc 
diimoyen âge maintieiínent dans leurs 
cartes les fables de leurs devanciers. 

Vise. DE Samarem, Hist. de la 
(losm.etdc la Cartop:, m, pag. x\i. 

Na cartographia da edade média estão repre- 
sentadas n''um syncretismo singular as noções 
dos antigos mal interpretados e entendidos, os 
elementos geographicos da Biblia e dos santos 
padres e doutores'. Para completar a confu- 
sa e phantastica figuração do orbe terrestre 
conspiram todos os m3^thos e lendas geographi- 
cas, as quaes inspiradas pela mystica imagina- 
ção constituíam um fundo de crença popular e 
respondiam cabalmente a esta necessidade insa- 



^ Vise. de Santarém, Hisl. da la Cosiii. el de la Car 

togr., II, pag. 7.o5. 

i3 



146 VARÕES ILLUSTRES 

ciavel de maravilhas e prodígios, que especial- 
mente caracterisa aquelles tempos nebulosos. 

A zona tórrida é quasi sempre designada 
como região inhabitavel nos monumentos carto- 
graphicos^ Nos mappas se põe de manifesto 
que os seus debuxadores, em tudo o concernen- 
te á geographia de Africa, haviam quasi todos 
retrocedido aos tempos anteriores aos geogra- 
phos illustres da sabia antiguidade-. As para- 
gens, de que apenas havia obscuras informa- 
ções, por falta de navegadores ou viajantes, que 
as tivessem explorado, appareciam nas cartas 
como regiões povoadas de monstros singula- 
res. No mappa-mundi-^ da bibliotheca de Dijon, 
do século xni, no logar destinado á zona tór- 
rida, está inscripta uma legenda, que alem de 
outras noções extravagantes, coi^sagra a opinião 
de que o mar ali parece estar em ebullição-^. 

1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosni. et de la Car- 
togr.. Paris, i85o, i, introd., pag. xxix. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosni. et de la Cav- 
togr., introd., pag. xxxix-xl. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosni. et de la Car- 
to gr., introd., pag. xliii. 

I «EbuUitiones maris íieri videntur.» Vise. de Santa- 
rém, Hist. de la Cosm. et de la Carto^j^r., 11, 91: 



VASCO DA GAMA 147 



Era o Oceano figurado n^alguns d^aquelles 
monumentos como uma faxa ou cinta, que em 
todo o circuito do equador apartava uma da 
outra as zonas temperadas e as fazia de todo 
o ponto incommunicaveis'. A ignorância das 
faunas peculiares a cada região das que eram 
vagamente suspeitadas ou imperfeitamente co- 
nhecidas, era supprida por um mundo de phan- 
tasticos e fabulosos animaes, de que a antigui- 
dade ou a edade média povoara a sua maravi- 
lhosa e poética zoologia^. Eram os faunos e os 
satyros poetados pelos antigos. Era esta ave 
mysteriosa e admirável, a clássica Phenix, que 
ninguém podéra nunca descortinar, de que po- 
rém se acreditavam firmemente as prodigiosas 
resurreições. Era o basilisco temeroso, cujos 
olhos eram lethaes, quando n'alguem acertava 
de os fitar, e de cujas maravilhas o crendeiro 
Plinio faz memoria na sua vasta encyclopedia^. 
Era a sphynge egypcia tão litteralmente acceita 



1 Vise. de Snntarem, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
tof^r., introd., pag xi.iv. 

2 Vise de Santarém, Hist. de la Cosvi. et de la Car- 
tof^r., II, introd., pag. lvi. 

-^ Plinio, Hist. uat.f liv. xxix, cap. iv, e liv. 11, cap. xxi. 



148 VARÕES ILLUSTRES 



por existente, como o podem agora ser em 
nossos dias os paradoxaes, mas verdadeiros or- 
ganismos da fauna australiana ^ Eram os gry- 
phos, a quem o próprio naturalista romano ta- 
xara de fabulosos 2. 

Antes dos descobrimentos portuguezes a car- 
tographia não somente peccava por ser inexa- 
cta e rude em suas delineações, senão que em 
seus monumentos acolhia e abrigava quantas 
noções absurdas, quantas fabulas risiveis, quan- 
tos mythos maravilhosos legara a antiguidade, 
c a simpleza pueril da edade média admittíra 
como sciencia incontestável. É singular a anthro- 
pologia, segundo nas cartas e mappa-mundis 
medievos se contém. N''alguns d'elles, como 
no mappa-mundi do Polychronicon de Ranul- 
pho Hygden, no museu britannico, figuram 
uns povos hermaphroditas com um seio de 
homem, e outro de mulher, taes como os des- 
crevera a credulidade fácil de Plinio, o na- 
turalista^. Ali se notam em certas regiões uns 



1 Plínio, Hist. nat.^ liv. 11, cap. xxi. 

2 Plinio, Hist. nat., liv. 11, cap. xxx. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
iogr.y III, pag. 25. 



VASCO DA GAMA I49 



homens, que têm em cinco annos a maior du- 
ração da sua vida, outros, a quem a natureza 
por uma ironia extravagante adorna de cans a 
juventude e de cabellos negros a velhice ^ Ali fi- 
guram uns homens extraordinários, que têm 
olhos nos hombros e no pescoço 2. Outros appa- 
recem táo singulares e monstruosos, que têm 
no peito a bocca e a cabeça^. Em outra região 
habitam os homens, a quem privou de lingua a 
natureza 4. Mais alem o cartographo nota com 
escrúpulo as terras onde moram os pygmeus c 
os cyclopes^ e os famosos gymnosophistas, que 
podem contemplar o sol de fito em fito^. Segun- 
do a phantasia do cartographo, as amazonas, 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., iií, pag. 26. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 22. 

-^ Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car' 
togr., III, pag. 42. 

4 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 43. 

5 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 26. 

'^ Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 27. 



1 5o VARÕES* ILLUSTRES 

que fabulou a antiguidade, existiam realmente 
a leste do rio Don ou Tanais dos antigos'. Na 
Albânia figuravam os debuxadores do mappa- 
mundi a uns homens, que vêem o sol durante a 
noite^. Na carta geographica da cathedral de 
Hereford, em Inglaterra, um dos mais celebra- 
dos monumentos cartographicos da edade média, 
assignala-se o logar, aonde habitam uns povos 
sem orelhas, aos quaes o cartographo attribuiu 
o nome de Ambari, e outras gentes de mais sin- 
gular e monstruosa constructura, os Sccnopodes, 
que têm apenas uma perna, e os Monóculos, 
que têm somente um olho, á guisa de cyclo- 
pes^. No mesmo mappa-mundi se deparam os 
Androgynos e Himantopodes'^^ os Blemmyes, 
que por serem desprovidos de cabeça têm a 
bocca situada sobre o peito, ou nos hombros a 



í Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car 
togr., III, pag. 29. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car 
togr., III, pag. 3o. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., II, pag. 393. 

4 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., II, pag. 394. 



VASCO DA GAMA l5l 



bocca e os olhos juntamente ^ Outros povos 
ainda mais teratologicos, os Parvini, se distin- 
guem por terem quatro olhos 2. Uns homens de 
cómica e notável monstruosidade têm os lábios 
de tão larga extensão e mobilidade, que com 
elles se recatam e defendem contra o soP. 

Até o fim da edade média, já quando a 
sciencia principia a desterrar dos domínios da 
natureza as creações da imaginação, se com- 
prazem os cartographos em attribuir um logar 
de honra em suas cartas ás mais desvairadas e 
absurdas phantasias. As sereias mythologicas 
não desamparam ali o seu posto immemorial e 
os homens monstruosos continuam a figurar em 
diversas regiões, mal conhecidas ou ignotas, c 
a dar á anthropologia poética a sancção da sua 
auctoridade4. Os fabulosos povos hyperboreos 
figuram n'algumas cartas, entre outras na de 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., II, pag.SgS. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., II, pag. 3(,5. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., II, pag. 404. 

4 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
iogr.j III, introd., pag. xxi. 



ID2 VARUlíS ILLLSTRKS 

Henrique de Moguncia, do xii século', no mappa 
de Ranulpho Hygden, do xiv século, no mu- 
seu britannico^. No mappa-mundi do museu Bor- 
gia, traçado já no xv século, ainda se consignam 
como verdades geographicas as fabulas e ficções 
que sonhara a antiguidade a respeito dos povos, 
hyperboreos. Dá sua região são habitantes egual- 
mente os gryphos e os tigres^. As gentes her- 
maphroditas constituem um povo especial na 
carta de Ranulpho Hygden^. No mappa do 
museu Borgia apparece figurada na Africa, a' 
região, onde mulheres hirsutas ^e feroci^sima^ 
são fecundas por simples parthenogenesis ou 
sem necessitarem de maridos ^ Os cynocephalos 
ou homens com cabeça de cão, são também 
uma das ficções predilectas dos cartosraphos 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 474. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 54. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 266-267. 

4 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 2 5. 

5 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 294. 



VASCO DA GAMA IDO 



durante a edade media e apparecem habitando 
varias regiões segundo a phaiitasia dós que in- 
ventam e debuxani os monumentos cartographi- 
cos'. Estes homens singulares e fabulosos ainda 
encontram representação no celebrado mappa- 
mundi de Andrea Bianco, de i4362.' 

Às ficções meio religiosas, meio poéticas do 
antigo paganismo, ou do mysticismo çhristão, 
disputavam nos tratados e nos mappàs |;eogrà- 
phicosda edade média um logar de honra as 
noções positivas acerca do nosso globo e com 
ellas conviviam sem que fosse mui fácil distin- 
guir onde terminava o mundo da phantasia 
para começar a terra conhecida por segura e 
indubitaveí inspecção. Eram varias as lendas 
geograpHicas, de que se repastava o espirito 
poético ou religioso dos cartographos christãos 
e dos geographos muslimes ou arábigos durante 
a edade média. 

Era a primeira e mais antiga um reflexo das 
crenças gentílicas, exornada de formosas am- 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la (!ar- 
tof^r., III. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cnstu. et de la dar- 
/o «•;•., III, pag. 3<)l. 



54 VARÕES ILLUSTRES 



plificações pelos poetas gregos e romanos. Era 
a fabula de um Elysmm, de uma terra de inef- 
favel e eterna bemaventurança, onde os justos 
haveriam de receber a palma e galardão da 
vida immaculada. Era aquella região afortuna- 
da, que segundo a descripção consignada na 
Odyssca, está situada nos confins da terra, 
«onde habita o flavo Rhadamanto; onde é fa- 
cillimo aos humanos o viver; onde não ha neve, 
nem chuva, nem inverno duradouro, e onde o 
Oceano sopra as auras suaves respiradas pelos 
zephyros^». A esta ilha dos bemaventurados, 
onde os justos iam receber o premio de terem 
conservado a alma exempta de peccado, se refe- 
riu o grande Utíco Thebano-. «N^ella estão as 
Oceanides espirando as auras suavíssimas, e 
vecejam resplandecendo as áureas flores.» Esta 
deliciosa estancia debuxada nas obras dos poe- 
tas, interpretada ao mesmo tempo na sua accc- 



1 Odyss., liv. IV, vers. 563 e seg. 

2 Pindaro, Olymp., Od. ir, ed. ác 1012, pnq. aS. 

1'vOa, ij.a/.ásHv, 

A-Jpat 7T3v.7TVí'jo'jr)'.v àv- 



VASCO DA GAMA l55 



peão theologica e no seu sentido geographico, 
deu aso a um problema, que todos os eruditos 
c geographos se afadigaram por solver. CoUo- 
cava cada um o Elysio ou a terra da bema- 
venturança, segundo lh'o dictava a imaginação ^ 
Todas as sciencias no seu berço, por uma lei 
indeclinável do espirito humano, se comprazem 
cm abraçar a fabula e a verdade, o natural e 
o maravilhoso, a realidade c a licção. Assim a 
astronomia, já adulta e opulenta, nem com os 
sublimes descobrimentos de João Kepler alcan- 
çou desenlaçar-se da astrologia. Os sonhos dos 
alchimistas ainda no século xviii, século de 
profundo scepticismo e de transcendente espe- 
culação na philosophia e nas sciencias, inva- 
diam os domínios da chimica moderna. Assim 
também as lendas se mesclavam na antigui- 
dade e na edade média aos conhecimentos 
racionaes ou positivos da confusa geographia. 
Fora para os antigos necessária a poética fic- 
ção dos Elysios e das ilhas Afortunadas nas ex- 
tremas fronteiras do mundo conhecido. Aos espi- 
ritos medievos, ainda mais anhelantes de cousas 



» Macedo, Memoria cm que se pretende provar, ctc, 
pag. 38-45. 



lOb VARÕES ILLUSTKHS 



maravilhosas e excedentes á ordem habitual da 
natureza, acudiram, para enriquecer o thesouro 
das suas idéas mysticas na geographia, certas fic- 
ções, que se enlaçavam com a que poderiamos 
appellidar a mythologia christan. Os hagiogra- 
phos occuparam o campo, que devera pertencer 
indiviso aos escriptores da cosmographia. O my- 
tho dos Elysips christianisou-se na idéa geogra- 
phica do paraiso. terreal e das ilhas mysteriosas, 
vinculadas ás lendas dos santos na meia edade. 
O celebrado viajante Mandeville, á volta das 
suas longas excursões, descreve com a pontua- 
lidade escrupulosa de quem a tivesse observa- 
do, a situação do paraiso. Na carta ou mappa- 
mundi ásis Clwojiicas de S. Dinii, vê-se que o 
diligente debuxador, mais sollicito de accrescen- 
tar de novas fabulas a mythologia christan da eda- 
de média, que zeloso de enriquecer de factos cer- 
tos a geographia positiva, situou o paraiso ter- 
real nos extremos confins do mundo, trasladando 
ao monumento cartographico a recente e menti- 
rosa narração do gentilhomem inglez'. Uma carta 
delineada logo após as revelações maravilhosas 



I Vise. de Santarém, Recherchcs sur la dccouvcrtc, etc, 



VASCO DA GAMA lÕy 

do explorador Chnstovao Colombo, que foi ao 
mesmo passo um mystico fervente, um cosmo- 
grapho estudioso, e um aventureiro descobri- 
dor, não desdenha,' jâ' eni^prená ÍRenascença, de 
assignar o preciso logar*, em que ainda existe o 

Éden biblico;"'- "'^ '^'^'"'- " "'"'-q^'"'-; 

AT ' ' ' LJK'm^05 sb asioífiipgs 20j; osiyi 

Mas os canograpnos na eoade media nao at- 

testam unicamente a sua escrupulosa exactidão 
em marcar e definir a posição da terra bem- 
avénturâda . Do miesnío "'modo que os antigos 
assignavam de varias maneiras o logar do Ha- 
des oii inferno gentílico, assim támbeín 'o infer- 
no e o purgatório christão achavam nos mappas 
medievos o seu logar. O famigerado purgató- 
rio de S. Patrício era relegado para os paízes 
boreaes è situado iía ^fslàiiaíàV oncíe o Hecla, 
com ásfeâis érup^çÔés, parecia 'ííeseriípehhar na 
ordem da natureza a funcçã'o, qúe 'na esphera 
espiritual e mystíca pertencia ao fogo eterno'. 
A ilha de Salomão, situada no Atlântico e na 
qual se dizia achar-se o corpo do rei sapientissi- 
mo n\im castello^\íè'"íàDrlc^ írikiràviihos^ 
outra das fabulas acceitas como realidades geo- 



I Vise. de Santarém, Hisi. de la Cosm. et de Ia Car- 

togr., II, introd,^ pag. xxiv. 

14 



58 VARÕES ILLUSTRES 



graphicas por alguns dos cosmographos na edade 
mediai Entre elles egualmente passava como se 
fora de lei e realmente descoberta a ilha de 
S. Br andam, táo celebrada nas tradições d''aquel- 
les tempos e nos monumentos cartographicos 
dos séculos xiv e xv e que ainda apparece fi- 
gurada no globo de Nuremberg, cujo auctor foi o 
celebre Martin Behaim-. 

N^esta ilha singular appareciam como que en- 
feixadas as reminiscências mythologicas da anti- 
guidade, a noção m3^stica do paraiso terreal e a 
lenda hagiographica de um monge irlandez, 
S. Brandam"\ Divagando sete annos de ilha em 
ilha pelo Atlântico, aportara finalmente o san- 
to navegador á terra bemaventurada, que em 
uberdade e em delicias egualava o paraiso ter- 
real. Esta ilha maravilhosa, de que se nos de- 
para breve descripção na Imago mundi, de 
Honório d'Autun, e que figura gravemente 
como authentica região, Confundida com as 



1 Macedo, Memoria cm que se pretende provar, ctc, 

2 Peschel, Gesch, dús Zéitall. der Entdeck., pag. 38. 

3 Macedo, Memoi^ia cm que se pretende provar, ctc, 
pag. 08 e 73. 



VASCO DA GAMA iSq 



ilhas Afortunadas na carta da cathedral de He- 
reford, na dos Pizzigani, de Veneza, de i367, e 
na de Andrca Benincasa, atravessa a edade mé- 
dia como thema predilecto dos cosmographos, 
apesar de que já desde o século xiii a averbara 
de fabulosa e indigna de ser mentada em obra 
grave, o grande cncyclopedico Vicente de Beau- 
vais^ 

Era também admittida pelos cartographos a 
ilha fabulosa das sete cidades, onde segundo a 
tradição, no tempo da invasão de Hespanha 
pelos árabes, se havia refugiado um bispo do 
Porto, levando comsigo grande copia de chris- 
tãos com seus gados e haveres. Esta ilha ap- 
parece ainda figurada no globo de Nurembcrg, 
de Martim Behaim, e na edição de Ptolemeu 
de'i6ò7^ A ilha do Paraiso figura n^alguns dos 
monumentos cartographicos, entre outros no de 
Lam.berto no xii século^. 



1 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., pag. Sy- 
39. — Vincent.' Bellovacensis, Speciihnn historiale, lib. xxi, 
cap. 81. 

2 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdech., pag. 129. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., II, pag. 1 58- 159. 



l6o VARÕES ILLUSTRES 



Nenhumas entre as ilhas fabulosas são porém 
mais singulares do que as chamadas pelo geo- 
grapho Edrisi a ilha dóshomèksesiitiíadas 
mulheres. Suppunha-se "^cáâ^a umií'lí'^éíias habi- 
tada exclusivamente por 'individúos do mesmo 
sexo. Todos os annos porém os homens vinham 
de longe em suas barcas demandar a ilha das 
mulheres, que era como se fora o seu commum 
harém. E passados breves dias, na folgada con- 
vivência das nymphas solitárias, volviam á sua 
pátria a passar o resto do anno em desconsola- 
da e triste separação'. 

Em muitas cartas apparece representado o pa- 
raiso terreal com as figuras de Adão e Eva e a 
serpente incitadora do peccado original-. A po- 
sição do paraiso é comtudo variável. Situavam- 
n^o uns, — e esta era a mais seguida opinião, — 
nos extremos coníins orientaes da terra habita- 



1 Edrisi, trad. de Jaubert, cit. em Macedo, Memoria cm 
que se pretende provar, ctc, pag. 84.— Vise. de Santa- 
rém, Hist. de la Cosm. et de Ia Cartogr. 

2 No mappa-mundi de um commentario do Apocalrpsc 
n'iim manuscripto do museu britannico do xii século. 
Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Carto f^r., 
II, pag. 107, e no mappa-mundi da bibliotheca de Tu- 
rin. 



VASCO DA GAMA 



vel. Terçavam eíri,J[avor doesta doutrina Honó- 
rio d^Autun, Vicente de Beauvais, Roger Bacon, 
e o cardeal Pedro d'Ailly na sua Imago miin- 
dl. A supposição d'estes cosmographos era se- 
guida por grande numero de cartographos, que 
em seus mappas desenhavam o paraiso, com 
tão plena e sincera consciência, como se a si- 
tuação dos seus logares tivera sido determinada 
por inspecção ocular e por meio de processos 
astronómicos ^ O que é por extremo singular é 
que o próprio Christovão Colombo, fanatisado 
pelos delirios geographicos da edade média e 
principalmente pelas doutrina^, 4^. T*edro de 
Ailly, que lhe serviam de fanal, se podesse con- 
vencer ao chegar ao golfo de Paria, que ali pró- 
ximo devia demorar o paraiso terreal-. Tão do- 
minado por erróneas theorias se aventurava a 
seus fortuitos descobrimentos o almirante geno- 
vez. Gollocavam outros a terra bemaventurada 
em regiões geographicamente desconhecidas ou 
figuradas ao sabor e phantasia dos cartogra- 



• Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., pag. 291. 
2 Peschel, Gcsdi. des Zeitalt. der Entdeck., pag. 291. 



l62 VARÕES ILLUSTRES 

phos ^ N^algumas cartas o paraíso é situado 
n'umailha2 fora de toda a terra conhecida. 

Uma das lendas, que mais curso tiveram entre 
os geographos da edade média, foi a das colum- 
nas, que estavam erigidas em vários pontos da 
superfície terrestre e serviam para indicar aos 
navegantes os términos ou limites, alem dos quaes 
lhes interdizia a natureza o navegar/ Eram antes 
de todas celebradas as columnas de Hercules 
ás portas do estreito, que separa do mar inte- 
rior ou Mediterrâneo o mar exterior ou» Atlân- 
tico. Nos planispherios da edade média é fre- 
quente encontrar debuxados estes fabulosos 
monumentos-'. A existência de estatuas colos- 
saes de pedra ou de metal, que em certas ilhas 
do Oceano estavam como que intimando aos 
navegantes a tremenda prohibiçáo de passarem 
adiante, era outra lenda vulgar entre os geo- 
graphos medievos, christãos e musulmanos. 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la (losm. et de la Car^ 
tof^r.j, II, pag i6. 

2 Vise. de Santarém, Hi\st. de la Cosm. et de la Car- 
to fi;}'.^ 11, pag. i83 e i()3. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la (Josni. et de la Car- 
io gr., i\, pag. 5i. 



VASCO DA GAMA l63 



Na ilha de Salomão erguiam-se três d''estas 
mysteriosas esculpturas. Uma estatua amarclia 
extendia uma das mãos, intimando no seu gesto 
ao viajante que retrocedesse no caminho. A se- 
gunda era verde e parecia interrogar os marean- 
tes sobre qual era o ponto, aonde levavam di- 
reita a proa. A terceira era negra e apontando 
para o mar insondável e tenebroso, parecia pro- 
nunciar a sentença capital contra o temerário 
navegador, se persistisse em cursar d'ali avan- 
te ^ Segundo a obra geographica de Edrisi ha 
nas ilhas, que chamam Afortunadas, as Fortu- 
natas dos antigos, duas estatuas de pedra de 
cem covados de altura, e sobre cada uma d^el- 
las uma figura de bronze, que está com a mão 
fazendo signal aos navegantes 2. Segundo o geo- 
grapho árabe Schems Eddin Mohammed ad- 
Dimischki, nas praias do mar circumdante pró- 
ximo das ilhas de Saida, três estatuas de 
horrível catadura faziam aos navegantes eguaes 



1 Macedo, Memoria cm que se pretende provar, etc, 
pag. 77. — Vise. de Santarém, Rccherchcs siir la dccoii- 
verte, etc, pag. cu. 

2 Macedo, Memoria em que se pretende provar, etc, 

Pííg- 79- 



I()4 VARÕES ILLUSTRES 



e temerosas intimações ^ O que é, porém, sobre- 
maneira singular e denuncia até que ponto eram 
systematicas e fabulosas em grande parte as 
concepções geographicas dos mais lúcidos esgi- 
ritos durante a edade média, é que as estatuas 
c columnas se repetiam no Oceano oriental, Na 
hypothese seguida pelo árabes de que a Afri- 
ca, encurvando-se para o Oriente, ia de perto 
confrontar com a ponta meridional da península 
indostanica e o mar das índias apparecia con- 
vertido n'um puro mediterrâneo, era forçosa a 
supposiçãp, , de ,vw, ^ejsp-çitç, -correspondente .ao 
de Gibraltar. Ali demandava a symetria que: 
figurassem repetidas as estatuas e as columnas. _ 
Havia pois, segundo a expressão de Roger Ba- 
con, um dúplice estreito no Oceano, duplex 
Gades, a Gades de Hercules, entre a Europa e 
as terras africanas, e a Gades de Alexandre, 
entre a Africa e a Ásia oriental. Esta doutrina 
repetia o celebrado cardeal. Pedro d^Ailly em 
1480, inscrevendo na sua carta as Gades orien- 
taes e occidentacs e attribuindo em um dos seus 



1 Macedo, Memoria em que pretende provar, etc, pag. 
io3. Sobre as estatuas erigidas em vários rios e costas do 
Oceano vej. ibid., pag. ii3 c 122. 



VASCO DA GAMA l65 



escriptos á índia ás suas còluflihas de Hercu- 
les, eguáesòu similhahteà âs'de Gibraltar ^ 

No famoso planispherío'dÒ^celebre camaldu- 
lense veneziano, Fra Mauro, de 14G0, quando 
já estava descoberta pelos navegantes portugue- 
zes uma grande parte do extenso litoral afri- 
cano ao occidente, as estatuas, que nas cartas 
antecedentes, por exemplo na dos Pizzigani, de 
1367, eram figuradas nas ilhas Afortunadas ou 
Canárias, appareciam agora deslocadas da sua 
antiga posição, e se phantasiavam erigidas muito 
alem do limite clássico e tradicional, imposto ás 
anteriores navegações. Em presença dos desco- 
brimentos portuguezes, que já então davam brado 
pelo mundo, e eram notórios ao cartographo 
veneziano, affirmava já elle expressamente não 
acreditar, como os seus predecessores, na exis- 
tência das estatuas mysteriosas, nem que fosse 
defeso áós navegantes, em ponto algum do glo- 
bo, o aífrontar mais avante o Oceano 2. Tão ma- 
nifesto era já n^aquelle tempo que os erros dos 
geographos antigos e dos cosmographos na edade 



1 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., piig. 75. 

2 Vise. de Santarém, Recherches sur la décoiirerte, etc, 
pag. 1 12-1 14. 



l66 VARÕES ILLUSTRES 



média começavam a dissipar-se á luz que der- 
ramavam pelo mundo as nossas navegações. 

A este mesmo cyclo m\'l]iico-gcographico per- 
tenceria talvez aquella estatua singular, que a 
tradição portugueza affirma ser achada na ilha 
do Corvo, e de cujas circumstancias faz parti- 
cularisada menção o grave e severo chronista 
Damião de Goes^ 

Outra lenda geographica mui popular e predile- 
cta aos cartographos na edademédia, éad'aqu€l- 
les povos singulares, a quem por uma mal inter- 
pretada tradição biblica davam o nome de Gog 
e Magog2. Eram elles os que, precedendo o jui- 
zo universal, deveriam, quasi no fim do mundo, 
visitar a terra com suas terríveis devastações. 
Por esta irresistível inclinação, com que os cos- 
mographos d'aquelle tempo se compraziam em 
mesclar á geographia as eioutrinas religiosas c 
as lendas mysticas do christianismo, os carto- 
graphos reservavam quasi sempre um logar no 
mnppa-mundi áquellas gentes, fabuladas como a 
guarda de honra do Antichristo. Nas cartas fi- 



1 Damião de Gocs, (^Jironica do príncipe D. João, Lis- 
boa, i5T)7, cap. IX, foi. 9-10. 

2 Genes., x, 2. — Ezechiel, xxxviii. — Apocalypsc, xx, 7. 



VASCO DA GAMA 167 



gurava a celebre muralha, que separava Gog e 
Magog do restante das terras habitáveis, e que 
Alexandre Magno, na sua marcha triumphal con- 
tra o Oriente, tinha feito erigir para obstar á 
invasão d^aquelles tremendos inimigos da hu- 
manidade ^ Nas cartas do xv século, entre ellas 
no famoso mappa-mundi de Andrea Bianco, de 
1406, o paiz de Gog é figurado por um castello 
situado sobre uma alta montanha, associado pelo 
cartographo ás façanhas do grande Macedónio-. 
No mesmo século o mappa-mundi do museu Bor- 
gia ainda representa a muralha de Gog e Magog 
e assigna a estes povos na Ásia a sua morada,, 
attribuindo-lhes a estatura de gigantes descom- 



&'t>' 



Tal era, qual em summula fica patenteado, o 



1 Peschel, Gesclu der Erdk., pag. 85.— Vise. de Santa-^ 
rcm, Hist. de la Q;5;?z. et de la Cartogr.^ iii, pag. xlvi-xlmi, 
333 mappa-mundi do palácio Pitti, em Florença),. 2o5 
mappa-mundi do ms. de Marino Sanuto, na bibliothcca 
de Bruxellas). 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., 111, pag. 378. 

-^ Vise. de Santarém, Hist. de la Cosw. et de la Car- 
ogr., iir, pag. 271-273. 



l68 VARÕES ILLUSTRES 

estado dos conhecimentos geographicos na epo- 
cha memorável, em que Portugal se aventurou a 
cursar os mares desconhecidos, diante de cujas 
portentosas e fabuladas maravilhas haviam tre- 
mido e recuado os mais audazes navegadores. 
A geographia era pois um cahos inextricável de 
systemas contradictorios, de ignorâncias disfar- 
çadas na fabula e na ficção, de erros tradicio- 
naes engrandecidos pelo tempo e venerados pela 
auctoridade e pelo nome dos maiores entre os an- 
tigos escriptores. Todavia é forçoso confessar que 
nas sombras, em que a verdade se escondia, 
alguma luz escassa e duvidosa se coava, por 
onde um espirito inquiridor, estudioso, refle- 
xivo poderia acaso rastrear uma ou outra noção 
provável ou verdadeira. Apesar das dissidências 
de opinião entre os antigos, a forma espherica 
da terra era já admittida geralmente. A com- 
municação do mar das índias com o Atlân- 
tico tinha em seu favor o parecer de alguns 
auctores, e a tradição, se bem que nebulosa, apro- 
veitável de périplos ou circumnavegações reali- 
sadas em redor da península africana. Esta 
hypothese racional tinha achado representação 
em vários monumentos cartographicos da eda- 
de média, principalmente em França e na Ita- 



VASCO DA GAMA lb() 



lia'. No mappa-mundi de Marino Sanudo, de 
1*329, os dois mares apparecem constituindo 
uma única massa 4^ aguas, sem nenhuma inter- 
rupção. O Oceano Indico é todavia figurado 
como um mar mediterrâneo-. 

Se os dictames eram vários sobre serem ha- 
bitáveis ou inteiramente deshabitadas as regiões 
equatoriaes, a doutrina mais seguida pelos es- 
píritos de quilate superior era a de que ao 
menos até á latitude boreal de doze graus e 
meio a zona tórrida não era incompatível com a 
humana habitação. 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosiu. cl de la Car- 
togr., Ill, introd, pat^. xxxvi. 

2 Pcschcl, Gesclu der Krdk., pag. 102. 



CAPITULO XII 

os NAVEGADORES EXTRANGEIROS 

NA COSTA DE AFRICA ANTES DO INFANTE 

D. HENRIQUE 

Le fait incertain du voyagc de Vi- 
valdi ne peut infirmer les faits cer- 
taiiis, qui constatent la prioritc des 
dócouvcrtes africaines des portugais. 

\'iscoNDE DE Santarém, Recher- 
clies, pag. 25 j. 

Tem sido questão largamente controvertida 
entre os modernos historiadores da geographia, 
qual fosse de todas as nações marítimas da Eu- 
ropa meridional a primeira, que aventurou os 
seus navios não somente a explorar as costas 
africanas alem do cabo Não, se não também 
a tentar os caminhos do Oceano para chegar á 
índia oriental. Aos árabes se attribue, por tes- 
temunhos, ao parecer insuspeitos, a única via- 
gem, em que estes incansáveis exploradores ti- 
vessem abordado até um cabo, que se afigura 
ser o Bojador. O geographo árabe Ibn-SaVd, no 



172 VARÕES ILLUSTRES 



XIII século, refere que Ibn-Fatima, havendo em- 
barcado em Nul-Samtha, naufragara na costa 
Occidental de Africa, e proseguindo n\mia cha- 
lupa a sua navegação, sem acertar na rota, que 
seguia, avistara um promontório, o qual no texto 
arábigo tem o nome de montanha resplandecente 
[ai djebel alammâ). Ali, diz, fora prevenido pelos 
berberes da tribu Beni Jodalla ou Kodalla, de 
que se não approximasse d^aquelle cabo teme- 
roso, porque todo elle era uma pura congerie 
de serpentes, que devoravam os navegantes, 
quando attrahidos das esplendidas cores de seus 
rochedos, ousavam abicar ás suas escarpas. O 
parallelo entre a narração de Ibn-Fatima e o 
que os portuguezes descobriram em suas pri- 
meiras expedições na costa de Africa, parece 
confirmar que a marítima aventura do navega- 
dor arábigo, apesar das maravilhas inseparáveis 
da phantasia oriental, se não pode plausivelmen- 
te annumerar entre as fabulosas narrativas, de 
que são copiosos os viajantes e geographos mu- 
sulmanos^ 



I «iNoLis avons donc un voyíige fait par Ics árabes aii 
dela du cap Bojador et au golphe et iles d'Arguim avant 
les dccouvertcs des portugais.» Vise. de Santarém, Re- 



VASCO DA GAMA lyS 



A viagem de Ibn-Fatima até o cabo Bojador, 
segundo Peschel e Reinaud, ou até o cabo Bran- 
co, na opinião do visconde de Santarém, foi ape- 
nas determinada pelo acaso, sem que a prece- 
desse e alumiasse nenhum propósito firme c 
deliberado de seguir até paragens tão distantes 
a timida navegação. Os mareantes árabes, le- 
vando sempre na mão a costa de Africa, sem 
nunca se engolfarem ao largo no Oceano, ti- 
nham por termo de suas mais remotas excur- 
sões o cabo Não^ Um eminente geographo al- 
lemáo escreve a propósito das viagens dos ára- 
bes no litoral africano estas palavras: «Se os 
árabes pelos seus correligionários, os berberes 
Sanhadja, que então como hoje costumavam con- 
duzir os seus rebanhos até o Senegal, tiveram 
porventura noticia doeste rio, em nenhum de seus 
geographos se nos depara uma só descripção, 
que lhe possamos referir» 2. 



chcrches siir la découverte, etc, introd., pag. lxxxiv. — 
Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 118. — Ibn-Fatima, cm 
Abulféda, ed. de Rcinaud, 11, pag. 21 5. 

I Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 118. 

- " Wenn auch dic Arabcr durch ihre Glaubensgenosscn 
dic bcrberischcn Sanhadscha,wclche ihre Heerdendamals 



174 ■ VARÕES ILLUSTRES 

Antes que a má fortuna d<e um naufrágio le- 
vasse Ibn-Fatima até mui longe do termo ha- 
bitual das navegações arábigas, ha noticia de 
uma anterior expedição realisada por árabes de 
Hespanha. Doesta vez, porém, caberia á Lisboa 
musulmana a gloria da primeira e mais antiga 
navegação, se náo estiv^essem concordes os mais 
graves historiadores, eruditos e geographos por- 
tuguezes e extranhos em capitular de suppositi- 
cia e fabulosa a extraordinária expedição. 

A lenda romanesca é contada pelos geogra- 
phos Edrisi e Ibn Al-Wardi, conformando um 
e outro no fundo da sua historia, mas dissentin- 
do notavelmente nas circumstancias e episódios. 
Oito árabes da cidade de Aslibuna, a veneranda 
avoenga da nossa Lisboa christan, mui conjun- 
ctos pelo sangue, concertaram entre si o esquipa- 
rem um navio, em que fossem a inquirir o que 
se continha no Oceano e quaes eram os segredos 
e os limites d^aquelle mar de trevas e mysterios. 
Na versão de Ibn Al-Wardi os oito primos ou 



so gut wie heutigcn Tages, bis zum Senegal zii treibeii 
pflcgten, habcn konnen, so íindcn wiv ihn doch bei ihrcn 
Geographcn.nirgends erkenntlich gcschildert.» Peschcl, 
Gesch. der l\rdk., pag. ii8. 



VASCO DX GAMA I7D 



parentes mui chegados propunham-se, ao avcn- 
tarar-se no Atlântico, descobrir o que existisse 
no fim d''elle, e ver tudo quanto ali se depa- 
rasse de raro e maravilhoso. 

Haviam-se uns a outros dado juramento de 
que ou pereceriam na façanha ou não haveriaín 
de volver á sua pátria, emquanto não chegassem 
ás terras mais distantes. No reconto de Edrisi 
e Al-Wardi são egualmente maravilhosos os suc- 
cessos. Depois de descobrirem e visitarem a ilha 
dos Carneiros, navegando por doze dias mais 
ao sul foram dar em outra ilha, onde o rei os 
acolheu, e depois de alguma demora os mandou 
lançar manietados c com vendas em seus olhos^ 
a uma praia remota, onde ficaram. Acudiram- 
Ihes os indígenas. Desataram-lhes as vendas e as 
prisões. Disscram-lhes que d''ali ate Lisboa gas- 
tariam muito alem de um mez cm sua derrota. 
\'olveram finalmente á terra pátria. E d''esta 
portentosa navegação, conta Edrisi, se derivara 
a uma rua de Lisboa o nome de Maghrin^in, 
porque assim foram cognominados os audazes 
navegantes, como quem dissera os que foram 
enganados. Al-Wardi escreve que a um bairro 
de Lisboa ficara o titulo de Mogharirin, ou dos 
aventureiros, porque assini eram conhecidos os 



lyÔ VARÕES ILLUSTRES 

oito lisbonenses exploradores. E affirmam um 
e outro, que em seu tempo existiam na cidade 
musulmana os sitios memoráveis, que refe- 
rem ^ 

Da erudita e profunda investigação de um il- 
lustrc philologo portuguez resulta manifesto o 
caracter fabuloso da expedição 2. O próprio Edri- 
si desconfiou da sua authenticidade, quando ao 
descrever a ilha dos Carneiros, e ao referir uma 
notável singularidade, accrescenta em tom de sce- 
pticismo: «Se é que devemos acreditar nos ma- 
ghrurinos»^. Os dois novíssimos historiadores 
da geographia, Peschel e Vivien de Saint-Martin, 
incluem a odysséa dos oito aventureiros de Lis- 
boa no conto das lendas geographicas^^. 



1 Macedo, Memoria em que se pretende provar, etc, 
pag. 122-141. 

2 Macedo, Memoria em que se pretende provar^ eic, 
-" Macedo, Memoria ein que se pretende provar, etc. 

pag. 82. 

4 «Dahin (dem Gebiete der Sage) rechnen wir auch die 
Erzahlung von den atlantischcn Abcnteucrn der Brii- 
der Maghrurin». Peschel, Gcsch. der Erdk., pag. 119. — 
<cL'Atlantique, ou comme la nommaient les árabes, héri- 
tiers des vieilles legendes grecques et romaines, la mer 
Ténébreusc^ fut aussi le théatre de plus d'une histoirc 



VASCO DA GAMA I77 



Os árabes, que pela situação da sua pátria en- 
tre dois golfos, o arábigo e o pérsico, e a sua 
proximidade por um lado ao Mediterrâneo, pelo 
outro ao mar das índias, estavam melhor que 
nenhum povo da edade média em condições pro- 
picias de largas e proveitosas navegações, não 
mentiram a esta sua vocação. O Mar Vermelho, 
o seio Pérsico, e o Oceânico Indico foram desde 
remotas eras os theatros de suas audazes e cubi- 
çosas aventuras. Mas o Atlântico, apesar de que 
banhava em grande parte o litoral da Hespa- 
nha^ a mais preciosa conquista dos crentes do al- 
corão, ficou para elles sempre quasi defeso, e in- 
transitável pelos hórridos mysterios, que encer- 
rava, e pelos phantasticos terrores, que infun- 
dia'. 



fabuleusc. On racontait surtout celle de huit habitants 
de Lisbonnc (Achbouna) quí avaient equipe un navirc 
chargé de provisions pour plusieurs móis, afm de dccou- 
vrir, disaient-ils, ce qu'il y avait dans TOcéan et quelles 
en étaient les limites. . . Cette entreprise, qui valut il ses 
auteurs le nom reste populaire de maghrourin, se place 
dans la première moitié du douzième siècle». Vivien de 
Saint-Martin, //i5/. de la géogr., pag. 247-248. 

> «Die Schiffhrt der Araber im Westen der Erde, aiif 



lyS VARÕES ILLUSTRES 



Se os árabes, a quem aliás a edade média em 
grande parte é devedora dos seus conhecimen- 
tos acerca da Africa septentrional e das regiões 
interiores do continente, não precederam os por- 
tuguezes nas explorações do seu desconhecido 
litoral, tem-se pretendido nos modernos tempos 
desentranhar de escriptos e de mappas anterio- 
res ao século xv a evidencia de que outros po- 
vos navegadores haviam lustrado as aguas do 
Atlântico largos annos antes de começarem os 
nossos gloriosos descobrimentos. 

A prioridade nas aventuras e viagens maríti- 
mas á costa Occidental de Africa tem sido mo- 
dernamente reclamada em favor dos genovezes. 
Pretende-se fazer acreditar que já desde os fins 
do século xni ou quando muito em princípios do 
XIV, os ousados marinheiros da. poderosa repu- 
blica italiana haviam descoberto as ilhas Caná- 
rias. D'esta vez é Petrarcha, o mavioso poeta de 
Vaucluse, quem é chamado a depor no pleito 
geographico e a disputar aos portuguezes o seu 
direito incontestável de primeiros e immortaes 



dcm mittellandischen Mccre und im Atlantischcn Occan, 
hat nie grosse Fortschrittc gcmacht.» Rittcr, Gesch. der 
Erdk. und der Entdcck., pag. 17C. 



VASCO DA GAMA I 79 



descobridores. No tratado latino, que intitulou 
De pita solitária^ refere o enamorado lyrico tos- 
cano, que o descobrimento das Canárias por uma 
frota genoveza andava na tradição e memoria da 
geração antecedente ^ Não affirma o poeta com 
certeza o anno ou as circumstancias da famosa 
expedição. Reconta apenas, como em traços fu- 
gitivos, o que ouvira dizer aos mais antigos, sem 
que desse a tão extraordinário acontecimento a 
attenção c o louvor, que uma empreza tão nova 
c singular estava demandando. E todavia sobre 
tão débil fundamento se estribaram eruditos his- 
toriadores da geographia para darem como fa- 
cto incontroverso o que não tem em seu favor 
nenhum documento irrefragavel-. 

Gomo seria possível admittir, por uma ligei- 
ra referencia n\im li\ro de Petrarcha, que uma 

1 Petrarcha, De yita solitária, lib. 11, cap. iii. — Memo- 
ria patnun^ na memoria dos pacs ou dos mais velhos, diz 
o poeta. 

~ Pcschel, Gesch. der Krdk., pag. lyS, afíirma expres- 
samente o feito naval dos genovezes: «Ihrcn kundigcn 
Seeleutc verdankcn wir die Entdeekung der Canarien, 
entweder noch am Ende des i3 oder am Anfang des 14 
Jahrhunderts»; Aos. seus hábeis marinheiros — os de Ge- 
iiova — devemos nós o descobrimento das Canárias pelos. 



8o VARÕES Il.LUSTRES 



cmprcza tão rara e singular se houvesse effei- 
tuado sem que nas historias da grande e mariti- 
ma republica se perpetuasse a sua memoria? 
Génova na edade média repartia com Veneza 
como que o principado e senhorio dj mar Me- 
diterrâneo. Maritimos foram sempre os seus 
maiores e mais honrosos feitos. Se porventura 
os seus audazes marinheiros, ao deixar as co- 
lumnas de Hercules, em vez de endireitar para 
o norte a proa das galés para irem traficar em 
Flandres, levassem o rumo ao meio-dia em de- 
manda de terras africanas, como é que tão ex- 
traordinário acontecimento ficaria apenas com- 
memorado no livro mais obscuro do grande 
lyrico de Arezzo ? Como é que uma vez lustrado 
o tenebroso pélago não iriam novos aventureiros 
genovezes cruzar já mais adextrados e scientes 



fins do século xiii ou principies do século xiv. Vivien de 
Saint-Martin, a exemplo do geographo allemão, seu con- 
temporâneo, dirime o pleito com egual e peremptória 
conclusão: «Un passage de Pétrarque, dans son Traité 
de la vie solitaire (écrit en 1 346), montre que dès le com- 
menccment du quatorzicme sièclc, pcut-ètre à la fin du 
treizième, les génois avaient visite les iles Fortunées, qui 
sont nos Canaries.» Vivien de Saint-Martin, Hist. de la 
géogi'., pag. 3o I. 



VASCO DA GAMA l8l 



O caminho dos primeiros navegadores seus con- 
terrâneos? E se causas imperiosas e invenciveis 
obstáculos SC oppozessem a que Génova prose- 
guisse na empreza começada, não pediria ao me- 
nos a honra da republica, tão prima rias cousas 
navaes e tão ciosa da sua gloria, que nas histo- 
rias se não sepultasse no silencio um feito de tão 
notável excellencia e novidade? Gomo é que os 
genovezes, de cujas navegações para Flandres 
somente ha documentos incontestáveis desde o 
XIV século', principiam a cursar o Atlântico, en- 
golfando-se desde logo nas suas regiões mais des- 
conhecidas c mais povoadas de terrores? E era 
havida por tão fácil a viagem desde os pontos 
do Mediterrâneo a Antuérpia, que o infante 
D. Henrique, segundo o testemunho de Azura- 
ra, censurando os navegantes portuguezes, as- 
sombrados a principio com as superstições e as 
fabulas acerca do Oceano, extranhava que se 
deixassem illudir com os ditos de poucos ma- 
reantes somente acostumados a navegarem até 
Flandres 2. 



1 Pcsclicl, (jcsch. dcs Zcitalt. der Kutdcck., pag. 44. 

2 "Se ainda estas cousas, que se dizem, tivessem algua 
autoridade, por pouca que fosse, nom vos daria tamanha 



l82 



VARÕES ILLUSTRES 



Ora acontece que a expedição genoveza ás 
costas africanas referida por Petrarcha, vem a 
coincidir com uma viagem, que alguns têem 
pretendido proclamar como anterior de largos 
annos aos primeiros descobrimentos portugue- 
ses. E é notável que todas as suppostas nave- 
gações, que precederam as de Portugal na costa 
de Africa, só começaram a sair á luz muito 
depois que os portuguezes ensinaram aos demais 
povos navegadores o caminho das novas, arris- 
cadas e gloriosas explorações. Affirma-se ain- 
da hoje dogmaticamente, como se fora axioma 
evidentissimo e repetem alguns modernos histo- 
riadores da geographia^ que entre todos os mo- 
dernos povos europeus haviam sido os genove- 
zes os primeiros que tentaram a circumnavegaçao 
da Africa e a rota marítima da índia, quasi dois 



culpa, mas quereesme dizer que por openyom de quatrtí 
mareantes, os quaes como son tirados da carreira de Frau- 
des^ ou de alguns outros portos pêra que comunmente 
navegam, nom sabem mais teer agulha nem carta pêra 
marcar.» Azurara, Chron. do descobr. e conq. de Guiné. 
cap. IX, pag. 5j. 

I Peschel, Gesch. der Erdk.j pag. 179.— Vivien de Saint- 
Martin, Hist de la géogr., pag. 3o i. 



VASCO DA GAMA l83 



séculos antes que o illustre navegador Bartho- 
lomeu Dias tivesse dobrado o cabo das Tormen- 
tas. Diz-se que cm 1291 se aprestara em Génova 
uma frota de duas galés bem apercebidas de 
quanto era mister, as quaes saíram pelo estrei- 
to de Gibraltar ao Oceano, sem que nunca 
mais se podesse saber o seu destino. Até ha 
poucos annos a única menção, que d'esta em- 
preza naval dos genovezes se deparava em es- 
criptor contemporâneo, era apenas a que se lê 
no livro intitulado Conciliator differentiarum 
(Conciliador das diííerenças) de Pedro de Aba- 
no, philosopho, medico e astrólogo, nascido 
em 12 53 no território de Pádua e fallecido em 
i3i6. Na differentia 67 doeste livro, depois de 
explanar que os desertos africanos são de enor- 
me vastidão, arenosos, privados de agua doce, 
cheios de serpentes e peçonhentos animaes, de 
maneira que ninguém pôde facilmente ali che- 
gar, prosegue asseverando que poucos tempos 
antes d'aquelle, em que escrevia, os genovezes 
haviam apparelhado duas galés abastecidas de 
todo o necessário, as quaes passaram pelas 
columnas de Hercules, situadas nos últimos 
confins de Hespanha, e se ignorava o que fora 
feito d^ellas, sendo já decorridos cerca de trinta 



184 VARÕES UlUSTRES 

. ,oiíi'jtf4unom Bido bíjís bh oíd^iíxs mu g^n 
annos^ Ha poucos annos, porem, um saoio 

germânico de notável reputação, Pertz, o pu- 

blicador dos Monumenta Germamae Histórica, 

em um escripto sobre a prinieira tentativa para 

descobrir o caminho marítimo das índias orien- 

,,ii i. uiíiUj uii .\rij4 uiaijc abo DJri;)m 
taes, revelou um passo dos annaes da republi- 

ca de Génova, d onde poderia inierir-se que em 
1 291 realmente se enectuara uma expedição de 
duas galés genovèzas, ás qúaes saindo pelo es- 
treito de Gibraltar, navegaram ao longo das 
costas africanas. A narração puoTicad^ pelo 
dr. Pertz e copiada de uni manuscripto da pro- 
pria letra de Giacopo ■ Dona, o nistóriador ou 
annalista genovez contemporâneo, um dos con- 
tinuadores das chronicas de Caífaro. Este ma- 

nuscripto, de que Muratori havia publicado ape- 

í; oi/Jíii 



jxj(yi,i i;i. .. . >..ibnl i^h eon^q óh m^zú^ 
I «Paruih ante ista tempor,^. p;çnuçj:>f^s^(Jua5jpjU^^v^çT 
re omnibus necessariis munitas galeas, quae per Gades 
Herculis in fine Hispanine situatas transiere. Quid autem 
de istis contigerit, jam spatio fere trigésimo ignoratur 
anno». Petr. Aban. Conciliat. different., diíF. lxvii. eiix^ertz. 
Der a'lteste Versuch ^ur Entdeckiing des Seeweges nach 
Ostindien hn Jahre 1201. (A mais antiga tentativa para 
descobrir o caminho marítimo das índias orientaes no 
anno 1291.) Rerlin, iSSq, pag. 4. 



VASCO DA GAMA l85 



nas um extracto na sua obra monumental Re- 
rum i talicjjf um sçriptor es, conxtm em latim 
barbarizado os annaes da republica de Génova, 
Annalesi januenses, desde o anno de 1280, até 
o de 1294, e foi mais tarde publicado integral- 
mente pelo sábio Pertz no tomo xvni dos Mo- 
numentos históricos de AllemanhaK 

A breve narrativa do annalista genovez limi- 
ta-se^ a qizçr textualmente que «no anno de 
1291 Thedisio Dória (Thedisius Aurie), Ugoli- 
no de Vivaldo, e seu irmão com alguns outros 
cidadãos de Génova, começaram a fazer uma 
certa , viagem, que ninguém até então em- 
prehendêra, para o que apparelharam opti- 
mamente dua§ galés, e tendo-as abastecido de 
vitualhas .e , de asua e outras cousas necessárias, 
as enviaram no mez de maio ao estreito de 
Ceuta, a fim de que pelo mar Oceano se diri- 
gissem ás partes da índia e d'ali trouxessem 
proveitosas mercancias, e que n^aquelles na- 
vios foram pessoalmente os irmãos Vivaldi e 

I Momimenfa Germaniae histórica, Scnptores, tom. xviii, 
llannovci-, i863. Os Annales jamténses de Jacobus Auria 
ulacopo Doria} es"tâo impressos n'este volume desde pag. 
2S8 a 356. 



i86 VÀk6tís íLiiúèrVkÉs 



maravilha hão somente paíá es 'qtieMi^viraiii, 
sehâò feitíberri^{)áfaliè ^^^^^'^mwit^sím^máomditào 

passírM-^b^^áféá píii^iin¥^TôgtíH^ qlíèninhái^níe 
de tíòzira,' iitítóà tóáis^^Hó^^^fíot^^ des^ 

tíno^^^íf^áâ fâkçâ<9'á!Ey^a?eéteí^%ié^i^tado^^ 
/>í]n/i O .^yluoisH 3b ^jiafiiíjioD 8b moòn^-nnv 

_ ^^ ^^ Boilduq^i £b íbíoííi 

'>->J^-»^od<gM^í^*Uipp«íaano;T±iedisius Aijriei, Ugolinus, de 
Vivaldo, et ejus frater cumquibusdam aliis civibus Janii^ 
ceperuaí:^ facere , ^uoddí^m^ viagami. guod aliquis jasque 

nunq faaere minimç attempt^vit. Nam armaverunt opti- 

;-^,a, r/aíJ juL :ji. J/U^^ím ) R •.■<:• "míj - -r , ,. ;• , ,,,.^ 
me duas galeas, et victualibus aqua et aliis nécessarns 

infra eis impositís, misérunt easde itrerise Madii dé véí*- 
sus strictum Septe, ut per maré Occeanitm ir^nt ad par- 
tes Indie rhíéi^cífnonia utilia inde fertentes. In quibiis ive- 
runt dicti duo fratres de Vivaldo personaUter ^t duo 
í^§tres Min9pjeSf,QijiQ^ qujíjpm rnira^bile fuit non soluin 
,'YÍdentibus sed etiam audientibus. Et postquam locum. qui 

dicitur Gozora transierunt, aiiqua certa nova non nabue- 

'í)íia :' <• -jí 'Wih . M-jni, ..■,;.,,,-. :r-., ..■>.,-. ,.„ ......^ ,„ 

runt de eis. Dommus autem' éos custcídrair ôt sanoá et in- 
cólumes reducat ad prdpriav» Pertz. Monum. Gennaniae 
histórica, Scriptores, tom. xviii, Hannov. i863, pag. 32 1. A 
transcripção, que apparece na memoria de Pertz, Der 
aelteste Versuch, etc, diífere da recensão publicada nos 
Monumentos hisiortCo^'yéúi''(\\ie cm vez áe armm>^7'unt 
tem ornaverunf é éííi\tz''át '^i dicititr Go^òrà) está im- 
presso qui Go^^ora dièiiui'. ^ ^^ • ■ 



VASCO DA GAMA 1 87 



nomes dos ousados aventureiros, caudilhos da 
expedição, emquanto que se passam em silen- 
cio na lacónica, yi?>emoria de Pedro de Abano. 
Condizem porém notavelmente as duas comme- 
morações em affirmar que ficara ignorado o 
êxito d'aquella primitiva navegação. O astró- 
logo italiano perde a noticia das galés apenas 
transpõem as columnas de Hercules. O anna- 
lista official da republica de Génova assevera 
que, passado um logar chamado Gozora', nunca 
mais houvera novas da infeliz expedição. 

Pertz (Der aelteste Versuch, etc, pag. ii e 
]2) conjectura ser a Go:{ora, de que falia Jaco- 
po Dória, o logar que na carta dos irmãos Piz- 
zigani, de iSóy, reproduzida no seu Atlas pelo 
visconde de Santarém, e só em parte copiada 
por Lelewel, apparece com a inscripção Capiit 
Finis Goiolae, e na carta catalan de iSyõ com 
o nome Go\oli, e suppõe que ambas estas indi- 
cações se referem ao cabo Juby, que "nos limites 
meridionaes do império de Marrocos é situado 
cerca do vigésimo oitavo grau de latitude boreal, 



I Gozora ou Gosola, como está cscripto na carta gco- 
graphica dos Pizzigani de iSGy, é segundo Peschel a an- 
tiga Gctulia. Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 179. 



l88 VARÕES ILLUSTRES 

( iX ■ AMA O A a C)j?.A-J 



em frente das Ganafías.Sê^e plausível o presu- 
póstodé PèKz/â^fànfièi^sÍTiavègação dós gencyve- 
zès fícáná atádarriííito áqiiem do cafeo Bojador. 

À mais antiga menção, que doesta viagem africa- 
na ^è nos depara em historias genovezas impres- 
sas, é a qué deixou fèfS^Giustiniáhi', qúe nasceu 
éffi';^4^,''ffltófes'Bhnos depois 'iíà^ôi^ 
ze§'^tíàvegaram alémdd) cabo Bojador. A btó^e 
narrativa d''este escríptof confirma as antecedéVí^ 
tes réláçoès, quanto a ser totalmente ignorado 
ò destino das galés, depois que traspassando 
o estreito de Gibraltar navegaram em demanda 
da Ihdiá ■ òi-ièrilíaí ^ ; A memoria da expedição 
genoveza reapparece na historia de* 'f^GèhóvSÍ 
(Historia genuensis) de Ugo FoglietVá, t)"^ôM^ 
nada mais fez senão seguir litteralmente, citan- 
do-o como auctoridade, ao seu antecessor. 

No principio' do século presente um sueco resi- 
dente em Géricívà, Graberg de Hemso, publicou 
haver "éiitoHMúò nò^ 'á!fchivos'da cidade utrí dó- 

cumefiíõV íío 'qíi'àV'^ífh Ikfiríi^ Bárbaro se refere a 

■ '■y^íiV ,2£jtrlqí>igo^^ aiibnol ^L:. ci^^-''^' 

TI3 íi3noÍDJ5n oiiqÓTq lomB' o iBmimjB 

vers. cit. em Peschel, Gcsch. der Erdk., pag. 179. — Vise. 
de Santarém, Recherches, sur la décoiiverte, etc, pag. 244 



VASCO DA GAMA 1 8^ 



viagem ^gp ir-in,ã^9^s Vivalçli com uma circuiTfx 
stançia,|4^KÍS^9>i9iF9í?S? >4Míí*F4;W^^ ^^^ .^^adi- 

e fflAis ngo ^p^^^^^^t^^^ ^g.p^sç^.gi^e^a^^^e- 
guada prpseguíra^ç^ u^P^.?) :?íf?êíf;4M?^^. (^? ^"^ 
cidade da Ethiopia, a qije |Cjh|amavara Mena ' . 
NOj mesmo manuscripto de 1455, se encontra 
uma carta de Antoniotto Usodimare ou António 
de Nolgy^jq^ue .^eryiv^,^)^^^^ expedicõç^^ dç^.jjí^fante 
D. Henriqviç eflj jÇprnpanhj^, jdpj jc^lebrç.^^^^^ 
dpr ,Al»isio cje Ç^jdanipstQ. N'elkreferç,Q,;^ven- 
tureiro genovez haver encontrado na Guiné um 
descendente de um dos seus compatriotas, que 
hayfa, centp ^ ^ ^ .^eíj^nta , annos tinhç\ni ido nas 
galés de.^Qjiia, e;4^ Viv^dif jSçgj^ndo ,a narra- 
ção^ jdçyspj4imai^e,5 ^ a expedição das , galés geno- 
veza^foi np^^pj^o djÇ ^if.jijj. jAyvkgem^-^^ç^tes.dQÍs 
aventureiros, se em presença do documento pu- 
blicado pelo dr. Pertz não pertence inteiramen- 
te ao numero das lendas geographicas, inven- 
tadas para amimar o amor próprio nacional em 
desabono dos extranhoS,' é )àb''th[eilòá úm suc- 



• Annali di geographia e di statistica, Génova 1802, 
tom. II, pafí 287 e scg. 



190 VARÕES ILLUSTRES 

ee^^ tão duvidoso, e difficil de attestar^ que 
mal pôde contrapor-se aos maravilhosos feitos 
portuguezes, comprovados por testemunhas in- 
suspei^tf^Sci^y^enerados como preeminência e glo- 
ria portugueza por todos quantos assistiram 
assombrados ás nossas arrojadas e primeiras 
expedições ^ 

Ainda, menos firmada em plausiveis documen^ 
tos^idíeíjique a tentativa genoveza de 1291 é a 
qu^iise attribue ao, catalão ou antes malhorquino 
Jayme Feri:er.>'Diz-se que O' navegante se fizera 
de vela a 10 de agosto de i356, com destino ao 
Rio do Oiro, e que nunca mais voltara da sua 
desgraçada expedição. O primeiro documento, em 
que se firma a existência da mallograda empre- 
za de Ferrer, é um letreiro, que iigura na ce- 
lebre carta catalan de 1 365, na qual se vê dese- 
nhado.' um inavio ao sul do cabo, que mais tarde 
os portuguezes appellidaram Bojador. Junto do 
baixel apparece uma inscripção, a qual declara, 
em linguagem catalan, que a 10 de agosto de 
.baí>ri3'i' 

I «Lc fait incertain du voyage de Vivaldi ne pcut infir- 
mcr les faits certains, qui constatcnt la priorité des dé- 
couvertes africaines des portugais.» Vise. de Santarém, Re- 
çherches sur la découverte, etc., pag. 257. 



VASCO DA GAMA 10)1 



1 346 partiu o navio, Uxer, de Jayme Ferrer para 
andar no Rio de Oiro ^i. O segundo testemunho 
allegado cm favor da expedição do malhorquino 
é o manuscripto já citado e descoberto^ por 
Grâberg de Hemso, no qual se reprõdtíP'.>''â in- 
scripção (ia carta catalan e se accrescenta que 
da galé de Jayme Ferrer nunca mais houve no- 
ticia. Cumpre não esquecer que o documento 
genovez, afora a sua nenhuma authenticidade c 
o pertencer a tempos mui distantes do anno, 
em que se diz emprehendida a exploração, traz 
errado o home do navegante catalão, chaman- 
do4he Ferne e não Ferrer. Os monumentos, — 
ser ;me recém tal nome as provas, que se addu- 
zeni^para attestar a navegação do malhorqui- 
no, — têem sido tão largamente discutidos e 
aquilatados pelo mais erudito propugnador da 
prioridade nos descobrimentos portuguezes, o 
visconde de Santarém, que ninguém hoje se 
atreve a consignar o nome de Jayme Ferrer 
nos fastos geographicos, senão como de quem 
apenas emprehendeu uma excursão á costa de 
Africa, sem que da sua extensão e dp seu 

I Visc.de Santarém, /^(?6"/íerr/7f 5 .swr la découverte, etc, 
pag; 227-228. 



1C)2 VARÕES ILLUSTRES . 

destino se conservasse a minima informação. 
Todos os que persistem em defender por ver- 
dadeira a navegação dos catalães, conformam 
em confessar que núúcs} jMis^' soube ninguém 
em que veiu a parar a expedição, porque o 
navio de Ferrer jamais voltou. Porventura se 
perdeu logo ás primeiras singraáúrás^río mar 
das trevas até ali impervio e temeroso aos 

.p.Oíj^ap^r^t^^.vi-èín^rWJR.^^i^í^ai^G mfructuoso como 
o de Dória e de Vivaldi, como talvez outros 
mais de que não ficou sequer recordação. 

-iqo ÍBi^^ -loq 38-Bí7Brí bibiusA vu oqrrrjij o/i 

- tdob B obBDHBÍBdB Bfínií 38 msugnín oup oBin 

moVí .-íobBJoH oÓÊo obnsmau c 

íBffi òa rnu -aup BYBiomornmoo oílpibb'i3 

^ aslbupk obsiuin^YB 3283yíJ 

-D}2fí[ aorfiBnííj iòBup çsbBbíljjijii^qmi Bi3DnÍ2 A 

^^■- ^ob.BíainoifÍD oiíamiiq ob ^Bsaíqrnl? eu,- 



lo'l BDMT 



....CAPITULO XIII 

l-O^jí^VJEÇ^DORES PORTLGUEZES 
NA COSTA, I)í:.AFHIC/V ANTES DO SÉCULO XV 

Ausi sunt progenitores tui, Lusitâ- 
nia egreséi, nova maria, novas terras, 
nova atque incógnita sidera scrutari. 

Luís Vives, De Corruptis artibus, 
dedicatória a D. JoáoIIL 

No tempo de Azurara havia~se por geral opi- 
nião que ninguém se tinha abalançado a dobrar 
o tremendo cabo Bojador. Nem escripta, nem 
tradição commemorava que um só mareante se 
tivesse aventurado áquelles mares'. 

A sincera imparcialidade, quasi diriamos ingé- 
nua simpleza, do primeiro chronista dos nossos 



I «E porque ellc (o infante) tinha voontade de saber a 
terra que hya a aliem das ilhas de Canarya e de um cabo 
que se chama Bojador, porque ataa aquelle tempo, nem 
per scriptura, nem per memorya de nenhuus homeês, 
nunca foi sabudo determinadamente acpllidade da terra 
que hya a aliem do dicto cabo.» Azurara, Chron. do 
descobr. e conq. de Guiné, cap. vii, pag. 44. 

17 



194 VAR5eS ILLUSTRES 

descobrimentos, reluctaria certamente a encobrir 
ou dissimular os testemunhos e memorias, que 
de outras precedentes navegações andassem cor- 
rentes entre o vulgo, òti Çyélo menos auctorisa- 
das entre os doutos. Azurara nab- se nega 'á 
referir como tradição acreditada ou apenas re- 
ferida por alguns a supposta viagem de S. Bran- 
dam, nerh se esquece de mencionar o que outros 
memoravam acerca de duas galés, C[ue tinham 
ido áqoeiles mares africanos e que •nútt^fá^feiáis 
volveram da sua rnysteriosa éxpedidSb^í^à^índá 
que em seu parecer a tivesse por impossível ou 
suspeita^. E não só Gomes Eannes de Azurara, 
que nos primórdios de nossas navegações pode- 
ria ter mais viva e menos propensa ás malida^ 
c vaidades a sua como que infantil ingenuidade 
senão também outros graves escriptbres de 
tempos mais modernos, quando era já chegado 



1 «Bem hc que alguus deziam que passará pôr allySam 
Brandam, outros deziáín qile foiarri la duas^alèés^è que 
nunca mais tornaram.» Azut-ará. ChVon. dò descobr. e conq. 
de Guiné/ca^. vir, pag. 44-45. 

2 «Mas esto nom achamos per ninhum modo que podes- 
se ser.» Azurara, (Jlinm. do descobr. e conq. de Giiiné, cspi 
VII, pag. 45. '^''^^ ' 



VASCO DA GAMA IQD 



a9,rj^^;-|^stjgi9í#;]if9pç.yia; p0rtqguez. africano e 
o^i^ntal, ; fi;^ , f qui^ef aií^r í dissimular^ a foro d e 
portugu^Z^gi,?: y|iidQ&Q9.4a&,pfttóa3 bizarrias, o 
qu^ ,^ntçs dç nós, pOjr , estender os âmbitos, da 
terra conhecida, haviam os antigos intentado. Ahi 
temos Damião de Góes quasi taxando de falso 
amor.d^r pátria j^^suppor que antes de nós não 
foraiA ,em er^Sí já r-^inota^ ojULtrps rjão tão felizes 
mas ao menos tão audazes navegadores ^ E 
não menos pçrtuguez que Damião de Góes foi 
de certo aquelle bravo, generoso e malaventu- 
rado António Galvão, que não sendo apenas 
historj^idpr^jde, alheias galhardias, senão actor 
he^lçHCo eprinpip^^l 40 drarna dás nossas florias 
no Oriente, adpe.d,e, compendiou no seu Trata- 
do dos descobrimentos não. somente o que fize- 
ram portuguezes, mas o que antes d'elles e no 
sei^ tempo tinhai?;tfeiê<f>í ^^^^^^^^ n^"^^'*^ ^ nações. 



I Damião de Góes, Chronica de D. Manuel, part. i, cap. 
XXIV, edição de 1619, foi. i3. jDaniiiâo de Gocs, Chronica 
do príncipe D. João, cap. vu, «E dali determinou de man- 
dar navios ahp longuQ da. costa Dafriqua com tençam de 
chegar ao fim dos seus pensame;itos> que ^m descobrir 
destas partes Qpcidentaes ha nauegação pêra a índia 
oriental, ha qiial sabia por certo fora ja em outros tem- 
pos achada.» 



À^sjslrrí^títfé^ liítí^íiiAtéu W prrô^oMtõ^Mí^somfem 
Mi' 'hbhl-Rdd e Valéiití^síthc) sdldadb- 6'^tí€'-a 

d'à^r?)iiiàS'esca'de KÍadlim iiò suppòstò prii^fe^í^ 
dÈãcobrimèhto da ilha da MadeiFá^; • Quecri 
pddé acâscr acreditar ttú^ presença d^^estès- 'hon- 
íMá'^^'&1e'rrii!ínHS^'^âè ^^ánf§íiyi%}t-os- .^ 

pára %iMSi?iíkQ gfòríâ^^í^Qrtiip^^ir^si-encob^â- 
Íèi& âg^J^i^o^ósitò^àé^^^sfói^çasy comi Gjtte^ õutríis 
ria^èofe^à^''às^ liblíVe^íáeáí-' 'precedido' em ^ bu»sdai^ e 
dèècíítíiíí^ senda marítima pa'ra as In4i'as'(ífieíi) 
fíW?'-Se^ÍiBi^^s^iaíeâ'tR%^'d^>^'gèfiov^zési^ 
fífi^s 'Mrife^ilíOefô^^Urd^^ie^^^^ i^44hiMs Bèchos 

efií jíVBfiificío • eátjCidttihientov ' ápén^atí • régLstrí^do8 
nS'^ ^fâfb' ' Bb^éurò' ' de algum livro dí2 -escassa 
publrddádè -"oli' memorados' n^algtim maiíttascri^ 
j^fe W^^doòtth^éhío èe íé ttiuit^ suspwmi;ibe so- 
mente descoberto, quando eram já passados 

í (iaivâo, i ratado aós iescohnWèiitòs ^^ao^ ãèàvaira- 
dos caminhos por onde à pimenik evèp^Barm,'étc., ed. de 
1731, pag. 18-19. > ^^ - 



^m^mmià. V47: 



GadamostQ, imliana,. como era, aixida que não 
genoye?,,e apesar do ciúme e hostilidade entre 
Veney>a^ Genoya^ ii)íe^ressa4o natiiralmente en^ 
mo. .rpinguar-il^gjor^ats á^W^B ^9mmfRÍM9fj 

ra< mmmm§rmj-^?^^mmíÉ9?í^ mm^m^i 

attrib^ê-.aQS í^^e§antç3 4^ ^QrtHg?,l,a prioridade 
çtosjfii^3ç<)brimei7tos„africanos. O infante^. Hen- 
rique, é na prgpri^iphrase, de Cadaípostp.y ^f7- 
wze?7rp. zwi^^e/zíqr A^ . íiayegac/)e^, .no^ 

o sul dm terras:idmnm^(^^49MM^f^^W'^''^ 
Gsi portuguezes fer^mors^gufído í9;r)^ye§#f>F:,y.e^ 
neziano^- os prim^i^íps^ eqrpppjus, , de :,q;|e. tiveram 
noticia os negros,;da, Africa occidental-. Nem 
estes nem os ;seu^i antepassados havjarp ~ nunca 
descoberto um navio, ^(^h,m, 9 n|a.r; . , ^ar,^ci,^-lhes 
cousa extraordinária, ver hppieí??, i^jr^pcp^^tp en- 
tão» nunca vi:>to^,i>.'aq^;çlla^, ,regi5e^>e Jj^ãpi^pi^pp^, 
se admiravam 4)Qíjrírajp Me.fedamostí^j^e ,çjfi^ 

I Nareg. de Liiis de Cadamosto, na Collecçdo de noti- 
ci^^çi^rra aj\ist. e^eo^r-.das naç. uUram, tpm. n, pag- i- 

3 Naveg. de Liii^ de Cadamosto, etc, pag. 20. 



1()8 VARÕES ILLUSTRES 



alvura ' do ' séu r osto^ . Não i$em f impossível 
(fà^-^ênóVezes e venezianos, entre"íl><S^ilaefe s-e 
níèttítlrá^ám os primeiros navegadoítes-dò 'Me- 
dfterl-íánco, os mais hábeis, peritos e arrojados 
nás emprezas naV^é^- e- mercantis, guian-db-^se 
pela '-' auctoridàde dos ^ aiitigos e peias incertas 
noticias, que vagavam na edáde média acerca 
do tenebroso mar e da costa africana alem do 
Bojador, se lembrassem de afírontar os perigos 
do Atlântico em demanda das marávilb^osas (ie- 
giões, onde, segunáo- a. crença vulgar, â natu- 
reza derramara da slTa inexhausta cornucopia 
o oiro cubicado. Mas de todas estas nave- 
gações, se foram emprehendidas, de nenhuma 
volveram os infortunados viajantes. 

Se as pretençÕes dos genovezes e catalães á 
prioridade nos descobrimentos africanos estão 
hoje tão debilmente documentadas, que apenas 
merecem consideração, ainda menos offensivas 
d!a^''tkissàs glorias marítimas são as suppostas 
navegações e estabelecimentos mercantis dos 
normandos na costa de Guine, durante o século 
XIV. A ii^sefção, desajudada de qualquer teste- 

I Navcí^-. de Liii:^ de Cadamosto, etc, pag. 46. — Ibid. 
pag. 02 e 71. 



VASCO DA GAMA K)() 



miinho. (Contemporâneo, de que certos marcan- 
tes de E>ieppeM3e.hayiaín adiantado aos nossos 
primeiros descobridores, foi tão victoriosamen- 
te confutada por um portuguez eminente inves- 
tigador da historia da geographia ^ e por um ex- 
trangeiro imparcial^, que apenas alguns escripto- 
res franceizes: ; ainda hoje timidamente se aven- 
turam a memorar ou a defender a supposta prio- 
ridade. 

Quando eram já decorridos mais de três sé- 
culos depois de consagradas, pelo consenso c 
admiração de todo o mundo, as glorias portu- 
guezas, é então que em 1GG6 um escriptor nor- 
mando, mais cioso dos extranhos lauréis do que 
zeloso da verdade, Villaut de Bellefond, se apre- 
senta a revelar as emprezas marítimas dos seus 
compatriotas,assignando-lhes o principio em 1 364, 
em que se diz fundada na costa de Guiné a feito- 
ria ou estação commercial de Petit-Dieppe. De- 
pois que o viajante francez na costa occidental 



• Vise. de Santarém, na sua obra Rccherches siir 
la découveriè aes pays situes siir la cote occideutalc d' Afri- 
que, Paris, 1842. 

2 Henry Major, The Life of Pr ince Henry, surnamed 
the navif^ator. Pref., xxiv-li, 117 e seg. 



200 VARÕES ILLUSTRES 

ÍOI AM AO AíJ ODSAV 



de .Africa tivem dada a estampa a sua relação, 

vanps escriptores francezes èem adduzir docu- 

■unnr>']T7'j -.-Mi -lo/íioi o rrtoj í;í-[ii;r: ,:íiv ;••, -(ovíj} . 



mento 

SC 



to algum substancial e contemporâneo, pro- 
guiram corn egual pertinácia e falso patriotis- 
mo eni^ asseverar dosmaticam.ente, seguindo ou 
copiando a Villaut de Rellefond, que os nave- 

gantes de JJieppe . e de Ruão . antes aos .por- 

prí f.aòíTnínBra íovor; giGrnyb ?n}j j3i5ííori 



^nop. rnBic: 



tuguezes, .haviam madrugado, 

>jMb ffioJ .soJríDmncioj^^ííj ^(jb^^jnog i;rT oíjpjluPDn 
os . lances . e , tormentas do Oceano tenebroso. 

Desde Elbee passando, por de la Croix, Masse- 

<n\'y\qm') c^phnuYí -/;b^oíornn'fq .viiM-jn-jH '.qi:' 
ville, ò padre Labat ate p jerudito Estancellm 

'OTfrorrn-rhO^-yr "'^líIJo í;rí <U\'/ . mk-^í:;; f;ij^ );í;. 

110 século presente^ as rasões, em que se estriba 

-iiííjjí^^i; ^jf^jp iro ojlno^., ;;rfK)fr oi^tj ín/^jtj-i^fn í)up 
o íalso patriotismo, reivindicando para a Franca 

. ., , .«.'iifOfí::>fjr' í;n /í/jb Bljg B glfii 

a prioridade e autoria, nos descobrimentos am- 

canosj sao apenas, na completa ausência de pro- 

:ir; i;in ■<<) vf/ om ;f)^ o '>ríf;ri;!b i;; Wy!^ cnra7f;r{ 
vas documentaes, as conjecturas cerebrinas ou 

os erros chronologicos. Úm geographo francez, 
nosso contemporâneo, n'uma obra consagrada á 
historia da geographia, proclama apenas como 
dogma de fé, como sendo superior á demonstra- 
ção c á prova experimental ou deductiva, p fa- 
cto de que Qsdieppens,q^,je|Ti verdade se haviam 
antecipado já em i 34G nas difficcis navegaç5es 
da costa de Guiné. E, porém, tão diminuta para 
elteá^^ihíjilirtàhòía d'éstè feito dá'sua flà'ôãcy,-gi:^fitt^ 
dioso e memorável se lora coniprovadô, dúé ápe^ 



VASCO DA GAMA 20 



nav 



nas lhe consagra algumas linrias. E por conciliar 

-uoob ijxubbí; [n''^^ ^Dxtjjíijvií btJionin-jríD ri(ii']íw 
o favor a sua pátria corn o louvor die extrannos 
o'iq .(jorií/ioarni^irio:) d liinriíjJadua rniJí^bi ojn-jrn- 
ivegadores,. como quçm tem em pouco preço 
^iiorgoq o«ljií tj iAjBnUvjq ílu-^d snco nurÁuilo^ 
no meio. ae tantas glorias verdadeiras mais esta 
MO ofjqiíiooí olírjfinrjíJiirrmgb ií;pvDgaji_a-íy om 
folha de murei, accresçenta desde logo: «Mas es- 

tas navegações do século xiv, que escaparam a 

notiííia dos demais povos maritirnòs, ficaram sem 

'\vyuA[i(yú\n j/u^q (_>bi>^u'ibi;ríj í:íi;í ;j.(í„<lk\l;Uj^ijj 
resultado na serie qos descobrimentos. Lom elias 

-o><rId^í!'jJ cfij^u^U <>b >.i;Jiíi>in !'\i , :■ . ^o^/Hj.Í . -:o 
nao padece o. mínimo desdouro a gloria do prm- 

:j>c<Ah ,.^Kík) <■! ^)b '(Oq (jbní;r^>Jia D^dl}! 'Jhi-jO 

cipe Henrique, promotor das primeiras emprezas 

rrilkorriJ>.-t nnf-iJLi ", ^Jn JíÍ:Ií..í -jiIji.q n ...... 

da sua nacao . . . Nao ha outros descobrimentos. 



que mereçam este nome, senão os que assigna- 
lam a sua data na sciericia'». 

Mais bem mimosos da lortuna parece, poreni, 

--o'iq -jb j;ivJ!i>-^iJ/; Li'j\funo'j Lfj .ii;ni;qj; oiid .rfoajij 
haverem çido ja duranje o século xiv os mariti- 

uo .<AnnO'j\:.j yi^iuVjiJiíUYj ?a\ ^;^i;lrtyfqfjaQb o// 
mos exploradores, partidos ae Portugal. £.m la- 

.Xíjjjii;";! ■'rlnj;-i;-^.íjo ,rn J ^oú^^íoI.. í-m; ^íf: >i/r!j ^o 
ce de documentos, que se afiguram insuspeitos, 

não ê hoje temerário o a dm ittir que já antes 

ir: - -jjfioqfj i,míjbo'iq fBÍfíqxi'i§03^ x;b SAiord 

)bn38 ornoj 

^, ;. •;: .!,L'jl -. i-Jnorni-jpq/.a i, /ui'.'^ .., , .,.. 
I «Mais ces navigations du xiv siecie, inconnues aux au^ 

tres nations mántimes/résterent saris VesúhátspÒ la 

suite dos découvertes;'la gloire du prince Henri, pronio- 

teur desipremières entreprise? dt sa iiatlDn)(n'e9.-r/eçQJf. 

aycune atteinte . . , U n'y a de découvertesréellesque çel- 

les qui prcnnent date dans la scieqce.» Vivien de Saintr 

Martin, Hist. de la f[éof^.^ pag. 3o6. 



202 VARpES JLLUSTilES 

• 

dp .i,?44 navios pp^iugueze3 .toja^fítJesgoberto 
o f,^chip,(^lago da^ .Qíliiariasw ph irr\n\n7j n sr^ 

,,jÇ, sajt),i40] ,que (jyuiz.dp Hespanha^iiieto lio inr 
fa,]3ff(,>(fl^ ^Gp.,stel(ia,I). P<^nando:e bisneto de el-rei 
Dj.fA,fl<píisp, ÇQgnpjaaii-iado o sábio, achando-se em 
Aviphão, onde tinha, então a , çôrte pontifícia o 
pap^jClçmenteiVI,. alcançou da sua fácil aiuniíir^: 
cençia p djOn]ii>ip.Te,,iSol;)er^uiia d^is ilhí^^iíAfQrtjJh 

cijPi^yd^. fçrtuf^a. ^arlli^jçQ^istituido o principado 
cm^-feviido.,dgL §an]t%Q^^ome(íiaAite,fi>/paganiento 
de quatróçentios florins dcfoiro de lei^ em nipeda 
florentina. E para que não ficasse em concessão 
infryctuQsa enqmjiiiaj f\ r^ay» lejnçerti^ soberania, 
esc^Tf ¥e^i^j,9r;P^pa ^i; 'muiíps/,cíop^,rei&: d-ai^bris^m. 
dade para que a D. Luiz dessem favor e auxilio na 
empreza de conquistar o archipelago. Mas o rei 
de Portugal,' qiíe então era Aflbnso IV, respondeu 
a Clemente VI em Úaa]^ historiando largamente 

'jn[-igr.u p' jnBJ8Íx3 aaioiupniqoTq if}; 

?,oh;o-'. -.orí btí :i-!rr^j./íd(T^ ''ÍFjiborrim" 

\}/[3iÇ^áQy ^iietnorias para a historia das navegaçòí^s e 
descobrimentos portugueses^ nas Mem. da acad^ tom. vi, 
part. I, pag. 49. Macedo assigna a data de 12 de fevereiro 
de 1345 á carta, que transcreve de Afíonso IV. Mas Raynal- 
do^.deç^ujíi obra copiou o documento, attribue-lhe a data 
de 1844. Ve;. Raynaldo, Annales ecclesiastici continuati, 



VASCO DA GAMA 20 



que nos aiinos passados maiidái^a suas gentes c 
navios a explorar as ilhas Afortunadas, ou Caná- 
rias. E mais dkfáW 'n1ÓnáT(ília'^^ que 
fora seu intento, depois d€^:eí' k^òlt^da à fifimei- 
ra expedicãõy o 'iéhviar 4 t:òri<í][tíista d^aqúellas 
terras grossa áfttíada.Dò qual propósito o inhi- 
biram as guerras, em que logo depois se empe- 
nhara èom os mouros éós castelhanos. A carta 
latina de D. Affónso IV foi elíti^ahida dos archi- 
vos do Vaticano e publicada pelo oratoriano 
Odorico iRâynaldo ttâ continuà<;ão dos Aniíaes 
ecclesiasticos á6 càrdéál Cesár B'átòfliò'^ Se 
houvéssemos de prestar inteiro credito ao anná- 
lista e tivéssemos certeza absoluta de qúe o do- 
cumento poiíeile publicado seja aúthentico C gc- 



pa tíiz exj)re9samente o rei de Portugal: «nos vero ^t- 

tenderites quod pmedíctíe insulai (Fortunata') nobis plus 
quam alicui principi propinquiores existant, quaequc 
per nos posscnt eommodius subjugari: ad hoC óculos 
direximus nostne mentis; gentes nò^tVàs et nhvéstiliqucts 
nisulas accédentes tahi homines qiiani aWimalia et rcs 
alias per violentiam occuparunt et ad nostra rcgna cum 
ingetiti gáudio apportarunt». 

I Rainaldi, Annalcs ecclesiastici carditu Cães. Baronii 
continuaii. C>)lonia Agrippina, 1691, tom. iv, pag. 212. 



204 VARÕES ILLUSTR1<:S 



nuino, ficaria manifesto que já na primeira metade 
do século XIV os portuguezes tinham dado feliz 
começo ás expedições gloriosamente continuadas 
no século immediato. Poderia porventura arguii- 
sc que Raynaldo passou na commum opinião por 
demasiado crédulo e de critica fácil e pouco 
auctorisada. Não é porém plausível o presup- 
por que em assumpto, que nada importava á 
dignidade ou ao interesse da egreja ou do pa- 
pado e unicamente redundava em gloria de Por- 
tugal, forjasse um diploma e o estampasse como 
copia de original existente nos archivos pontifí- 
cios. Se, porém, se podéra contestar ao anna- 
lista a veracidade e boa fé, outro monumento 
podéramos invocar em favor de que os navios 
portuguezes visitaram as costas africanas antes 
de meado o século xiv. É um documento, que 
faz parte de um manuscripto original do es- 
criptor florentino Gio^'anni Bocaccio, o cele- 
brado auctor do Decameronc, e foi publicado 
cm 1827 pelo professor Ciampi, de Floren- 
ça ^ N'aquelle precioso achado se contém a 



1 Monwnenti di iin jiianitscritto autografo di messer 
Gior. Bocaccio da Certaldo trovati ed illustvati da Sebas 
tiano Ciampi, Fircnze, 1827, citado por Macedo, Addita- 



VASeO DA GAMA 20 5 



noticia- de' úima '^xpçdkáoi i maival • saída de Lis- 
boa no i*^ de julho' dè"i^?4i', aparelhada por 
cl-rci de Portugal, cm demaáda; das- ilhas Gana- 
tíu», I que segundo-^' ákan-m^sGripto se diziam jd 
d''ãnte^ descoberias. Qonstciyiv ^(\uq\\sí frota de 
duas naus bem abastecidasid deuma embarca- 
ção de menor lote. Iam n^ella florentinos, geno- 
vezcs, castelhanos c outros hespanhoes, que 
assim n\iquelle tempo genericamente se nomea- 
Varh todos os naturaes da Península hispânica, 
ou fosâem porti^guezes, castelhanos, ■ aragone- 
zesiou catalães. Em riovembro do mesmo an- 
no estavam os baixeis de volta a Portugal, tra- 
zendo quatro indígenas e vários productos das 
ilhas Afortunadas ^' Da narração compendiada 
no manuscripto latino de Bocaccio, segundo as 
novas, que de Sevilha transmittiam a Florença al- 



rrtèiitfyS \d primeira parte da memoria sobre as verdadei- 
ras epochas, em que principiaram as nossas navegações e 
dascobrimentos no Oceano Atlântico, nas^V<?m. da acad. 
real das sciencias de Lisboa, tom. xi, pag. 1 77 e seg. 

I Macedo, Additamentos, etc, pag. 178-179. Macedo 
transcreve o manuscripto latmo de Bocaccio a pag. 220 
e 22 5. O ms. tem por titulo De Canária et insulis reliquis 
idtra Hispaniam noviter repertis. i m 



206 VARÕES ILLUSTRES 

guns mercadores doesta republica ali domicilia- 
dos, consta que a expedição navegara sob o 
mando de Angiolino dePTegghia de^Gorbizzi, 
florentino, levando por capitão de outro navio 
a Niccolozzo da Rcccho, genovez. Se o teste- 
munho de Bocaccio se ha de ter em grande 
conta, podemos concluir que se navegadores ita- 
lianos dirigiram a expedição de 1341, foi ella 
comtudo emprehendida por, ordem e a expen- 
sas do rei de Portugal, e que entre os hespa- 
nhoes, hispani, de que se faz menção no docu- 
mento, iriam certamente portuguezes, sendo 
Lisboa o porto, onde a frota se apercebeu e ap- 
parelhou. 

De que na Peninsula se conservavam tradi- 
ções de navegantes, que tentaram a exploração 
das costas africanas occidentaes, parece dar 
indicio o chronista Gomes Eannes de Azura- 
ra, quando referindo os tentames dos primeiros 
mareantes portuguezes, enviados pelo infante, 
escreve : «Nunca foe alguG que ousasse de pas- 
sar aquellc cabo do Bojador pêra saber a terra 
daalem, segundo o ilVante desejava. E esto por 
dizer verdade nem era com mingua de fortelleza 
nem de boa voontade, mas por a novidade do 
caso, mesturado com gceral e antiga fama a qual 



VASCO DA GAMA 207 



ficava ja antre os mareantes de Espanha, caasy 
per socessom de gceraçoõesK 

Doestas palavras poderia inferir-se, ou ao me- 
nos suspeitar-se, que desde largos tempos um 
ou outro navegante da Península hispânica, e 
principalmente de Portugal por mais visinho ao 
Atlântico, tivesse emprehendido a navegação 
ao longo de Africa, volvendo logo sobre seus 
passos, demovido pelos perigos e terrores do 
Oceano. 



' A7Airara, Chron. do descobr. e conq. de Guiné, cap. xviii, 
pag. 5o. 






l/^ W 



Up ííO OBOl 






CAPITULO XIV 



AS NAVEGAÇÕES E DESCOBRIMENTOS 

PORTUGUEZES 

DESDE O XV SÉCULO ATE VASCO DA GAMA 



Por meio destes hórridos perigos, 
Destes trabalhos graves c temores, 
Alcançáo os que são de fama amigos 
As honras immortaes, e grãos maiores. 
Camões, Lusiad., vi, 95. 



Dc quanto deixámos enunciado podemos con- 
cluir que antes das navegações e descobri- 
mentos emprehendidos pelo infante D. Henrique 
tudo o que se refere de viagens realisadas por 
navegantes christãos e europeus alem do cabo 
Não, sem exceptuar a que apparece consagrada 
pela epistola de D. AfFonso IV ao papa Clemen- 
te VI, é de tal maneira incerto e nebuloso, 
firmado em tão débeis documentos e memo- 
rias, tão enfraquecido por duvidas e contradic- 
ções, que em nada pôde escurecer e oHuscar 



10 VARÕES ILLTJSTRIÍS 



O grande facto, de que só com os portuguezcs 
se abriu e inaugurou no século xv, na historia 
da moderna civilisação, o seu capitulo mais glo- 
rioso e mais fecundo em maravilhosos resulta- 
dos. Pode ser que uma ou outra galé de algum 
povo navegante do Mediterrâneo saísse alguma 
vez as columnas de Hercules, tentando anteci- 
par-se nos caminhos marítimos do globo. Mas 
todos esses tentames, se porventura aconte- 
ceram, ficaram occultos e perdidos na sombra 
das emprezas infelizes. E pôde dizer-se com 
verdade que antes dos famosos descobrimen- 
tos portuguezes a historia das navegações ao 
longo de Africa é tão escura ou fabulosa, co- 
mo era tenebroso e povoado de mystcrios o 
Oceano. 

Até ali dominava absoluta na geographia e 
nos annaes das navegações ultramarinas a lenda, 
o romance, a mythologia. É com os portugue- 
zes do século XV que teve seu principio a histo- 
ria authentica, documental e genuina. 

Gomo nasceu porém no espirito de Portugal 
esta generosa e incessante aspiração para as 
terras afastadas e para os mares desconhecidos? 
Não foi certamente a influencia das rodas celes- 
tiaes ou dos planetas, segundo a crença astrolo- 



VASCO DA GAMA 2 I I 

gica de Azurara', nem a divina inspiração, se- 
gundo a menção dubitativa, meio sceptica de 
João de Barros 2, quem inclinou o animo empre- 
hendedor e bellicoso do Infante D. Henrique a 
intentar e proseguir a exploração das costas 
africanas. As navegações dos portuguezes, ainda 
que originaes e espontâneas, eram todavia a 
consequência necessária da particular situação 
de Portugal, das suas relações agora mais que 
nunca frequentes e animadas com a Africa se- 
ptentrional, do conhecimento e combinação das 
noções embora vagas, proveitosas, que a anti- 
guidade transmittíra c que o renascimento das 
letras clássicas tornara mais vulgares aos espí- 
ritos selectos e das noticias c informações colhi- 



1 «Mas sobrestas cinquo rasóes tenho eu a vj (sextn) 
que parece que hc raiz donde tòdallas outras procedem 
c isto he inclinaçom das rodas cellestriaes. . . Porem vos 
quero aqui scrcver como ainda per pungimento de natu- 
ral inlluencia, este honrado principe (D. Henrique) se in- 
clinava a estas cousas.» Azurara, (J/iron. do dcscnb. c conq. 
de Guiné, cap. vii, pag. 48. 

2 «Alguns quiserão afhrmar, que como era principe ca- 
tholico e de vida muy pura e religiosa,' esta empreza 
mais lhe fora revelada que perellc movida.» Barros, De- 
cãd. I, liv. I, cap. II, 



2 12 VARUES JLLIJSTRES 

das entre os árabes, depois que a praça de Ceuta 
fora das armas portuguezas subjugada. A contí- 
nua e fructuosa applicaçáo do infante D. Hen- 
rique á cosmographia é attestada pelo veneziano 
Cadamosto e por João de Barros, que attribue 
como fructo a esta sciencia, cultivada pelo gran- 
de promotor dos nossos descobrimentos, o ter 
a coroa de Portugal o senhorio de Guiné e os 
demais titulos, que mais tarde lhe accresceram'. 
Minuciosas perquisições effeituadas com extre- 
ma diligencia e perspicácia precediam as primei- 
ras navegações dos portuguezes ao longo das 
costas africanas no Oceano. Alem de que D. 
Henrique aproveitava o que os antigos e os es- 
criptores da edade média escreveram e especu- 
laram acerca da geographia, colligia com singu- 
lar curiosidade quantas noticias lhe podiam advir, 
interrogando os que tinham viajado por diversos 
territórios, principalmente pelo sertão de Africa. 
Era assiduo em inquirir dos mouros africanos 
quanto sabiam a respeito das regiões que de- 
moravam mais distantes do reino de Marrocos. 
Por elles alcançou valiosas informações sobre 



Barros, Decad. i, liv u, cap. xvi. 



VASCO DA GAMA 2l3 

OS árabes, que habitavam nas cercanias do Sa- 
hara, e dos povos tjiíè^^éstanceavam nas ter- 
ras 'de -Guinés Se confiamos nas palavras de 
um navegador contemporâneo, Diogo Gomes, e 
nas de Jeronymo Munzer, o infonte D. Hen- 
rique sabendo que o bey de Tunis mantinha 
commercio c permutação com os paizes inte- 
riores do continente africano, principalmente 
com Timboktu, mandou a Tunis seus pró- 
prios emissários, e colhendo satisfactorios es- 
clarecimentos, se resolveu em tentar pelo Ocea- 
no o que os tunisinos por meio de suas cáfilas 
realisavam no deserto-. Os venezianos tinham 
fundado feitorias em Tunis e celebrado com 
o sultão Monsaid um tratado de commercio 
e d\aquella cidade encaminhavam suas carava- 
nas ao interior do continente^. É possível que 
o infante para completar as suas inquirições 
aproveitasse o que doestas jornadas terrestres 



1 Barros, Dccad. i, liv. i, cap. ii. 

2 Ilieronym Munzer, De invcniione Africae mcridiona- 
lis, pai;, (k), cit. cm Pcschcl, Gcsch. des Zcitalí. der Knt- 
deck., pafí- 72. — Diogo Gomes, em Sehmcller, Valentim 
Fernandes, etc, pag. 19 e 21. 

^' Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Kntdeck., pai^. 5(). 



214 VARÕES ILLUSTRES 

e mercantis podesse de Veneza derivar. D. Hen- 
rique tinha, ao que parece, nos portos da Bar- 
baria entre os próprios naturaes alguns, com 
quem mantinha correspondência e de quem re- 
cebia apontamentos sobre assumptos relativos 
ao interior do continente ^ Ao passo que os des- 
cobrimentos se iam adiantando ao longo das 
margens africanas, nos saltos e incursões po- 
diam os navegantes haver á mão alguns indi- 
genas e os traziam a Portugal. Interroga va-os 
o infante, para d'elles alcançar novas noticias, 
ou corrigir e additar o que de outras fontes 
lhe constava acerca das terras africanas. E com 
estas informações lhe era possível indicar aos 
seus navegadores, quando de Sagres os despa- 
chava, o que em certos pontos do litoral, ainda 
não explorados, haveriam de encontrar-. 

Não podemos sem oílender a boa critica, c 
por exaggerar absurdamente as glorias portuguc- 
zas, contestar que o infante, ao começar a sua 



1 Diogo Gomes, De prima inventione Guineae, ed. Sch- 
mellcT, nas Mcm. da acad. das sciencias de Mimich. ií^3S 
pag. 21. 

2 Azurara, Chrou. do dcscobr. c conq. de Giiinè^ cap. lx, 
pag. 278. 



VASCO DA GAMA 2l5 



cmprcza, de quantas cartas geographicas produ- 
zira a cdade média, houvesse consultado as que 
lhe podessem vir á mão. Não é crivei que tão es- 
tudioso inquiridor das cousas de Africa cifras- 
se apenas em Strabo ou Ptolemeu tudo quanto 
lhe era útil aproveitar em relação ao Atlântico 
e ás terras africanas. Acerca do interior do con- 
tinente ao sul do Sahara servir-lhe-ía porven- 
tura a carta catalan de iSyS, na qual já vem 
assignaladas as cidades de Timbuktú e de Mel- 
li, e uma região já conhecida pelo nome de Gui- 
nea'. A configuração da Africa austral appa- 
recc já delineada com alguma, posto que mui 
grosseira, approximação á forma verdadeira do 
continente, n\ilgumas cartas da edade média, 
principalmente na de Marino Sanuto, de i32o. 
De todas as cartas porém a mais exacta c a 
que melhor poderia adequar-se aos intentos de 
D. Henrique seria a do portulano da bibliotheca 
laurenciana de Florença, publicada em 1827 
pelo conde Baldelli Boni, assignando-lhe a data 
de i35i, SC porventura em presença dos repa- 
ros e objecções do visconde de Santarém, é 



1 Pcschel, Gúscb. dos Zcitalt. der Kntdcck.. png. 5o^ 



2i6 var5es illustres 



plausível ^admittir qtiè èète^móilúillentb^cárto- 
graphico é anterior aéá nossos primeiros desco- 
brimentos africanos K Se o infante porém tíotíhc- 
ceu e aproveitou as cartas mencionadas, a qiiie 
o infante D. Pedro trouxera de Veneza, oti' -a 
que, segundo o testemunho de Galvão -, eícistiti 
no mosteiro de Alcobaça, sempre íica manifesto, 
que nenhuma d''ellas, ainda que prestando cla- 
rões débeis ás noâsàs expedições, poderia' aS- 
signalar c dirigir as derrotas dos nossos ma- 
reantes atravez de mares de $corih(3 eidos e ainda 
virgens de ousadas navegações^. 

Que nos prinieiros tempos dás nossas náuticas 
façanhas não eram os portuguezes, d^entre todas 
as gentes navegadoras, os mais experimentados 
c professos na scienCíít-è!''Urte de navegar, o 
testifica a notável circuittstánòia debique' í)^fí en- 
rique attrahíra a grande cu$'toã^ 'Portugal o" 
malhorquino mestre. Jacome pára èhsíiictr sua 
sdeucia aos o ffidáes portugueses ^d-'aí]'/fellí' mes- 



1 Vise. de Santarém, liisl. de la Cost)u et de la Cario- 
gr.,, m, pag. 70-74. 

2 Galvão, Trat. dos descobrimentos,: 

3 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., pr.u. ^ , , 



VASCO DA GAMA 217 



ter}._, Op;çataláes eram por aquellcs tempos no- 
táveis navegadores no Mediterrâneo. As cartas 
marítimas eram tão vulgares n'aquelle povo, 
que já no século xiv todas as galés de Catalunha 
eram por lei obrigadas a trazer a bordo dois 
exemplares d'aquelles mappas-. 

Se bem os portuguezes não fossem, d"entre to^ 
das as modernas nações marítimas, durante a 
edade média os mais insignes na cosmographia 
e navegação, na qual se lhes avantajavam certa- 
mente os venezianos, genovezes e catalães, não 
se pôde constestar que o seu poder naval foi 
desde remotos annos mui crescido e accommo- 
4ado ás emp rezas militares e mercantis. Os do- 
cumentos e as chronicas attestam a cada passo 
que a marinha portugueza já desde os tempos 
de Sancho II se distinguia honrosamente, quan- 
do nas grandes potencias navaes' dos nossos dias 
mal transparecia em ténues rudimentos uma ar- 
mada nacional. Os navios portuguezes, assim 
como os hespanhoes, segundo a insuspeita affir- 
mação de um illustre archeologo na\al, sobrele- 



' Jiíuros, Decad. j, liv. 1, cnp. \\i. 
■> Lclcwcl, Gcoí^rapli. du moycn ágc, tom. u, pai;. 3;. 
oit. cm l^cschcl, Gesdi. der Erdk., pap. ic)3 

I'» 



2l8 VARÕES ILLUSTRES 



vavam em grandeza aos? das outras eaqõcs con- 
temporâneas ^ Em Inglaterra no tem;po de Hen- 
rique III os navios de guerra não- jôxcediam a 
lotação de oitenta toneladas?; Em tempos de 
Sancho II um grande navio píortuguez;; apresa- 
do por inglezes foi encorporado icomo um va? 
lioso subsidio na armada real de Henrique, 111?^^ 
Já n^aquelles tempos existia em Lisboa um arn 
senal de construcções marítimas, e o engenhei- 
ro naval João de Miona, que, parece todavia 
pelo nome não ser porventura portu^ws^Z^oMai. 
galardoado pelo rei AíFonso^..íIII .porque lhe 
havia construído uma grande nau^; E porém 
Diniz, o lavrador, quem pôde com rasãp ap- 
pellidar-se o primeiro e mais afortunado pro- 
motor da marinha portugueza. Parece que se 
os nossos nacionaes andavamiiíjái^tndureridps 
. -fjiiiJi^j coíL ouiàom Bbíúpi t) eonxjix\í)ri-j 

1 jal, ArcítMogtt návalè,PMs ífe4(j/"íi;-i>íigji3ld;>'i ' 

2 History of royal navy, i, 1^2-iii^. Londres, 1847, ^i~ 
tado em Prin^ Heinrich der Seefahrer und §eim i^^it (o 
príncipe Henrique, o navegador c o seu tero^o),.por| Gus- 
tavo de Veer. Dantzig, 1864, pag. 11. 

3 History of royal navy^ i, 18S. 

4 Quintclla, Annacs da marinha portuguesa, i, 1 7. Lis- 
boa, i83(j.— Brito, Monarchia lusitana, tomjiiK^Mv.,oi:vi, 
cap. xii. 



VASCO DA GAMA 219 



e afeitos ao -trato do Oceano, como o haviam 
denhònitraí^roi desde ajiíifaácia da nação, min- 
guavai^'elles em certa maneira o saber e com- 
petência para o mando supremo das armadas e 
para o governo dos navios. Porque n^esta edade 
v«iu servir a Portugal o genovez Manuel Pessa- 
gdò i ou iPessánha, a quem D. Diniz assoldadou 
pOr fáílmíraiite,! deolairando em sua geração here- 
riâditario o alto -officio, e impondo-lhe a obriga- 
çáo''ide' tep sempre ao serviço de Portugal mais 
vk\XQ genovezes para serem os arraises e alcai- 
des díis galés** Qualquer que seja a admiração, 
q'tté nos mereçam os nossos denodados e peritos 
navegadores na edade heróica dos nossos des- 
cobrimentos, é força confessar que nos tempos 
anteriores e ainda nos. princípios das nossas na- 
r€gáç6eá, Portugal reconhecia nos genovezes, 
venezianos e ainda mesmo nos catalães uma no- 
tável superioridade na arte de marear e no man- 
do das galés e das armadas. O contrato de 
D.' Oiniz: còtri o almirante italiano prova sem 
possível objecção que tal era n'este ponto o sen- 



I Quinteila, vl«Mae5 da marinha por tu gue:^a, iq.—M^- 
ccáo^ Additamèntos, etc, nas Man. da acad. real das 
scienciaSy tom. xi, part. 11, pag. 22G e 23o. 



220 VARÕES ILLUSTRES 



tir do monarcha trovador, , tão illustre imitador 

;■■!;:; -<■,;;;: Mj^q ' ;" Ml i'iíj flOÍI ! -■ -'j;;H[> ^Uíl 

da Ivra provençal como zeloso administrador c 

-"li- ^- .j .rj\ '^í^fUíií 'luq aoiJíiJfiííaojqDi líiur.) 

estadista. Mais tarde, quando eranirjá sazonados 

d'elles aprendêramos na infância das nossas 
aventuras. Fomos nós os que segundo. testemi^- 
nhos insuspeitos, mmisg;^s jos^^dçij^^^vc^s 

^ 'í?^fepE 4MÇ^8'if %S?^?^l^Ç.PÍ^fir 

feliz applicacão. Se o infante D. Henrique. não 
foi, como o assevera o clássico historiador das 
mathematicas, Montucla^, e^ antes d'elle p, affijç; 
mára o cosmographo portuguez P.iiiiep,^ç,l2^^o^^inj- 
ventor das cartas h3^drographicas pl^as^ e ^e 
o principio fundamental ^^(^^,.^uíj^^ Ç0jqs||:uçjj|0j,j^ 
encontra já na Geographia de P,tple^^}j^^^^,jqpio 
se pôde todavia contestar qvje,i,^,,njieditaç5eíS c 
diligencias do perseverante solitapioi do promon- 
tório sacro se deveu o incitamento para que se 



I Montucla, Hist. des mathémaíiqiies, p^^rt.jj;^ IJK^vJVj 

3 Stockler, Ensaio histórico sobre a origem e.progres- 
sos das matJwm. em Portugal. Pnrís, 1819, png. T02-T04. 



VASCO DA GAMA 22 1 



íJelineassem os mappas, até ali desconhecidos, 
nos quaes os meridianos e parallelos appare- 
ciàm 'i^épresentadós por^^I^^ rectas, onde a 
ciWvá traçada por urii nàviò, seguindo sempre 
o ffiesmó rumí^^^se podesse egualmente figurar 
por um traço rectilíneo*. E tao adiante dos 
ôtiiros poVos, ao sair da edaae mediâ, e ja em 
plena fenascèiTça, foram sempre em assumptos 
de navegação os porfuguezes, que a primeira 
ihvéstígaçáo dás propriedades da loxodromia, 
òú cíà" cWvÀ, descripta pelo navio, cortando 
os meridianos segundo o mesmo rumo, foi de- 
vida "à^^^èdrò Nuríes,'um"illustre portuguez, e 
um'dbs'rtiais celebres geómetras do século xvi. 
Foieguàlmenté aos portUguezes e aos hespa- 
nhoes que as nadoes maritimas deveram em 
grande parte o conhecimento das principaes 
corrente^ Miilas^:^^^^^'^^^ 
Forkril' ^'ortiigdéiès navegantes os que pri- 

rn^ítò' dbsíióbtóirám que' às 1^^^ isogonicas, ou 

- -j';:^ !í.'i ^ ■írí'jrf(/>Iijni < < ■: ,.■ 

1 Stockler, Ensaio liist. sobre a orif(. c prosar, das 
math., pag. io5. w.>\)^ , 

2 Pcschcl/Jesch.derErdk., introd., pag. xri. «Dic Kcnnt- 
niss der bctrachtlichsten'!Meeircsstromúngen vcrdankt- 



222 VAROtíSaíLH^STÍiÉS 

BiílífélM^têM cftteáJpuperid^â^do glaboné a mes- 
ma a declinação ou variaçãcriída. agulha 'jmagne- 
íitíâ'^' ¥íãò I Sâo^^íziliéiiilos^iméHdíándSj^sqnráxDí curVas 
'de ''fó!Mâ irrègulat' e dupla' cu^vatum*^' Assim 
tófàni ' pòrtLiguezes os que iniciaram' i .á serie 
de portentosos descobrimentos n^ésta' provinda 
da physica do globo, o magnetismo^' teirrestre^ 
fiâfeídâdáf ' tétí^Cr 'mmiCW^dJâsá^ o ap primeira- . caírta 
m^ghéúi^Úb éèlobradõí astronomoi Halley^ em 
f ^(56,' ' é''a de Hailstèbn de h 7 ^o até os trabalhos 
mais perfeitos de Ermann, de Barlow, de Hum- 
boldt, dé Gauâs, de Lamont, do general 'sir 
Èdi^aMiSabinédodeeulo presente. í)'í ma ombi: 
-jrí|^rfviziílhânçà''!d<2)sí;«lioui^os^ que infestavam as 
ítiDstaláideí^ Portugal, e a guerra, que com elles 
ií^azlalTiõs dempré accésa com ínaior ou menor 
-ííilfeilsidade já depois de libertado o nosso terri- 
todo, obrigava a qtíe andassem armadas portu- 
guezas cruzando os nossas mares, não só para 
guarecerem o paiz contra os saltos e incursões 
dos musulmanos, senão também para defende- 



■■rníP.uD mo d, oí .rn-jV, 

* Acosíãyhisloría mxlwaly inòraí ^h las lihiian, II v. i, 
tíap. xVii. — Peschel. Cescli. dcs Zeitalt. der Knldcck., pag. 



VASCO DA GAMA 220 



reiíi os navios nacionaes, que em trafico mer- 
came seiOGGupavam^.í 

Em tehipos de t). Diniz e talvez em reinados 
antecedentes, impendia aos judeus a obrigação 
de Gontribuirem com uma boa amarra para cada 
navio, que de novo se construisse para serviço 
das armadas ?'^íí3n^Brfi o ^,odoí^ ob BDizyriq j ■ 
jj) Eraoif^áin^^^quellti tempo extensas e importan- 
tes as {)esCarias nos mares de Portugal e longe 
d' elLes.nasr. costas, (^aiGtLinrJSrêit^ha e Norman- 
dia^l!. ob /7/ohr>fí sb .n^nm-^^ oo> 
' Bj!ni;i35'3 era já tão considerável o trafico ma- 
rítimo entre Portugal e a Inglaterra, que as ci- 
dades do Porto e de Lisboa celebraram um tra- 
tado de commercio com o rei Eduardo III K Já 
em tempos de Alfonso IV e de D. Fernando os 
portuguezes das costas do Algarve^ se aventura- 
vam ocom fervor á pesca da baleia. Era tal o pro- 

i- Quinteila, Ahnaes da marinha poriugiic^a, pag. 21. 
? João Pedro Ribeiro, Disscrt. chronolog., tom. iii, pag. 
<ji c seg. 

3 Quintella, Annaes da marinha portuf^iia^a, pag. 22. 

4 Rymer, Foedera, tom. iii, pag. 264, citado cm Gustav 
de Veer^ Prmf Heinrich der Seefahrer, pag. 3i. 

5 Constantino BotcUio de Lacerda Lobo, 3/e;;;orm so- 
bre a dccadcncia das pescarias em Portuf^al, nas Memo- 



2 24 VARÕES ILLUSTRES 

r. '-' A í/i Aí) AO. 00c:/ ' . _ 

gresso c o luzimento da marinha mercante por- 
ttígiiie/.a J qèe 'o' réi D'/'Fèmári^c^,^èíit'f 8^¥Más' pro- 
vídeiiéias éíh t>'èhefitio do'trafi'co MVdl, débretòu 
em: Lisboa a primeira instituiçao^dè s^gutos ma- 
riititnosi^^qii^-M" Eút^él|)a''se estabeleceu*: Eni s^u 
pdtiaídGí^^~^e>'táfpg)ar<élh5i4' tittk^â^í-mada cerfárriente 
iTiúi grôs^àl|3Mrá"títibéll^ t^kipòMi'á'(^uá^ 
dG'\íili*é'é \3liná' gèi\é^l,^'^ktró naus e tiriíá galeòta, 
com seis mil homens entre marinheiros e soldados 
para que ao mando do conde de Barcellos fosse 
ao encontro cía esquadra castelhana ^ N^este rei- 
fiado, que nao íoi certamente dos mais felizes e 
dos que melhor abonassem a monarchia, o por- 
to de Lisboa tinha ia um movimento considera- 
vel e nas suas aguas se contavam em muitas 
epócfias do anno mais de quatrocentas embar- 
cações afora as que somente navegavam pelo 
Te)o\ A famosa expedição Contra Marrocos e 
a tómãda^de Ceuta, principio e berço de todos 

Tõh l.i;rinfbii')rn oToxuiiQfcrnt .arr oii^Jsí^b 

r/í?5 económicas da academia real das sciencias de Lisboa, 
tom. IV, pag. 33o. 

,),i Fçrnão, Lppcs^ .Clmmica de D. Fernaudo, cap» xc. 

rn ;^i'^Q$mOj\çiç>mpQ\rpnkaf4£íiD^xFmmando)^íca^. cwiv- 

çx]íy;í*(i '3 Tcrn ob o^i/jq orr oinfit 'TB'}(Oí2n9 9? n ?ob' 
3,Peschçly iGescÂ. des Zeitalt. der Entdeck., pag. 45. 



VASCO DA GAMA 225 



os ^çscobriinenl;os.fÇ;,faç£^n|has navaes .dos poií"? 
tugue/^ç^^, jlO^Qu,,^,^ : JpftQ,iJ,i-jj|i>^ ,açmftjia; ,tóQ 

ha,ç^í:,^z^,il(?,,ç^RÍP .çjpg i>fi>íÍP^w.4r|)r(èvaMfel;q"í*Q 
não^jlf^^^eg^j ^pierp^^í^q^ díjijcpj^nta ;g^lé^,;>e; . j^inta 
"a^jÍLil^ii5Í9s^ií^íVyÍ9ftiíí?j§npí;ç^ ír^spojj^ 

^^hvAjlo^- '^ r',(/íit>flníicfn jiint^ fefiL>mòfl lirn ^íJ?, rncrj 

No pnnciDip ,de, suas .maridmas emprezas 

^■:<<)t <rii\\tiyir.a ob sbnoo ob 'obn/jm ímí oup in/^q 

eram ainda os portuguezes tão pouco . experi- 

1)1 ol^-j /. .^:jr'.í,ni-;j':;T i.jbcijjjrío íí> 0'1'rMoj.r. -; 
mentados e scientes na navegação do alto niar, 

que as suas singraduras as faziani çpsèndo-se 
com a terra sem nunca se aventurarem a perder 
de vista o litoral 2. E verdade que eram ainda 
muito menos afoutas aos perigos do Atlântico as 
outras nações navegadoras. As falsas , opiniões, 
herdadas dos antigos e cada vez mais forte- 
mente roboradas pelas superstições geographi- 
cas da edade media, exerciam a principio o seu 
mfluxo deletério na imaginação meridional d(^s 



» Quintella, Annaâs da marinha portuíj^ue^a, i, pog. 26. 

2 «E como os marinheiros d'aquelle tempo não eram 
costumados a se ení^olfar tanto no pego do mar c toda a 
sua navegação^era^por 'Sahí3[raduras sempre' 4' -vista de 
terra . . .» Harros, Dccad. i, Ijv. i, cap. 11. 



226 VARÕES ÍLLUSTRES 



navegantes portuguezes, os quaes ao tentarem os 
caminhos do Oceano o phantasiavátri''Jl)ovó'ádo 
de perigos e de terrores, inlpérvioe in navegável 
ainda aos mais ousados mártilheiro's^. Acredi- 
tavam com os antigos e com os mais illustres 
sabedores da edade média, que a Afriôâ^ihfer- 
tropical era deserta de gente e vegetaeá 'iè 'qiièf 
as aguas do Oceano pela exigua profLiri(íe^ái''a 
pouca distancia das suas margens, ríão dariam 
logar á navegação^. -'^ ^^^P ^i^^^P'^ 

Ao passo que os mareantes portugútféS^se 
iam adiantando nos caminhos do Oceano e áffa- 
zendo-se mais e n^iais á bràViezk' 'das 'témpeéta- 



1 Barros, Decad. i, liv. i, cap. h. «Concebiam que o 
mar dalli por diante (do Bojador) era todo, âparcellado e 
que esta fora a causa, porque os povoadores d'esta parte 
da Europa não se entenderam a navegar contra aqueíías 
regiões.» 

2 «Isto he claro, deziam os mareantes, que despois destc^ 
cabo (o Bojador) nom ha hi gente nem povoraçom algua ; 
a terra nom he menos areosa que os desertos de Lil\va, 
onde nom ha augua, nem arvor, nem herva verde; e o mar 
he tam baixo, que a húa legoa de terra nom ha de fun- 
do mais que húa braça. As correntes são tamanhas^ que 
navyo que hi passe, jamais nunca poderá tornar.» Azu- 
rara, Clivou, do descob. e conq. de Guine, cap. virr, pag, 5i. 



y^^.ívA^ç^fjif, 227 



dçs, ia crescçndpia, sua perícia., Ks5|is, i\\íep,t,U7 
reiij'.(;)s, porén-x,. , ^ua^i ^i bisonhos ^ j^^vegaçijt^ç^, , ^xji^ç 
^^r^íÇrRFs i B W^ifríf^u te;3;ipp5 , fi^j.sya^ ^jBWf^ 
çpes ^remianx a;ssonil?rad9?i,;.4wi^^!i^;{4o ^ç^^j^^^ 
Boj^çlor, .qUfin^o er.^m apenas,. dççof^idps^.pc^^^ 
co.$,,aníios. )á sabiam aCfibar tãq jasigne ffeii^, 
qual era o de A3Tes Tinoco, o qualtendp ^pf^i^js 
çonisigo qviatro gruigetes,^ volvera .desde; a Çal^o 

depois que Nuno Tristão perex;êr;fiT4,S;^ãps,j4Q?í 
negrosj^:^,^^ ípajjp^jjpafte da tripulação do seu 
nayio^.^^f 1^,^30 ^^^^ ^iorínirii jbownBibii ítií;í 

A sciencia fnayal dos» portuguczes: acompanha- 
va agora a sua audácia. Bem depressa foram 
elles os primeiros navegadores de todo o mun- 
doií-f&í^iwãô-^^ê-^afa assombrar qué^^as deíliais 
naéfee^ tiMitMá' 'da' Èiilrò^, (^miidòíriMtM 
seguir e imitar as aventurai portuguezas ijas 
costas africanas, venham a Portugal buscar pilo- 
tos que os encaminhem na^ sendas proccllosas, 
domesticas e familiares aos portuguezes, ain- 



rriofr irnsl 'j[> í.ov.á i úíÍ 



1 Azurara, Cliroih do descob. e conq. de (jiiinê, cap* 
tini Fernandes, -p-^u,, 2 f>. "^ • 



228 VARÕES ILLUSTRES 

da tenebrosas, quasi impervias aos extranhos^ 
Os hespanhoes, que á porfia com os portuguc- 
zes inscreveram nomes immortaes nos fastos 
geographicos do mundo, no começo do xv sé- 
culo ainda mui pouco se distinguiam pela 
sua perícia como navegadores do Oceano e no 
próprio Mediterrâneo não ouravam das costas 
alongar-se^. O exemplo e emulação dos seus 
vizinhos estimulou-os nobremente a que com 
elles mais tarde participassem na gloria dos 
maravilhosos descobrimentos e no império das 
novas regiões -\ A tal ponto de perfeição tinham 
levado os portuguezes, amestrados pelas tor- 
mentas do alto mar, a construcção dos seus 
baixeis, que já Cadamosto, o navegador vene- 
ziano ao serviço do infante D. Henrique, di- 
vulgava pelo mundo o serem as cara\ellas de 
Portugal os melhores navios d'aquelle tempo L 



1 Vise. de Santarém, Rcchcrches sur la découvcrtc, etc, 
pag. 181-182. 

2 Pescbel, Gcsch. dcs Zeitalt. der Entdeck., pag. i('>o. 

^ Peschel, Geíc/í. dcs Zeitalt. der Entdeck., pag. 161. 

I .l.s' navegações de Luis de Cadamosto na (Mllecçao 
de noticias para a hist. e gcogr. das nações ultramarinas, 
publicada pela acad. das scienc, tom. ii, pag. 3. 



VASCO DA GAMA 22() 



Nem admira que o americano Prescott, por- 
ventura o primeiro historiador do nosso sé- 
culo, escrevesse dos portuguezes «que elles 
foram os primeiros que entraram no brilhan- 
te caminho dos descobrimentos náuticos» ^ 

O eminente geographo allemáo, Oscar Peschel, 
entre todas as nações marítimas nos concede 
com rasáo a palma de preexcellentes e proclama 
que foram os marinheiros portuguezes na epo- 
cha dos nossos descobrimentos os mais intrépi- 
dos nautas do seu tempos 

Se o-s genovezes tinham ensinado outr^ora a 
Portugal a arte de marear, quando as navega- 
ções no Oceano se limitavam ás costas europeas 
ou aos mares da Barbaria, Colombo, o mais il- 
lustre navegador italiano, em Portugal e de por- 
tuguezes aprendeu em grande parte o que de 



1 «The portuí^uesc were thc lirst lo cntcr on thc bril- 
liant path of nautical discovcry.» Prescott, Hist. of Fcr- 
din. and Isab., tom. ii, pag. 112. 

2 «Unter seiner Leitung (do infante I^. Henrique) wur- 
den die Portugiesen . . . die unerschrockensten Secleute 
ihrer Zeit.» Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Kntdeck., pai;. 
85. 



23o VARÕES ILLUSTRES 



sciencia c pratica lhe aproveitou no seu famoso, 
mas fortuito descobrimento ^ 

Quando chegou o tempo das aventuras no 
mar ako, começava a entrar em sua florente 
adolescência o nosso espirito naval. Mais que 
nenhum povo, ainda mesmo os da peninsula, 
estávamos próximos ao litoral africano no oc- 
cidente. Tínhamos já um pé em Ceuta, chave 
da Africa. Havíamos por assim dizer tomado 
symbolica posse de todo aquelle continente, 
em sua maior parte desconhecido. Tinhamos 
já plantado o principio do nosso futuro impé- 
rio africano e oriental. A nenhuma nação da 
Europa se estava azando mais propicia a em- 
preza grandiosa de atar de novo a commu- 
nicaçáo entre a christandade do Occidente e os 
povos innumeraveis de remotas e varias gcntili- 
dades. Costear a Africa e seguir do Atlântico 
ao mar das índias em demanda d'essas terras 
maravilhosas da especiaria e dos thesouros, era 
o grande problema, não somente portuguez, se- 
não europeu,, universal, a cuja solução nos pun- 
gia e estimulava a nossa ambiciosa aspiração de 



1 llumboldt, Examcn critique, i, pag. 92.6 96. 



VASCO DA GAMA 2^1 



nos desforrarmos nobremente da mesquinhez de 
território, fazendo de cada nau ou caravela aven- 
tureira o throno da liossa absoluta soberania no 
Oceano. Este vago e instinctivo sentimento cor- 
poriíicou-se e fez-se acção no infante D. Henri- 
que. Assim como a força da natureza não pôde 
entrar ao serviço do homem productor sem o 
concurso e prestancia de uma machina, assim 
também a idca, que transforma as civilisaçoes 
e que é fundo commum da humanidade, neces- 
sita de se consubstanciar n^uma pessoa, como 
o hindustanico Vischnú carece de uma nova 
encarnação ou apatar para visitar de novo a 
terra. O infante D. Henrique é a alavanca does- 
te espirito Ínsito, espontâneo, habitual á gente 
portugueza, romanesca e aventureira, de outras 
eras. Desde a tomada de Ceuta em 1415 até 
que Gil Eannes, em 1433, após muitos annos de 
infructiferas expedições, consegue ultrapassar o 
cabo Bojador, a perseverança, ainda maior que 
a intrepidez, assegura já que essa virtude herói- 
ca, essa fé inabalável nos magnificos destinos da 
nação, tarde ou cedo abrirá aos nautas animo- 
sos do ultimo Occidente as douradas portas do 
mundo oriental. Successivamente e em repetidas 
expedições consegue o esforço de impávidos na- 



232 VARÕES ILLUSTRES 



vegadores estender os descobrimentos pòrtugue- 
zes e quando o infante baixa ao tumulo a ban- 
deira de Portugal tem já íluctuado á vista da 
Serra Leoa, derradeiro término das pasmosas 
navegações, que favoreceu e animou. 

Depois, em tempos de Affonso V e principal- 
mente de João II, proseguem os descobrimentos 
até que Bartholomeu Dias e João Infante, des- 
cobrindo e passando o cabo da Boa Esperança, 
resolvem o maior problema geographico, que a 
antiguidade nos legou, o da eft^ectiva e real com- 
municação entre o Atlântico e o mar das índias, 
e demonstram experimentalmente a figura pe- 
ninsular do continente africano. Vencido e como 
que domesticado assim o cabo Tormentório, o 
terrível Adamastor, estava aberto, amplíssimo, 
patente o caminho do Oceano. 

Era agora mister cursar ao longo da costa 
oriental, e engolfando-se no pélago profundo 
surgir nas cubicadas ribas indianas, e levar a 
bandeira e a gloria portugueza até ás mais re- 
motas regiões orientaes, ignotas ou nebulosa- 
mente rastreadas pelos mais illustrcs povos con- 
quistadores e pelos máximos geographos na 
antiguidade. O nome portuguez, que não cabia 
na pátria, teve agora para cxpandir-se toda a 



YAbÇO DA QAMA 2JJ 

terra. No sonho de Scipião, p5e Cicero na bocca 
do famoso romano d'este nome, a quem as suas 
victorias assignaram o epitheto de Africano, as 
seguintes palavras dirigidas a outro Scipião, 
não menos celebrado, o Emiliano, para significar- 
Ihe quanto, apesar dos seus triumphos, era mise- 
rável e pequeno o theatro da sua gloria: «Does- 
tas cultas e notórias regiões (referia-se ao orbe 
romano, grandíssimo como conquista de um só 
povo, escasso em comparação do globo inteiro), 
pôde acaso o teu nome ou o de outro qualquer 
dos nossos ultrapassar o Cáucaso, que ali vês 
ou passar alem d'aquelle Ganges? Quem nas 
restantes terras do nascente, ou nas ultimas do 
poente, ou do norte, ou do meio-dia ouvirá o 
teu nome? As quaes regiões postas de parte, 
bem vês em que limites estreitíssimos poderá 
dilatar-se a vossa gloria'.» Tão altisonante como 



I «cEx his ipsis cultis notisque terris, num aut tiium 
aut cujusquam nostrum nomen, vel Caucasum luinc, 
quem cernis, transcendere potuit, vel ilium Ganirem 
transnatare? Quis in reliquis Orientis, aut abcuntis solis 
ultimis, aut aquilonis, austrivc parlibus tuum nomen 
audiet? Quibus amputatis, cernis profectò quanlis in an- 
gustiisvestra gloria se dilatari velit.» Somu. Scipioiíis, em 
M. Tullii Ciceri. Opera omuia, ed. elzcv., iCbi, pai;. i3i(j. 



2.'>4 VARÕES ILLUSTRES 



foi O nome dos romanos, não achou echos a sua 
fama na máxima porção do mundo hoje explo- 
rado e conhecido. Mas o que os Scipiões não 
poderam alcançar, guardava-o o destino ao pe- 
queno povo do Occidente. Ao revez de Scipião 
quasi faltou aos portuguezes ainda mais terra, 
a que dilatar o seu nome e as suas victorias. 

N'este momento histórico apparece na scena 
do mundo um doestes homens singulares, em 
cujos altos espíritos e em cujo animo impertér- 
rito, que chega a imperar á natureza e á fortu- 
na, se vê gloriosamente accrescentada e resur- 
gida a tempera dos mythicos heroes. Esse 
homem ao desferir o rumo e deixar as praias 
pórtuguezas, leva na sua nau o futuro da ci\'i- 
lisação. 

Pelo impulso do génio e do valor, eil-o que 
se levanta desde a obscura mediania até encher 
o mundo com a sua gloria e assombrar com o 
seu nome a mais remota posteridade. Esse ho- 
mem c Vasco da Gama. 



CAPITULO XV 

AS ANTIGAS COMiMUNICAÇOES COM O ORIENTE 

Aquolias oricntacs riquezas tão ce- 
lebradas dos antigos escriptores . . . 
por commercio tem feito tamanhas po- 
tencias como são Veneza, Génova, 
Florença e outras mui grandes com- 
munidades de Itália. 

Barbos, Decad. i, liv. iv, cap. i. 

A índia, antes de Vasco da Gama, fora já nos 
antigos tempos e durante a edade média para 
as nações do velho mundo a região proverbial 
das maravilhas e das riquezas. 

A cubica e o desejo de extender até paragens 
mui remotas a dominação e senhorio foram sem- 
pre o móbil principal dos notáveis descobrimen- 
tos geographicos. Não é pois de admirar que a 
antiguidade, tão fértil em ambiciosos conquis- 
tadores, não somente por fama conhecesse as 
paragens do Ganges e do Indo, senão que até ali 
procurasse ampliar as suas conquistas, e inten- 



'ZM) VARÕES ILLUSTRES 



tasse avassallar com os seus exércitos e as suas 
armadas a terra celebrada pelas suas preciosas 
producções e especiarias. 

A lenda meio-mythologica, meio-historica, dos 
Argonautas e da sua famosa expedição até á 
Golchida, é sob a forma poética de um mytho 
heróico, a prefiguração do que deveria succe- 
der por largos séculos, do esforço e empenho 
das gentes occidentaes em unir pelo interesse 
mercantil o Occidente e o Oriente. O vellocino 
de oiro attrahe de longe a mais férteis e remo- 
tas regiões os que anceiam pelas imaginadas 
opulências das terras orientaes. 

Quatorze séculos antes da era christan, Rham- 
sés, o grande, o Sesostris dos escriptores gre- 
gos, o segundo rei da decima nona dynastia 
cgypcia, de Manetho, conduz á índia uma gran- 
de armada, a qual saindo pelo Golfo Arábigo 
salteia e conquista muitas povoações nas ribas 
do mar Er3^thrèo^ A narrativa de Heródoto, 
como tantas outras do mesmo historiador, an- 
numeradas entre as fabulas por muitos escripto- 
res dos séculos pretéritos, achou plena confir- 



> Heródoto, HÍ6t,. liv. 11, pag. loi 



VASCO DA GAMA 287 



mação nos profundíssimos estudos egyptologi- 
cos do scculo presente ^ 

Para a antiguidade clássica desvendaram-se 
em parte os mvsterios da índia oriental pelas 
campanhas de Alexandre, o bravo e glorioso 
general dos macedonios. A índia foi para os 
gregos da edade alexandrina a revelação de um 
mundo novo-. A civilisação hellenica, admirá- 
vel como era, não poude soAxear o espanto, que 
lhe inspirava aquella região, onde a natureza 
opulentíssima, com as suas formas inesperadas 
e extranhas de novos organismos, singular- 
mente contrastava com as conhecidas produc- 
ções das terras occidentaes; onde as raças na 
cor e nas feições eram diversas das gentes eu- 
ropeas, onde eram desvairadas as instituições, 
a religião, a philosophia e os costumes^, onde 
os edifícios assombravam pela sua grandeza 
monumental, c pela sua admirável magnifi- 
cência. 

Singular e extraordinária se afigurava a des- 
cripção e o reconto das maravilhas indianas, 



1 Ritter, Gesch.der Krdk. inid der Kiitdeck., pag. 11 e i3. 

2 Ritter, Gesch. der Krdk. iind der Eutdcck.. p.ip. TiG. 
-^ Humboldt, Kosmos, tom. 11, pag. 181. 



238 VARÕES ILLUSTRES 



taes como as haviam summariado em seirô es- 

criptos muitos sábios companheiros de Alexan- 
dre : Nearcho, o almirante da sua armada, One- 
sicrito, Aristobulo, Megasthenes. E porque nada 
similhante ao que diziam d'aquelle mundo orien- 
tal se lhes deparava nas terras europeas, muitos 
se recusavam a pôr inteira fé no que parecia des- 
conforme á ordem da natureza e da humani- 
dade ^ Quasi punham na mesma plana as des- 
cripções authenticas da índia e o que d*'ella 
fabulara Gtesias, de Gnido, o medico de Arta- 
xerxes Memnon. O próprio Arriano, o chronista 
grego das expedições e campanhas de Alexan- 
dre, averba de suspeitas as narrações de mui- 
tos escriptores^. 

Náo se extinguiu nos gregos com a morte do 
Macedónio o empenho de aproveitar os thcsou- 
ros indianos. Os diádochos ou successores do 
grande conquistador proseguem na empreza de 
ligar ao Oriente as terras occidentaes. Os Pto- 
lemeus do Egypto hellenisado, desde Myos Hor- 
mos e Berenice, na costa occidental do Golfo 



I Ilumboldt, Kosmos, tom. ii, pag. i8i. 

- Arruino, l'\\'pcdiçóes de Alexandre, liv. ^', cnp. ii. 



VASCO DA GAMA 2.^q 



Arábigo, fazem navegar as frotas mercantis para 
a índia oriental, e levam a derrota até Cey- 
láo, a Taprobana dos antigos, no primeiro sé- 
culo da era christan. 

Hippalo, um navegador greco-eg3^pcio, desco- 
bre, ou antes aproveita, em beneficio da mais 
curta navegação, a regular alternativa das mon- 
ções no Oceano Indico'. 

As mercancias eram conduzidas desde o empó- 
rio de BarAgaza, na costa do Malabar, desde o In- 
do e Taprobana aos portos do Mar Vermelho, c 
d'ellcs transportadas em caravanas até Koptos, 
d'onde se iam diffundir a Memphis e Alexandria-. 
No celebrado museu doesta cidade se accumula- 
vam as mais desvairadas producções do Orien- 
te. Alexandria era então a metrópole da intelli- 
gencia e o centro de todo o tráfego do mundo. 
No conceito do sábio Peschcl, no tempo do 
geographo Ptolemeu conhecia-se infinitamente 
mais da índia do que sabia Gerardo Mercator, 



1 Riltcr, Gcsch. der Krdk. iiud der Knldeck., pag. 90. — 
Peschel, Gesch. desZeitalt. der Eutdeck., pag. 4.— Hum- 
boldt, Kosmos, tom. 11, pag. i'o5. 

2 Ritter, .Gesch. der Krdk. iind der Entdeckí, pag. yo. 



240 VARÕES ILLUSTRES 



O celebre geographo hollandez, nos fins do xvi 
século ^ 

Durante a dominação dos Lagides no Egypto 
os gregos chegaram a fundar estabelecimentos 
mercantis, não somente na ilha de Socotorá 
senão também na costa do Malabar, entre Goa 
e Bombaim, se havemos de acreditar no que 
Arriano, ou outro grego, deixou commemorado 
na antiga relação intitulada Périplo do mar Erj- 
thrêo, interpretado n'esta parte pelo doutíssimo 
Lassen, profundo investigador da antiguidade 
no Indostão 2. 

Para facilitar o commercio marítimo com a 
índia, Ptolemeu II, Philadelpho, o segundo en- 
tre os Lagides ou reis gregos do Egypto, fez 
novamente navegável o canal, que ligando o Nilo 
ao Golfo Arábigo, em tempos mais antigos fora 
aberto pelo Pharaoh Nechao, e continuado por 
Dário Hystaspis. Principiava o canal pouco aci- 
ma de Bubastis, e terminava no Erythrêo-\ 

Entre os romanos não foi a índia reputada 
como terra de menos extranheza do que nos 



1 Peschel, Gesch. der Krdk., pag. 11. 

2 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 11. 

3 Heródoto, Hist., liv. 11, pag. i58. 



VASCO DA GAxMA 24 1 



tempos de Alexandre e dos seus guerreiros suc- 
cessores. Basta ler em Quinto Curcio, o romano 
historiador das proezas do Macedónio, a descri- 
pçáo da índia, para ver de quanto a imaginação 
amplificava as riquezas d^aquelle paraizo orien- 
tais 

Segundo o historiographo romano os rios ar- 
rastam D oiro na sua corrente, e o mar borda 
de aljôfares e de pedras preciosas as margens, 
onde espraia as suas ondas ^. As noticias, porém, 
que os romanos acerca da índia conheciam, de 
fontes gregas eram principalmente derivadas. 
As campanhas e os triumphos dos seus exérci- 
tos na Ásia não lhes abriram, como a Alexan- 
dre mais venturoso ou mais audaz, os caminhos 
do Indostão. Mas os quirites, chegados ao fas- 
tígio da gloria e do poder, depois de terem con- 
vertido o mundo conhecido em orbis romaniis, 
necessitam de todas as sumptuosidades e rique- 
zas dos povos mais distantes para deliciar a se- 



I Q. Curtii Ruíi, Historianim, liv. viii, n." <), ed. cl/c- 
vir., Leydcn, i633, pag. 249- 252. 

^ «Aurum ilumina Yohunt. . . Gemmas margaritasquc 

marc littoriluis infundir. >> Q. Curtii, Histor., liv. viii, cap. ix, 

pag. 25 1. 

21 



VARÕES ILLIJSTRES 



dc insaciável de luxo e de prazer. A índia, c 
o paiz remoto dos Seres, ou da China, enviam 
a Roma os seus mais preciosos artefactos e as 
suas mais custosas mercadorias. Quando Pom- 
peio Magno celebra o seu magnifico triumpho, 
após a guerra mithridatica, e depõe como 
oblata a Júpiter Capitolino grande parte dos 
riquissimos despojos colhidos no thesouro de 
Mithridates^ parece que uma torrente de gem- 
mas e pedrarias vem inundar a metrópole do 
mundo e annunciarque o Oriente se desentra- 
nha em opulências para adornar a purpura e o 
diadema ao popo rei. 

Conheciam os romanos pelas informações 
dos povos, que estanceavam nas regiões do 
Cáucaso, o caminho commercial, que através 
da Ásia seguiam as caravanas até á índia e á 
Bactriana. Do Ponto se trasladavam a Roma c 
a Byzancio as mercancias do Oriente. As ex- 
pedições romanas tiveram por extremo limite a 
leste o rio Euphrates. Ali terminava o seu co- 
nhecimento immediato da geographia oriental. 
Senhoreando o Eg^^pto e reduzindo-o a pro- 
víncia, Roma para compensar a perda do ca- 

1 Plinio, Histor. natur., liv. wwii, cap. vi. 



VASCO DA GAMA 2^.3 



minho terrestre, que os Parthos indomáveis 
lhe cerravam, e que seguia desde o Ponto pela 
Bactria até á índia septentrional, teve agora 
patente a estrada maritima, que o Erythrêo 
lhe franqueava até o Malabar ^ Não eram 
porém naves .onerarias de romanos as que da 
índia transportavam as mercancias. O romano 
teve sempre mais innato pendor para as con- 
quistas bellicosas do que para a mercantil 
grangearia. . 

Em tempos de Marco Aurélio, no segundo 
século da nossa chronologia, uma embaixada ro- 
mana até á China attesta que os dominadores 
do Occidente náo tinham em menospreço as 
relações commerciaes com aquellc império 2. 

Ptolemeu, o geographo, no segundo século 
christáo conhece da índia muito mais do que 
souberam os gregos de Alexandre e os Lagides 
do Egypto, muito mais do que lhe podiam mi- 
nistrar as informações directas dos romanos, 
incuriosos de alargar as fronteiras da geogra- 
phia. São numerosos os logares, cuja posição elle 
assignala com rasoavel exactidão. O geogra- 



1 Rittcr. Gcsdi. der Krdk. und der Kntdcck.. prií;. (jj. 

2 I^cschel, Gesch. der Erdk., pag. 14. 



244 VARÕES ILLUSTRES 



pho alexandrino conhece, ainda que vagamente, 
a região dos Sinas, ou a China meridional, e 
a Serica, ou a parte boreal do celeste império; 
não sabe, porém, ainda conglobal-as n\ima 
só e mesma grande região ^ 

Da navegação de um grego aventureiro, Jam- 
bulo, até a ilha de Java, não é fácil discernir 
o qcie pertence á historia verdadeira e o que de- 
ve considerar-se pura fabula. E innegavel toda- 
via que Ptolemeu conhece no seu tempo aquella 
ilha e denota-a com o nome sanscrito helleni- 
sado^. 

O christianismo, nascido no Oriente, desde 
os seus primeiros séculos bracejou e diffundiu- 
se ás extremas regiões da Ásia. Em Socotorá 
encontra o monge viajante Cosmas Indicopleus- 
tes, no VI século, povoação christan de origem 
grega. Se a missão apostólica de S. Thomé e 
o seu martyrio em Meliapor, fundando-se na 



1 Ritter, Gesch. der Erdk. iind der Entdeck., pag. 124. 
A respeito dos caminhos que seguiam as caravanas no 
commercio das sedas, conduzidas desde a China aos po- 
vos occidentaes, veja Peschel, Gesch. der Erdk.. pag. 
9-J0. 

2 Peschel, Gesch. der Erdk., pas:,. i5. — Ptolem., GVon;-., 
liv. vir, pag. 2. 



VASCO DA GAMA 245 



lenda e tradição, não sáo historicamente com- 
provados, parece comtudo incontestável que 
desde o vi século havia já christáos estabeleci- 
dos no Malabar e em Ceylão^ Os christãos 
de S. Thomé, que os portuguezes encontraram 
n'aquella costa 2, e as antigas tradições, que en- 
tre elles se conservavam, attestam que desde 
antigos tempos os christáos da seita nestoriana 
SC haviam diííundido até á índia. 

Alexandria continuou durante a edade média 
a ser o principal empório do trafico entre a 
índia c o Occidente. Quando, porém, os ára- 
bes alargaram velozmente os seus domínios, e 
Bagdad foi a corte do khalifado, o commer- 
cio marítimo do Oriente animou novamente o 
Golfo Pérsico e Bassrah foi desde entáo o cen- 
tro das relações mercantis com as terras india- 
nas. 

Náo se deram os árabes por satisfeitos com 
trazer as mercancias da costa do Malabar ou de 



1 Pcschel, Gesch. dcs Zeitalt. der Entdcck., pag. 7. 

2 Sobre os christãos de S. Thomc e a sua historia, vc- 
ja-se Jornada do arcebispo D. Fr. Aleixo de Meneses, por 
Fr. António de Gouvéa, Coimbra ibo(), liv. u cap. i-iv, 
xviii-xix, e liv. III, cap. x. 



14^ VARÕES ILLUSTRES 



Geylão. Com a China mantiveram egualmente 
frequentes communicaç5es. Desde Bassrah c 
Oman navegavam os débeis e mal seguros 
baixeis arábigos até Siraf. Doeste ponto carrega- 
vam os juncos chins as mercadorias dos árabes 
e as levavam até os estabelecimentos musul- 
manos na costa de Malabar e d^ali, sempre ao 
longo do litoral, iam após longa navegação 
lançar ferro no porto appellidado nas relações 
arábigas Kanfu, a Campú de Marco Polo^ Era 
tal a extensão do commercio n^aquelle porto, a 
affluencia de extrangeiros, empenhados em suas 
grangearias, que, segundo Massudi, se nume- 
ravam em duzentos mil entre musulmanos, 
christãos, parses e judeus". No século ix os 
árabes navegavam até á China meridional, c 
os mercadores chinezes vinham em seus navios 
até Siraf, quasi na foz do rio Euphrates-\ NVs- 
tc mesmo século nos fragmentos dos diários 
de dois navegadores arábigos, Wahab c Abu- 
zeid, apparecem já citadas as principaes mer- 



1 Peschel, Gesch. dcs Zcitalt. der Entdcck., pag. 9-10. 

2 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., pag. lo-i i . — 
Massudi, Meadows of Gold, trad. de Sprenger, i, pag. 824. 

-^ Rittcr, Gesch. der Erdk. imd der Entdcck., pag. 175 



VASCO DA GAMA 247 

cadorias do império chinez, o chá, a porcelana, 
os tecidos de seda e o almiscar^ 

Náo sáo porém somente os árabes, a raça 
conquistadora por excellencia, os que durante 
a edade média chegam com suas excursões á 
Ásia extrema. Também gentes christans en- 
tram na China e fundam em vários pontos mais 
ou menos populosas communidades. Quando a 
dynastia Tang, que succedêra á dos Tschin, 
foi dcsthronada em princípios do século x para 
deixar o throno vago á nova dynastia de Heu- 
liang, a tolerância, que tinha aberto as portas 
do vasto império ás peregrinas religiões, con- 
verteu- se em perseguição e os extrangeiros fo- 
ram obrigados a fugir depois de verem posta a 
sacco a magnifica cidade de Kanfú^. A China 
era por aquelles tempos o theatro de intestinas 
c sangrentas convulsões e as invasões dos tár- 
taros recresciam cada vez mais temerosas. 

Os árabes, na geral intolerância havida com 
as gentes forasteiras, náo foram mais afortuna- 



í Ritter, Gcsch. der Erdk. iind der Entdeck., pag. lyS. 

2 Rcinaud, Antiquités chrétieunes de la Chine, em Nou- 
velles annales des voyages, 1846. Octob., pag. 94, cit. em 
Pcschcl, Gesdi. des Zeitalt. der EnldecU., pag. 11. 



248 VARÕES ILLUSTRES 

dos que os seus emulos christáos. Não podiam 
agora commerciar directamente nos portos do 
celeste império. A commutação das mercancias 
do Occidente pelas da China fez-se entáo 
n'uma estação intermediaria, a que as antigas 
relações dáo o nome de Kala, e cuja situação 
não é fácil assignar precisamente ^ 

Depois da queda do império romano do Oc- 
cidente e da conquista do Egypto pelos árabes 
o centro do commercio europeu com as regiões 
orientaes trasladou-se para Byzancio ou Cons- 
tantinopla, que pela sua excellente posição era 
na Europa como que a sentinella avançada do 
Oriente. 

Quando na edade média começaram a florc- 
cer com grande poderio e luzimento as republi- 
cas marítimas da Itália, o trato mercantil prin- 
cipiou de rasgar mais largos voos. Amalíi, Pi- 
sa, Génova e Veneza disputaram largos annos 
entre si o commercio do Mediterrâneo. O se- 
nhorio doeste mar teve porém somente por in- 
conciliáveis contendores a Génova e a Veneza, 
depois que Amalíi decaiu, e Pisa, após uma 
guerra de duzentos annos, teve de ceder á 



1 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Eutdcck., pag. 11. 



VASCO DA CAMA 24C) 



pujança naval dos genovezes. Ambas as re- 
publicas fiadas no seu grande poder naval e 
inflammadas pela cubica mercantil, buscaram 
d porfia senhorear-se do commercio no Mar 
Negro. Os genovezes fundam Kaíía na Criméa, 
alargam os seus estabelecimentos commerciaes 
até á Mingrelia e levam os seus mercadores 
as orlas do Mar Gaspio. O porto de La Tana, 
na foz do Rio Don ou antigo Tanais, recebe 
ao mesmo tempo as feitorias de ambas as re- 
publicas rivaes. Aquella estação era o ponto, 
d'onde no século xiii partiam as caravanas 
dos francos ou latinos para chegar até á Chi- 
na, seguindo o itinerário descripto nas rela- 
ções de Balducci Pegoletti, passando por Sa- 
ray, a capital dos tártaros de Kiptchak, pela 
cidade de Organzi, celebrada nas cartas medie- 
vas, depois por Armalecco, até entrar em Ca- 
mexu, a cidade Kan-ci-pu de Marco Polo. D'ali 
em mez e meio de 'jornadas passavam as cara- 
vanas o rio Amarello e depois com mais trinta 
dias de caminho avistavam finalmente a magni- 
fica metrópole Pekin ou Kambalú^ cuja ri- 



I Peschelj Gesdi.dcsZeitalt. der ErJJeck., pag. 17-18. — 
Ritter, Gesch. der Erdk. und der Entdeck., pag. 219. 



2 5o VARÕES TLLUSTRES 

queza e esplendor trazia absorto o Occidente. 

As caravanas desde o Mar de Azov pela Ásia 
central até á grande capital da China gastavam 
cerca de um anno de jornadas ^ 

Para segurar as opulentas feitorias em La 
Tana e o transito das caravanas, celebraram os 
venezianos e genovezes seus- tratados com o 
poderoso khan dos Tártaros. O mais antigo de 
que ha memoria tem a data de i3332. Desde 
La Tana as preciosas manufacturas e riquezas 
da China, o chá, as porcelanas, as sedas, os 
charões, e as próprias especiarias indianas, cujo 
trato andava assim em monopoHo de Génova 
e de Veneza, desde Constantinopla ^e diflun- 
diam pela Europa até ao norte ás cidades an- 
seaticas e ao meio-dia até Barcelona, Cadix e 
Lisboa^. 

Era entáo Constantinopla o grande mercado 
universal do commercio do Oriente. 

Os genovezes dominavam ali quasi como se- 
nhores, e tinham realmente a soberania do Mar 
Negro, onde a influencia veneziana teve de ce- 



1 Ritter, Gesch. der Erdk. und der Entdeck., pag. 219. 

2 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdck., pag. 17-18. 

3 Ritter, Gesch. der Erdk. iind der Entdeck., pag. 220. 



VASCO DA GAMA 25 I 



der á supremacia inquebrantável dos seus emu- 
los. 

A poderosa senhoria do Adriático, expulsa 
do Bosphoro, e vendo cerrado o caminho ter- 
restre pela Ásia, nSo se resignava porém a per- 
der de todo o ponto o trafico do Oriente. 

O roteiro mercantil da índia pelo Golfo Pér- 
sico, c depois por Bassrah até á Europa, era 
diííicil e tornava elevadissimo o preço das espe- 
ciarias e drogas orientaes. 

Em princípios do século xiv só uma pequena 
parte das mais custosas mercadorias, que po- 
diam facilmente deteriorar-se em mui longo 
transporte pelo mar, continuavam a seguir pelo 
Golpho Pérsico o seu caminhou 

Transportar as mercadorias desde a ín- 
dia ao Mar Vermelho, conduzil-as ao Cairo 
e a Alexandria, era para os musulmanos a 
maneira mais segura e expedita de fazer o com- 
mercio oriental. 

A extensão descommunal do islamismo pelas 
terras mais remotas da Ásia, a affluencia prodi- 
giosa de hadgis, ou peregrinos, que desde as 



l\'schcl, Gesch. des Zeltalt. der Eutdeck.. pa 



252 VARÕES ILLUSTRES 

mais afastadas regiões concorriam a Mekka, a 
cidade santa do propheta, tornando-a ao mesmo 
passo a metrópole da fé religiosa, e o empório 
dos interesses mercantis, restituiam natural- 
mente ao Mar Vermelho a sua antiga preemi- 
nência no trato e communicação do Oriente 
com as terras occidentaes. 

As magnificências do Cairo, ou Bab3donia, 
como na edade média lhe chamavam os francos 
ou latinos, andavam encarecidas na sua ambi- 
ciosa phantasia. Era também então Alexandria 
porventura mais florente e populosa do que nos 
áureos tempos dos antigos Ptolemeus. 

Ali conviviam em interesseira confraternidade 
as gentes mais diversas pela raça, pelo idioma, 
pela fé ; árabes da índia, do Yemen e de Hespa- 
nha, negros e abexins, christãos da Europa do 
norte e meio-dia. A todos os europeus levavam 
os venezianos a vantagem. Assim ficava repar- 
tido entre as duas republicas rivaes o principado 
mercantil no Mediterrâneo. 

Génova dominava no Mar Negro, Veneza cm 
Alexandria. JEm concurso com estas poderosas 
rainhas do Mediterrâneo, posto que em muito 
inferior grau, participava largamente no com- 
mercio do Levante a Catalunha, e principal- 



VASCO DA GAMA 253 



mente Barcelona, a sua mui florente e indus- 
triosa capital. 

Depois que Alexandria com o Egypto caíra 
cm poder dos árabes conquistadores, o interes- 
se mercantil, mais imperativo e efticaz do que o 
zelo religioso, alcançara finalmente congraçar 
no grande empório os mercadores christãos e os 
musulmanos. Em vão os imperadores gregos 
desde o ix século haviam prohibido aos vene- 
zianos o traficar na Syria e no Egypto. Infru- 
ctuosamente haviam os papas condemnado 
todo o trato e commutação com os infiéis', a 
ponto de julgarem boa presa em 1292 a carga 
tomada por uma galé genoveza de Thedisio 
Dória em um navio pisano, que de Alexan- 
dria navegava carregado de valiosas mercado- 
rias 2. 

Era Malaca um dos empórios principaes 

1 Peschel, Gesch. des Zeitalt. der Entdeck., pag. 2 5-20. 

2 Na galé de Pisa, alem das fazendas pertencentes a 
pisanos, vinham muitas por conta de mercadores de Mar- 
selha e de Narhonna, e de outras partes, os quaes man- 
daram seus agentes pedir á arrogante senlioria que lhes 
deixasse as suas mercadorias; e ainda que, diziam os ge- 
novezes, todos aquelles bens eram justamente confiscados, 

\)OT haver o senhor papa no anno prccedenie sentenciado 

22 



254 VARÕES ILLUSTRES 

doesta negociação e trato oriental. Ali vinham 
concorrer o cravo das Molucas, a maça e a 
noz de Banda, o sândalo de Timor, a cam- 
phora de Bornco, o oiro e a prata de Lequios, 
as drogas e as espécies aromáticas, os aromas e 
manufacturas da China, de Siáo, de Java, e de 
outras ilhas e regiões da Ásia e da Oceania. 
Chegadas a Malaca, na phrase de João de Bar- 
ros, empório e feira universal do Oriente, eram 
escambadas contra diversas mercadorias aos po - 
vos, que demoravam no litoral da península in- 
dostanica e aos que mais ao occidente estancea- 



ser licito a qualquer apresar as mercancias c vender como 
escravos as pessoas, que fossem commerciar aos estados 
do sultão do Egypto, ou de lá volvessem com seus car- 
regamentos, os homens de Génova, di2 o seu annalista Ja- 
copo Dória, restituíram aos amigos o que da nave pisana 
lhes pertencia. uVerum cum de jure amisissent omnia per 
sententiam domni pape (sic), qui sententiam durissimam 
anno precederíti protulerat in quoslibet et quoscumque 
euntes et redeuntes ad terram et de terra aliqua soldani 
Egypti, qui etiam statuit quod quilibet posset cos capere 
in personis et rebus et bona corum tenere tamquam pró- 
pria et personas vendere velud (sic) sclavos ...» Annalcs 
januenses, de Jacopo Dória, em Pertz, Monwnenta Gemia- 
inae histórica, Hannov., i863, tom. xviii, pag. 341» 



VASCO DA GAMA 25b 



vam ate o Golpho Pérsico e o Mar Vermelho. 
Calecut, na costa do Malabar, Gambaya, na en- 
seada doeste nome, Ormuz, no estreito assim 
denominado, Aden, na bocca do seio arábigo, 
quasi competiam com Malaca na importância 
e riqueza de seus tráficos. A estes portos acu- 
diam, alem das riquezas de Malaca, os rubis e o 
lacre do Pegu, os estofos e téla-s de Bengala, 
o aljofre de Calecaré, os diamantes de Narsinga, 
a canella e as pedrarias de Ceylão, a pimenta 
e o gengibre, que abundavam em outras regiões. 
De Ormuz se exportavam as mercancias, que 
vinham destinadas á Europa, e eram pelo Gol- 
pho Pérsico transportadas a Bassrah. D'aqui se 
conduziam em caravanas, quaes para Arménia, 
Tartaria e Trebisonda, quaes para as cidades de 
Alepo e de Damasco, d^onde vinham expedidas 
a Beyrut, porto da Syria no mar do Levante. 
Ahi vinham os mercadores venezianos, genove- 
zes e catalães, os três povos navegadores do Me- 
diterrâneo, carregar em suas galés as especia- 
rias e riquezas asiáticas e diííundil-as finalmente 
pelos mercados europeus. As espécies e drogas 
orientaes, que de Malaca iam ter ao Golpho Ará- 
bigo, aportavam a Suez, situada no fundo d'este 
sçio. As cáfilas e recovas as trasladavam até ao 



256 VARÕES ILLUSTRES 

Cairo e d'ahi se navegavam pelo Nilo até Alexan- 
dria ^ Estes eram os roteiros, que seguiam as 
riquezas do Oriente, quando as duas poderosas 
republicas italianas na Europa meneavam, sem 
que ninguém Ih^o podesse disputar, o sceptro 
mercantil. 

As viagens e peregrinações dos embaixadores, 
missionários e aventureiros christãos, que da Eu- 
ropa se dirigiram durante a edade média até os 
últimos confins do continente asiático tiveram 
bastante influencia no conhecimento das partes 
orientaes e na sua communicação com as terras 
do Occidente e contribuíram para dissipar as 
névoas, que traziam encobertas aos francos ou 
latinos aquellas opulentas regiões. 

Poude então a christandade adquirir a seu 
respeito mais exactas informações das que sou- 
bera alcançar a antiguidade. 

Ficaram memoradas na historia das viagens 
durante o xni século as que por ordem do pa- 
pa Innocencio IV emprehenderam vários frades 



1 Barros, Decad. i, liv. viii, cap. i. — António Galvão, 
Tratado dos descobrimentos antigos e modernos, cdiç. 
de lySi, pag. 16 c 17. 



VASCO DA GAMA 267 



franciscanos c dominicos, sendo entre elles o 
mais notável João de Plano Garpino, o qual 
se adiantou em 1246 até Kaptschak, a corte de 
Batu, segundo successor de Gengis-Khan. Pouco 
depois em 1 248, outro religioso mendicante, An- 
dré de Lonjumel, foi egualmente enviado pelo pa- 
pa ao mesmo potentado oriental ^ Não licaram 
menos celebradas nas historias as embaixadas, 
que por ordem de S. Luiz foram á corte do grão 
khan da Tartaria, a segunda das quaes desem- 
penhou o franciscano Ru3^sbroek, conhecido vul- 
garmente pelo nome afrancesado de Rubruquis. 
Era tal, — e porque assim o digamos,— tão contí- 
nua a corrente de missionados, mercadores, le- 
gados e aventureiros entre a Europa occidental 
e as regiões, onde na Ásia dominavam os mon- 
goles, que na universidade de Paris, a metró- 
pole e Alma mater das sciencias em toda a chris- 
tandade occidental, se pensou em instituir uma 
cathedra especial de lingua mongolica-. 



» Ritter, G<?5c//. der Erdk. und der Entdeck., pag. 225.— 
Peschcl, Gesch. der Erdk., pag. 1 5o. 

2 Pcschel, Gesch. der Erdk., pag. 1 5o, citando a Abel 
Rcmusat, Rapports dcs princcs chrcticus avcc Ic ij^rand cm- 



258 VARÕES ILLUSTRES 



A fama de Marco Polo eclipsa porém nos fas- 
tos das viagens terrestres ao Oriente a gloria dos 
que o precederam ou seguiram na carreira. 

Marco Polo apparece na edade média como um 
assombro de maravilhosas aventuras, e é preciso 
que os portuguezes se revelem á Europa, circum- 
dados de uma aureola immortal pelos seus pas- 
mosos descobrimentos, para que se esconda na 
penumbra o vulto quasi homérico do peregrino 
de Veneza. Marco Polo é na edade média o via- 
jante mais celebrado pela extensão das suas 
arrojadas excursões até ás ultimas regiões do 
Oriente. Ao illustrc mercador veneziano pre- 
cederam nas longas peregrinações os dois ir- 
mãos Nicolau e Mafio Polo, logo depois de 
mediado o século xiii. Na segunda viagem ao 
Oriente, foram acompanhados de Marco Polo, 
filho de Nicolau. As jornadas do grande aven- 
tureiro duraram vinte e quatro annos a con- 
tar de 1271, em que de Veneza abalou para 
as terras orientaes. É immenso, admirável o 
trajecto do temerário viajante em tempos de tão 



pÍ7'e des mongóis, nas Mcni. de Vacad. des iiiscript. (de 
Vlnstiiut.)^ tom. vi, 1822, pag. 398-469 e 41 5. 



VASCO DA GAMA 'ibg 

difficil c penosa communicação entre paizes apar- 
tados por milhares de léguas de caminho. 

Desde Lajarzo percorre Marco Polo a grande 
via commercial, que se dirige a Tauris, e cos- 
teando as terras litoraes do mar Caspio, atra- 
vessa as regiões ubérrimas do Iran, lustra de- 
pois pelos desertos o caminho, que de Ormuz 
vae discorrendo por Kerman e pelo oásis de 
Ghubbis até ás serranias, onde brotam as nas- 
centes do Jihun. D^ali adianta suas jornadas 
ate o Turkistan chinez, visitando de caminho 
Kaschgar, larkand e Chotan. Segue depois até 
Xandu e d'ali á cidade de Pekin^ Alguns his- 
toriadores da geographia tem professado a opi- 
nião de que as viagens do celebre mercador 
veneziano contribuíram escassamente para o 
progresso dos conhecimentos geographicos acer- 
ca do Oriente, taes como na edade média ap- 
parecem revelados na sua cartographia- e que 
apenas nos mappas do século xv principia a 
conhecer-se a influencia de Marco Polo-^. Não 



1 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 1 58 e scg. 

2 Vise. de Santarém, Hisl, de la Cosiii. et de la Car- 
togr.j iij introd., pag, lii. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la (j>sni. et de la 
Cartogr., iii, introd., pag. xvm. 



26o VARÕES ILLUSTRES 



podemos, todavia, com outros não menos au- 
ctorisados escriptores, desconhecer que o no- 
me de Marco Polo andou proverbial até que 
as viagens portuguezas e o descobrimento de 
Colombo, quasi inteiramente o obliteraram. 
A sua influição nas próprias aventuras portu- 
guezas e principalmente na empreza romanesca 
do immortal navegante genovez, não pôde his- 
toricamente contestar-se. Se outro mérito não 
teve o audaz explorador, as suas narrativas 
hyperbolicas acerca do Gathai e de Zipango, e 
da magnifica cidade de Quinsay, accendendo a 
phantasia dos povos europeus occidentaes, em 
grande parte contribuíram para estimular o de- 
sejo de ligar por mais frequentes, seguras e fá- 
ceis relações o Occidente ás fecundas regiões 
orientaes'. 

A contar de Marco Polo succedem-se os aven- 
tureiros viajantes, que vão peregrinando ás ter- 
ras da Ásia. O franciscano João de Monte Cor- 
vino c enviado pelo papa ás índias e á China, e 
funda os primeiros bispados em Pekin e em 
Kollam. Continua a communicação da Europa 



Peschel, Gesch. der Erdk , pag. i6o. 



VASCO DA GAMA 2()I 



com O ultimo Oriente o franciscano Odorico de 
Pordenone em 1 3 1 6. João de Marignola em 1 342 
chega a Pekin, e apresenta-se na corte do impe- 
rador como legado do pontiíice romano'. 

Os religiosos minoritas, os legados pontifí- 
cios, ou reaes, e não menos os aventureiros, 
incitados pela risonha perspectiva de ganâncias 
quantiosas nas terras orientaes, atravessam pre- 
surosos desde as extremas do Occidente europeu 
até ás regiões da Ásia central e aos confins der- 
radeiros do Oriente. Não é unicamente o fervor 
de ampliar e extender os limites da christanda- 
de, nem a curiosidade scientifica, o móbil princi- 
pal das viagens e peregrinações. Os thesouros 
• orientaes desafiam e aguilhoam a cubica. Gomo 
succede sempre em todos os descobrimentos de 
novos e apartados territórios, aos estímulos mo- 
raes vem alliar-se em sobeja proporção a saci^a 
fome do oiro, o desejo de feitorisar em próprio 
beneficio as riquezas dos paizes, que se afiguram 
melhor aquinhoados do que a pátria pela pró- 
vida mão da natureza. Ao lado do missionário, 
que marcha sonhando a conversão das novas 
gentilidades, caminha o mercador egoísta, que 

« Peschel, Gesch. der Erdk., pnq. 163-164. 



262 VARÕES ILLUSTRES 



vae delineando a commutação usurária dos pro- 
ductos^ 

Séverac, Pascual deVictoria, o mercador flo- 
rentino Balducci Pegoletti, agente ou commis- 
sario da opulenta e celebrada casa mercantil dos 
Baldi, de Florença, esparzem pela Europa as no- 
ticias d^aquellas remotas regi5es, até que o in- 
glez João de Mandeville, aproveitando e plagian- 
do as viagens de Odorico de Pordenone^, re- 
nova em certa maneira a fama de Marco Polo, 
e merece com justiça a mesma reputação de fa- 
bulador, que muitos imputaram injustamente 
ao viajante veneziano e ao nosso eminente por- 
tuguez Fernão Mendes Pinto. 

As communicações com o grande império chi- 
nez perseveram mais ou menos animadas e fre- 
quentes desde a enviatura de Plano-Carpino, em 
1246, até João de Marignola, um século depois. 
Desde então até os maravilhosos descobrimen- 
tos portuguezes interrompe-se a communica- 
ção da Europa com a Ásia central e as remo- 
tas regiões do Oriente. Apenas duas viagens 
memoráveis se realisam durante esse interstício. 



Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 157-1 58. 
Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 163-164. 



VASCO DA GAMA 203 



A primeira é a do hespanhol Ruy Gonzalez de 
Glavijo, enviado em 14 14, pelo rei de Gastella, 
em embaixada a Samarkand, que o celebrado 
conquistador Tiniur havia constituído o principal 
e grande empório de toda a Ásia centraP. 

O veneziano Nicolau Conti, que principia as 
suas largas e diuturnas peregrinações em 1424, 
é o ultimo dos que em viagens terrestres se 
adiantam muito ao longe nas terras orientaes. 
Conti é pela duração das suas excursões e pelo 
copioso pecúlio de noticias, com que additou as 
de Marco Polo, aquelle que depois do grande 
explorador veneziano mais poderosamente con- 
tribuiu para diffundir na Europa valiosas infor- 
mações a respeito do Oriente. Foi elle o único 
viajante, que na primeira metade do xv século 
chegou até á índia e traspassou para alem as 
suas fronteiras. No seu regresso á Europa, em 



I «Bis zu den portugiesischen Entdcckungcn, mit 
einer einzigen Ausnahme, kciní; Kunde aus Indicn odcr 
China Europa erreichte. In dieser Zwischcnzeit gclangtc 
allerdings derspanische Botschafter Ruy Gonzalez de Gla- 
vijo imJahre 1404 nach dem lieblichen Samarcand, wel- 
ehes Timur zum ersten Handelsplatz in Mittelasien erho- 
ben hatte.» Pcschel, Gesch. der Erdk., pag. i65. 



264 VARÕES ILLUSTRES 

vez de. seguir, como os outros viajantes euro- 
peus, o caminho das steppes asiáticas ou vol- 
tar pela Pérsia até Ormuz, visitou no Mar Ver- 
melho a ilha de Socotorá e os portos de Aden 
e Djiddah'. 

A poderosa supremacia dos mongoles e Gen- 
gis-Khanides na Ásia, e a fundação de novas mo- 
narchias, inliuiram beneficamentc na ligação do 
Occidente ao Oriente, facilitando no século xni 
o trato mais frequente entre o mundo latino e 
a China, então sujeita e dominada pela dynas- 
tia mongol, instituída por Kublai-Khan, o gran- 
de imperador, em cuja corte figurou honrosa- 
mente o celebrado veneziano Marco Polo. 

Mas quando a edade média vae declinando 
para o seu occaso, uma nova potencia barbara 
apparece na scena da historia e obriga a chris- 
tandade a propor em novas condições o pro- 
blema do seu commercio com o Oriente. 

Os turcos interrompem a passagem pelos ca- 
minhos da Ásia central e do Mar Negro, e ao 
mando de Mahomet II apoderam-se afinal de 
Constantinopla, ameaçando perturbar a Europa 
inteira com as suas incursões. 

I Pcschcl, Gcsch. der Erdk., pag. 1 65- 107. 



VASCO DA GAMA 26Õ 



Mais tarde, em t5i7, o imperador Selim faz 
do Egypto uma nova conquista dos Osmanlis, c 
fica também cerrado o Mar Vermelho ao com- 
mercio dos europeus com o Oriente. 

A vida mercantil decae inteiramente no Me- 
diterrâneo, que depois de ser por tantos séculos 
desde a antiguidade mais remota a grande scena 
das mais fecundas civilisações, agora está por 
assim dizer deserto e condemnado por três sé- 
culos a uma quasi completa ociosidade. 

Mas já antes que esta lastimosa mutação no 
commercio da Europa com a Ásia estivesse con- 
cluída, a christandade do Occidente sentia a 
necessidade crescente e imperiosa de rasgar novo 
caminho e arrojar-se em rota mais directa que 
as antigas para as cubicadas terras do Oriente. 

Era este o grande problema económico e 
mercantil da edade média a contar do xiii século. 

A linha seguida pelas caravanas, que da índia 
e da China vinham demandar os territórios do 
Ponto Euxino, e a derrota, que traziam as mer- 
cadorias orientaes desde os portos da sua expe- 
dição até Alexandria, eram trabalhosas, demo- 
radas, custosissimas no preço e na fadiga. Eram 
innumeraveis os intermediários, por que vinham 
passando as produccões, os fretes dispendiosos, 

■23 



206 VARÕES ILLUSTRES 

pesados, e a cada passo repetidos os direitos e 
alcavalas nas alfandegas do transito. 

Eram enormes as diííerenças entre os preços 
das especiarias carregadas em Calecut e os va- 
lores exorbitantes, por que vinham vender-se a 
Alexandria * . 

Qual, porém, se afigurava ser o caminho 
mais seguro e directo para a índia? Era, atten- 
tas as condições actuaes do problema, a der- 
rota audaz pelo Oceano. 

O centro de gravidade do S3^stema commer- 
cial no XV século deslocava-se naturalmente do 
mar interior e limitado para o litoral atlântico 
da Europa. 

Veneza, Génova, Pisa, Catalunha tinham mo- 
nopolisado o trafico do Oriente, emquanto flo- 
reciam com as mercancias asiáticas os portos do 
Mar Negro e Alexandria. 

Era bem que surgisse agora um povo de 
mais intrépidos navegadores para traçar, não os 
breves e fáceis caminhos do Mar Mediterrâneo, 
mas a larga e perigosa estrada do Oceano. 



í Roteiro da viagem de Vasco da Gama, 1861, pag. 1 1 5.— 
Christ. Theoph. von Murr, Histoire diplomatiqiie dii che- 
valier \L Behahih Patis, 1802. 



VASCO DA GAMA 267 



Portugal herdou então o sceptro mercantil, que 
tombava das mãos desfallecidas á republica de 
S. Marcos, á princeza do Adriático. 

Os povos mercadores do Mediterrâneo com- 
pravam submissamente as especiarias. Seria 
agora mais expedito e mais barato tomar posse 
das próprias regiões, onde cresciam, e receber 
com o ferro nas mãos como tributo, o que os ou- 
tros acceitavam como favor de mouros e gentios. 

Aos povos, que somente mercadejam no 
Oriente, succede um povo batalhador, que se 
prop5e a conquistal-o. 

A índia — e sob este nome entendia a edade 
média não somente a península indostanica, a 
de Malaca ou a áurea Chersoneso dos antigos, 
e as ilhas, que lhe demoram para o sul, se não 
também todas as mysteriosas regiões do ul- 
timo Oriente, — a índia era o sonho ebúrneo 
de quantos anhelavam desquitar-se da sua po- 
breza ou mediania com os despojos opimos de 
terras opulentas, onde, segundo as lendas me- 
dievas, as cidades tinham muralhas altíssimas 
de prata, crespas de torres alterosas de oiro 
fino'. A idéa d'este maravilhoso novo mundo. 



I Peschei, Gesch. des Zeitalt. der Entdek., pag. 17. 



268 



VARÕES ILLUSTRES 



cujas grandezas transpareciam das hyperboli- 
cas narrativas dos missionários e peregrinos, 
principalmente de Marco Polo, de Conti, de 
Odorico de Pordenone, e do mentiroso Man- 
deville, andava associada uma noção, que só 
por si constituía um dos themas mais fecundos 
á romanesca imaginativa dos cartographos du- 
rante a edade média. 

Era havido como crença inabalável que na 
índia florecia um grande império, onde a lei de 
Ghristo contrastava com as gentílicas trevas 
das outras regiões orientaes, e que ali domina- 
va um forte potentado, que, cifrando na sua 
majestade em intima alliança a soberania tem- 
poral e a espiritual supremacia, era ao mesmo 
passo sacerdote e imperador. Este príncipe 
christáo, cujos estados não era fácil assignar 
no mappa-mundi, era o famoso Preste João, 
ou o Precioso João, como Damião de Góes pre- 
fere appellidal-o ^ Quem era porém esta mara- 
vilhosa personagem? Em que parte das índias 
assentava a sua morada ? Qual era o caminho, 
que haveria de levar quem do Occidente fosse 



I Dam. de Góes, Chron. de D. Manuel, part. iii, cap. lxi, 
foi. 233. 



VASCO DA GAMA 269 

em sua demanda ? Os geographos não respon- 
diam uniformes. As cartas não eram mais con- 
cordes em demarcar no pergaminho os seus 
dominios. E todavia os papas, as republicas, 
os principes, os que invejavam as riquezas do 
Oriente, e os que desejavam sinceramente dila- 
tar por ali a christandade, ardiam no anceio de 
ter por amigo, alliado e fautor em suas empre- 
zas aquelle encantado Preste João. Já o infante 
D. Henrique dirigira em parte as suas nave- 
gações no propósito de alcançar e descobrir as 
terras doeste principe christão. 

Duvidam alguns historiadores sobre se o in- 
fante D. Henrique ao cogitar e pôr em obra a 
traça grandiosa de suas atlânticas navegações, 
tivera em mente o descobrir o caminho maríti- 
mo da índia'. Se nos pautados, quasi tímidos 
começos de suas navegações, não era este o fim 
immediato, a que tendia o seu empenho gene- 
roso, não se pôde contestar que este foi em seu 
espirito o alvo, a que se haviam de encaminhar 
as suas emprezas, se a edade e a fortuna lh'o 
tiveram consentido. Das palavras de Azurara se 



» Peschcl, Gcsch. des Zcitalt. der Eutdeck. 



270 VARÕES ILLUSTRES 

deprehende que o infante anhelava por saber no- 
ticias e informações acerca da índia e d'aquelle 
soberano mysterioso, que trazia occupada pe- 
rennemente a phantasia dos geographos durante 
a edade média, o rei-sacerdote, o famoso Preste 
João*. 

A noticia do enigmático Preste João appare- 
ce a primeira vez na Europa, cerca do meado 
do século XII, trazida por um bispo oriental e 
é divulgada por Otto de Freisingen, o mais an- 
tigo historiador, que d'aquelle potentado chris- 



t Compendiando Azurara os motivos, que haviam de- 
terminado o infante a mandar descobrir as terras para 
alem do cabo Bojador, assigna d'este modo a quarta 
ra^ão. «A quarta razom foe, porque de xxxj annos, que 
havia que guerreava os mouros, nunca achou rey chris- 
tiaão, nem senhor de fora d'esta terra, que por amor de 
nosso senhor Jhíi Xpó o quisesse aa dieta guerra ajudar. 
Querya saber se acharyam em aquellas partes alguiís 
prittcipes xpaãos em que a caridade e amor de Xpõ fosse 
tani esforçada, que o quisessem ajudar contra aquelies 
inimigos da fé.» Azurara, Chron. do descobr. e conq. de 
Guiné, cap. vii, pag. 46-47. — «Nom soomente daquella ter- 
ra desejava daver sabedorya, mas ainda das Indyas e da 
terra do Preste Joham, se seer podesse.» Azurara, Chron., 
cap. XVI, pag. 94. 



VASCO DA GAMA 27 1 



tão do Oriente faz memoria'. O celebrado 
viajante franciscano Guilherme de Ruysbroeck 
menciona-o sob o nome de Corchan de Corachi- 
ta, ou da China e assigna-Ihe o império na alta 
Ásia. Segundo Gustavo Oppert% o Preste João 
era um soberano, que tendo os seus estados na 
China septentrional e pertencendo á dynastia 
Leáo, perseguido e desthronado pelos tártaros 
fundadores da dynastia Kin, deixou com uma 
horda do seu povo, — os carachitas, — o antigo 
território e com o titulo de Corchan instituiu 
um novo império, que decorria desde o Altai 
até o lago AraP. O veneziano Marco Polo, 
ainda colloca na Ásia, na Tartaria, o famige- 
rado Preste João, como rei ou imperador dos 
carachitas^ e dá como sujeitos á sua domina- 
ção os povos enigmáticos de Gog e de Magog^ 
Os cartographos na edade média, cubiçosos 



1 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. i53. 

2 Der Presbyter Johannes (O Preste João) Berlim, 
1864, cit. em Peschel, Gesch. der Erdk., pag. i53. 

3 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. 1 53. 

4 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. i5(j. 

5 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
tngr., III, pag. 333. 



272 VARÕES ILLUSTRES 



de enriquecer as suas cartas com as lendas geo- 
graphicas mais acceitas á phantasia popular, 
principiam desde o século xiv a assignar geo- 
graphicamente ao Preste João os seus estados. 
A principio é na Ásia que, segundo elles, reina 
o mysterioso potentado. No mappa-mundi de 
Ranulpho Hygden, do século xiv, — o primeiro 
monumento, em que figura o famoso dynasta- 
sacerdote, — o seu reino é representado na Tar- 
taria ' . 

O mappa-mundi do Chronicon de i32o des- 
loca o Preste João desde as ásperas paragens 
da Ásia septentrional para lhe dar na índia 
assento e moradia 2. 

O veneziano Marino Sanuto no xiv século 
assigna-lhe os estados na índia inferior'^, que 
segundo a carta do museu Borgia, de 1404, 
devia ser um synonymo da China ou do Gathai^. 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la CaV' 
togr.^ III, pag. XX e 10. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
tofrr., III, pag. XX. 

3 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. 195. 

4 N'esta carta ao Oriente do rio Ganges está escripto 
este letreiro : «índia inferior... magni Canis imperatoris 



VASCO DA GAMA '2']'Ò 



Os cartographos deixam ainda por algum tempo 
estanciar o famoso Preste João nas primitivas 
regiões do seu império fabulado. O mappa-mun- 
di do palácio Pitti, de 141 7, conserva ainda a 
nebulosa personagem junto a uma [cadeia de 
montes, que terminam no golfo de Gorêa e 
apresenta desenhadas as torres construidas pelo 
Preste para obstar ás incursões hostis nos seus 
domínios. 

No século XV o Preste João é transportado 
pelos cartographos á Africa oriental. Emquan- 
to a carta do palácio Pitti ainda obedece á an- 
tiga tradição, o mappa-mundi do manuscripto 
de Pomponio Mela, na bibliotheca de Rheims, 
que tem a mesma data de 141 7, converte em 
príncipe africano o velho Preste João, que nos 
séculos precedentes fora tártaro ou chinez^ 

No mappa-mundi do museu Borgia, do sécu- 
lo XIV, o rei-sacerdote tem a sede dos seus es- 
tados em a Núbia christan, e a munificência do 
cartographo extende-lhe os estados por todo 



tartarorum sedes.» Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. 
et de la Cartogr., iii, pag. 274. 

I Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, pag. XXI. 



274 VARÕES ILLUSTRES 



O litoral do Atlântico desde Gades até o cha- 
mado Rio do Oiro^ De maneira que segundo 
este monumento cartographico, as duas predi- 
lectas aspirações da edade média, o Preste João 
e o Rio do Oiro, o mysterioso potentado chris- 
táo do Oriente e a região maravilhosa do me- 
tal mais cubicado, se haveriam de encontrar nos 
domínios do mesmo rei. 

O veneziano Andrea Bianco, no mappa-mun- 
di pertencente ao seu notável portulano de 
1456, figura as terras do Preste João acima de 
Zanguebar^. 

A carta de Leardo, de 1448, situa o reino 
do Preste junto da que ali vem designada com 
o nome de Ethiopia do Egypto^. 

No século XV o errabundo Preste João, pelo 
consenso dos cartographos, assenta de vez a 



1 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de Ia Ca)'- 
togr., III, 295-296. 

2 Vise. de Santarém, Hist. de la Cosm. et de la Car- 
togr., III, 390. No mappa-mundi o letreiro eorresponden- 
te ao reino do Preste, é no latim bárbaro dos cartogra- 
phos. «Imperiwu prete Janis.» 

3 Vise. de Santarém, Hist. dela Cosm, et de la Carto- 
gr., III, 436. 



VASCO DA GAMA 2'j5 



sua morada nas terras da Abyssinia, onde já 
desde largo tempo se davam como existentes 
numerosas christandades. No século xiv é o fran- 
ciscano Marignola o primeiro viajante, que dá 
noticia de um Preste João africano, assim 
como antes d^elle Ru3^sbroeck e Marco Polo 
haviam divulgado a existência de um asiático 
Preste João. Era desde antigos tempos já sa- 
bido que no v século Nestorio, patriarcha de 
Constantinopla, condemnado no concilio de 
Epheso pela heresia de attribuir a Ghrísto duas 
pessoas, uma divina e outra humana, sem união 
hypostatica ou substancial, fora forçado a dei- 
xar a sua cathedral e a sair do império grego 
do Oriente e que muitos dos seus proselj^tos 
tinham fundado na índia, na Ásia central, e 
talvez na China ê na Tartaria egrejas e com- 
munas de christãos; Os Eutychianos ou mono- 
physitas, outros herejes do v século, que ao 
revez de Nestorio^ não reconheciam em Jesu- 
Christo senão uma só natureza, apesar de con- 
demnados no concilio de Chalcedonia haviam 
diffundido a sua heresia por muitas regiões 
orientaés c fundado egrejas na Abyssinia, onde 
os christãos separados da communhão romana 
eram chamados jacobitas. 



276 VARÕES ILLUSTRES 

A noção confusa, que d'estas christandades 
orientaes chegara á noticia dos europeus desde 
os primeiros tempos das cruzadas, deu origem 
ao mytho de que um grande potentado, meio 
sacerdote e meio imperador, residia nas terras 
do Oriente. 

A imaginação da edade média corporificou na 
pessoa do Preste João a cliristandade oriental. 
Buscando affinidades entre esta personagem 
singular e a lenda, que suppunha ainda existen- 
te o discípulo dilecto do Redemptor, chegava 
a mais phantasiosa credulidade a professar que 
na purpura do Preste vivia transfigurado o pró- 
prio evangelista S. João'. 

Os principes christãos anceiavam por desco- 
brir o famoso imperador e têl-o por amigo e 
alliado contra os soberanos gentios ou musul- 
manos do Oriente. Quando no século xiv e no 
XV principalmente 2 o 1- reste João foi trasladado 
pelos viajantes e cartographos desde a índia ou 
a Tartaria até ao Habesh, ou Abyssinia, já des- 



1 Ritter, Gesch. der Erdk. iind der Entdeck., pag. 224. 

2 Vise. de Santarém, Recherches sur la priorité dcs dé- 
couvertes, etc., pag. 283. 



VASCO DA GAMA 277 



de muitos annos existiam relações entre os pon- 
tifices romanos e os christãos jacobitas d^aquella 
região' . 

Parece averiguado que o imperador abexim 
em 1427 enviara uma embaixada a el-rei AíTon- 
so V de Aragão^. 

O figurar-se na Europa o rei ou imperador da 
Abyssinia, como simultaneamente sacerdote e 
soberano temporal, teria porventura sua origem 
em que elle era ainda mesmo no espiritual, 
como se fora o chefe da sua egrcja, á similhança 
do que succede com os reis de Inglaterra a 
respeito da egreja anglicana depois de reforma- 
da e com os autocratas da Rússia no que per- 
tence á egreja chamada grega-orthodoxa-^. 



1 Peschel, Gesch. der Erdk., pag. i(38. 

2 Vise. de Santarém, Recherchcs siir la priorité dcs dc- 
coitverteSj ctc., pag. 322. 

3 «Em todo o reino (na Abyssinia) se nam íaz mais no 
espiritual que o que o Emperador quer, consultando seus 
sacerdotes e cabeças dos mosteyros de seus frades, tendo 
os Empcradores usurpado pêra sy impia e tiranicamête 
todo o governo espiritual.» Fr. António de Gouveia, Jor- 
nada do arcebispo D. Alei.vo de Meneses, etc. Coimbra 

1606, foi. 17 vcrs. 

24 



278 VARÕES ILLUSTRES 

Desde as primeiras navegações ordenadas pelo 
infante D. Henrique até os últimos tempos de 
D. João II, o Preste João foi sempre uma das 
mais instantes preoccupações dos que tinham 
postos na índia os olhos da sua cubica, e anhe- 
lavam por fazer do famoso rei-pontitice o ajuda- 
dor mais efficaz das suas ambições no Oriente'. 

Ao passo que os navegantes portuguezes iam 
adiantando mais e mais nas suas viagens ao 
longo da costa de Africa, não se descuidava 
D. João II de mandar exploradores, que por 
terra adquirissem também informações das par- 
tes orientaes. 

Para as terras do Preste despachava o rei de 
Portugal a Fr. António de Lisboa e Pêro de 



1 «... O Preste João das índias, tão nomeado em toda 
Europa, por ser um príncipe tão grande e tão podero- 
so, como os escritores delle diziam, e Christão, cõ que 
os Portugueses se pretendiam liar, pêra se favorecerê 
hus a outros e depois de terem conhecimento do Reyno e 
Império dos -abexins, a que chamão Preste João, por 
não acharem outro Príncipe Christão poderoso n'estas 
partes... procurarão de o reduzir com toda a christandade 
d'aquelle Império á obediência da santa Igreja Romana.» 
Fr. Ant. de Gouveia, Jornada do arcebispo D. Aleixo dé 
Meneses, Coimbra, 1606, li. 18. 



VASCO DA GAMA 279 



Montarroyo, os quaes não ousaram adiantar-se 
á Abyssinia por não saberem o idioma arábigo'. 
Depois mandou el-rei D. João II a descobrir 
o Preste João, e a terra, d^onde vinha a espe- 
ciaria, a Pêro da Covilhã e AlTonso de Paiva-, a 
quem Gaspar Corrêa, negando-lhe a naturalidade 
portugueza, chama Gonçalo de Pavia '^, os quaes 
depois de jornadearem juntos até Aden, se apar- 
taram um do outro, indo Pêro da Covilhã até á 
índia, e Aílbnso de Paiva para a Ethiopia, se 
pomos fé no que se lê nas Décadas de Barros, 
na Historia de Castanheda ^ e no livro de Fran- 
cisco -Alvares 5, onde o Preste apparece com o 



1 Barros, Decad. i, liv. iii, cap. v. 

2 Castanh. Hist. do descobr. e conq. da índia, liv. 1, 
cap. I. 

3 Rarrosj Decad. i, liv. iii, cap. v— Gasp. Corrêa, Len- 
das da índia, tom. i, part. i, cap. i, diz «chamado Gon- 
çalo de l^avia, de casta canário, que falia va castelhano». 

4 Gaspar Corrêa inverte os destinos dos dois explora- 
dores, fazendo partir para a índia a Gonçalo de Pavia, e 
logo directamente as terras do Preste a Pêro da Covi- 
Ihan. 

3 F. Alvares, Verdadeira informação das terras do 
Preste João, part. i, cap. cm. 



28o var5es ILLUSTRIÍS 



seu verdadeiro nome de Negii^^ com a signi- 
ficação de rei. 

Pêro da Covilhã depois de visitar Calecut, 
n'aquelle tempo o grande empório da índia, e 
as cidades de Goa e Cananor, foi ter ao Cairo, 
onde achou nova que era ali fallecido o compa- 
nheiro. E encontrando dois judeus, Joseph e 
Rabi Abraham, que D. João II despachara havia 
pouco áquellas regiões orientaes, mandou pelo 
primeiro a el-rei as informações, que a respeito 
da índia alcançara em suas viagens. E como pe- 
los dois judeus o soberano lhe encommendára 
que se não tivesse achado ainda o Preste, se 
esforçasse em o buscar, foi Pêro da Covilhã á 
corte do monarcha da Abyssinia-, onde viveu 
por muitos annos, porque o Neguz lhe recusou 
a permissão de sair dos seus estados, segundo o 
estylo, usado em sua corte com todos os foras- 
teiros que uma vez aportavam ao seu império^. 

No anno seguinte áquelle, em que de Portu 
gal haviam partido Pêro da Covilhã e Aflbnso 



1 F. Alvares, Verdad. inform., etc, pnrt. ii, cnp. ix. 

2 Barros, loc. cit. Castanheda, loc. cit. 

3 F. Alvares, Verdad. inform.^ etc, part. i, cap. cm. 



VASCO DA GAMA 28 I 



de Paiva, teve D. João II informações a res- 
peito do Preste João e seus dominios por um 
frade ou clérigo abexim, que de Roma lhe envia- 
ram, e a quem João de Barros dá o nome de 
Lucas Marcos ^ Por este mensageiro escreveu 
o soberano portuguez ao Preste João. Por aquel- 
les tempos chegava da viagem memorável, em 
que descobrira finalmente o cabo Tormentório, 
o navegador Bartholomeu Dias com o seu com- 
panheiro João Infante-. 

Partira o intrépido mareante em 1486, levan- 

í Barros, Decad. i, liv. iii, cap. v. 

2 Em todos os historiadores das nossas navegações se 
attribue o mando da expedição naval, que descobriu o 
cabo da Boa Esperança, a Bartholomeu Dias. Gaspar 
Corrêa, nas Lendas da índia, discorda inteiramente d'esta 
versão. Na sua narrativa nem apparece memorado o nome 
de Bartholomeu. No logar d'elle Gaspar Corrêa põe 
João Infante, homem estrangeiro tratante, (quer dizer ne- 
gociante ou mercador) que muitas ve:^es vinha a Lisboa, 
que muito sabia da arte de navegar, e a este, segundo a 
narração das Lendas, enviou D. João II com quatro cara- 
vellas a correr a costa de Benim e a descobrir quanto po- 
desse alem do que já era conhecido. Gaspar Corrêa não 
conta que d'esta vez fosse descoberto o cabo da Boa Es- 
perança, antes artirma que á volta de João Infante lhe as- 
segurou D. João II que lhe mandaria construir navios 



282 VARÕES ILI.USTRES 



do por encargo descobrir a índia e o encoberto 
Preste Joáo, cujo nome andava inseperavelmente 
associado á desejada região da especiaria, e de 
quem D. João II tinha fé que seria auxiliado na 
empreza de ligar o Oriente a Portugal ^ 

O temeroso cabo, baptisado pelo seu desco- 
bridor com o nome de «Tormentoso)», chrismou-o 
o rei, como em signal de fausto auspicio, e pre- 
nuncio de venturosas navegações, chamando-lhe 
Gabo da Boa Esperança, com que ainda hoje 
attesta ao mundo o grande feito naval dos por- 
tuguezes e assignala o primeiro estádio n^iquella 
empreza memorável, gloriosamente concluída 
pelo immortal Vasco da Gama. 



grossos e fortes, segundo elle desejava, para descobrir o 
cabo da Boa Esperança, que com as caravellas não pode- 
ram descobrir. São estas que pomos em itálico as palavras 
textuaes do autor das Lendas. Gasp. Corrêa, Lendas da ín- 
dia, tom. I, part. i, cap. 11. 

I «E porque n'este tempo delrey D. João, quando fat- 
iavam na índia, sempre era nomeado um rey mui pode- 
roso, a que chamavam Preste João das índias, o qual di- 
ziam ser christão, parecia a elrei que per via deste podia 
ter alguma entrada na índia.» Barros, Decad. i, liv. iii, 
cap. IV.— Gastanh., Hist. do descobr. e conq. da índia, 
liv. I, cap. 1. 



índice 



Cap. Pag, 

I — OsCCLllo XV 3 

II — O tempo dos grandes descobrimentos ... i3 

III — Portugal e as nações civilisadoras 23 

IV — O que determinou Portugal aos grandes des- 

cobrimentos 33 

V — -A civilisação portugueza no século xv . . . 47 
VI— As navegações na costa de Africa durante a 

antiguidade 57 

VII — As navegações na costa de Africa durante a 

antiguidade (continuação) 79 

VIII — A sciencia geographica na antiguidade . . . 95 

IX — A geographia da edade média ii5 

X — A geographia dos árabes i3i 

XI — As lendas geographicas da edade média . . 145 
XII — Os navegadores extrangeiros na costa de 

Africa antes do infante D. Henrique . . . 171 
XIII — Os navegadores portuguezes na costa de 

Africa antes do século XV 193 

XIV — As navegações c descobrimentos portuguezes 

desde o xv século até Vasco da Gama . . . 209 

XV — As antigas communicações com o Oriente. . 235 



GALERIA 



DE 



VARÕES ILLUSTRES 

DE PORTUGAL 

POR 

J. M. LATINO COELHO 



N." I— Luiz de Camões i^í^ooo réis 

N.0 2— Vasco da Gama: 

Primeira parte — Os Precursores 
DE Vasco da Gama i.^í^ooo » 



NO PRELO 
N." 2 —Vasco da Gama — Segunda parte i.'?!^ooo 



^' 



f^''- 

v^ ^-^ 



^_^ ^^ ,>Y^-^'?^' 



Vj^tó^- 






/, 







k-' > v^y^' " 









s 



-t- 



■r^i 



v,- 



.'■^\T^ 






^lS-W->s: -Mil 



r^ 



/^M>ni 



X 



i^: 



-v> 



~i. 



^^i 






y 



% 



■r 



A v: 



:V-^> 



/■ 



■-t-, 






^ 



,^^ 



■^' 



r 



^ 



■A-; 



^ 



W 



IX' 



¥( 



>-, 



K" 



L^: 



"iM. 






r 







^m^^-w^ 



^^ 



n ^ 



)^r 



N/ ^^^ki 



•^-if